Poesia,

Lição de plantas

Matéria e metáfora nos jardins da poeta Ana Martins Marques

31maio2019 - 22h00 | Edição #23 jun.2019

Estes jardins de Ana Martins Marques são um espaço a abrir e habitar, mais que cruzar ou passear. Quando uma linguagem poética chega àquele estado de consistência reconhecidamente pessoal, seja pela eleição dos procedimentos formais, seja pela matriz da sensibilidade que os rege, os poemas surgem como uma nova companhia, empenham-nos numa nova familiaridade. 

A poesia de Ana já é há algum tempo um vivo recanto de encontro. Apresenta-se agora neste O livro de jardins, numa edição cuja incrível delicadeza — plaquete dobrada e composta em tipografia artesanal, em papel feito de bambu, a ser desenlaçada de um fio fino e elegante — contrasta as aberrações do nosso tempo, potencia a intimidade espiritual de cada experiência vivida pelo sujeito efetivo de uma linguagem. Os poemas se amarram neste livrinho numa espécie de elegância franciscana, que se orienta com a disciplina que recria e acolhe os sugestivos jardins das criaturas e da natureza. Que são plantas e flores nesse jardim? Quem planta e colhe? Quem nele fica, ao visitar?

A ligação estreita entre os 21 poemas sugere quase uma narrativa, um andamento de momentos avizinhados, brotados dos “vários tempos” de “um pequeno jardim, com plantas antigas e urtigas, mato ainda não arrancado”, explica a poeta numa postagem. Espaçados na origem, esses poemas são laços íntimos que costuram uma poesia autoral. A poética se sustenta enquanto se aventura no mundo com discreto e reativo espanto, e se descobre e se afirma em resolutas disposições formais — dessas que não deixam a gente duvidar de que a poesia compareceu.

A largueza metafórica desses jardins expõe-se em sua materialidade verbal, como quem faz da flor “a palavra flor”, na lição de João Cabral. Na poética de Ana há a valorização do livro, do objeto bem concebido e composto, tal como já se via na autoexposição de O livro das semelhanças (2015). Mas há também as indicações fortes do silêncio ou do abismo para os quais cada palavra aponta. 

Dividida entre a segurança da nomeação das coisas e o intervalo que esta sempre supõe, a poeta faz desfilar no poema “Jardinzinho” (jardim tão nosso, contrastando com os dos ingleses, franceses e japoneses) tão somente os nomes compostos de flores, como “dente-de-leão”, “língua-de vaca”, “mão-de-onça” etc., num inventário em que os dois signos formadores, quebrados em versos, fazem e refazem uma terceira coisa, uma planta-nome, pronunciando-se como um luxo nos jardins humildes. Essa duplicidade, exposta como metáfora viva, revela-se na formação de um nome e desabrocha como flor nova diante dos olhos reeducados do leitor. O “jardinzinho” simples e primitivo da primitiva nomeada é também um passo educativo para a poesia. 

Pedagogia

Há uma fiel pedagogia na poética de Ana, lição de coisas a absorver e a propagar: lição do “aprende-se” (com o “dente-de-leão”), lição do “lembram-me” (os cactos), do “você o acompanha” (ao girassol). São providências de quem “se aplica no cultivo”, decisão da pessoa que sabe reconhecer o necessário ajuste da criação humana aos planos da natureza. Entre os vivos jardins de Ana sente-se passar uma discreta aragem do sentimento trágico de quem, ao homenagear a vida, entrevê nas flores a ausência a que um dia ornarão. Como não há propriamente lamento, algo de estoico se situa entre a servidão das flores vivas e o destino que elas carregam em sua natureza.

Há que se acolher, pois, o trabalho da poesia de quem diz “passo o dia cortando”, ou de quem lamenta “Este ano não floriu”, ou ainda de quem confessa “você se aplica no cultivo”: uma arte assim não esquece o que é também o fundamento ético de atenção ao observado, ao valor do que se produz nomeando, ao tempo do empenho, ao efeito pretendido do construído. Essa consciência moderna do fazer poético alimentado por um saber linguístico associa-se aqui a uma sensibilidade aplicada tanto no domínio das percepções humanas como na relativização da transcendência.

A economia de recursos nos poemas de Ana, valorizada para destacar a força impressiva dos objetos que a estimula, dispensa-a, por assim dizer, de uma exaltação mais subjetiva, e assegura a ação paradoxal de uma espécie de impessoalidade superior que por isso mesmo acaba se confirmando como marca de um convicto posicionamento lírico. 

Terá um pouco do mundo de Cabral a construção desse distanciamento, mas a poesia de Ana está sempre a lembrar que a margem de objetivação e impessoalidade que ela alcança existe para marcar sua presença sensível, que tanto mais cresce quanto mais parece se afastar. É a sensação de que há sempre algo de trágico rondando nesses jardins cultivados, sob a investigação de um olhar entre estoico e compassivo.

Ao se voltar para plantas e flores, ao cuidar desses nomes, a poeta se pergunta se não valeria mais “plantar um jardim/ do que escrever poemas sobre jardins”. A questão clássica de se determinar a escolha entre ações ou palavras — dilema de pensadores entre soldados — é permanente nessa poética, que sabe, no entanto, determinar-se enquanto se processa: Ana cuida das “figuras de folhagem”, reintroduzindo na retórica a fibra viva do que quer nomear. 

As flores, aqui, não são inocentes: elas são 
flores de fumar
flores que devoram insetos
flores que adornam a morte
com mais morte. 

Tais jardins também se plantam com palavras. “Todo jardim é imprevisível”: por se constituir como desafio, ele leva a poeta à necessidade de um enraizamento, como quem “enfiasse os pés na terra”, para logo de novo se mover e se afastar para longe. 

Esse movimento de mergulho e emersão, ou de expansão e retraimento, figura os tempos próprios da verdade recolhida e da forma pela qual a poeta dá notícia desse recolhimento. Rilke o formula, na tradução de Manuel Bandeira: 

Rosa, ó pura contradição, volúpia
de ser o sono de ninguém sob tantas 
pálpebras.

Como extensão dos jardins de Ana, numa segunda parte do livrinho o leitor encontrará representados os jardins de outras sete poetas — sim, mulheres todas —, afinidades de raízes múltiplas, tão diferentes na potência de cada uma, tão solidárias na tarefa comum da escavação de si, do mundo e das palavras. São tributos vários: por exemplo, à essencialidade dos símbolos iluminados de Orides Fontela, à beleza da violência enlouquecida de Sylvia Plath, à contundência sempre surpreendente de Wislawa Szymborska, à solenidade dos silêncios desistentes de Alejandra Pizarnik. 

Bem entendida, essa ampliação de horizontes femininos, angulada pelo posto da específica jardineira Ana, ecoa para além de “homenagens”: são afinidades profundas, diversamente definidas, que trazem à cena não o feminismo dos slogans, mas o reconhecimento histórico e espiritual de quem se acumplicia com o gênero numa época de novas e profundas redefinições. Constatação que pode nos trazer a uma última questão: que lugar e papel tem a poesia de Ana em nosso tempo?

Creio haver nela uma articulação rara entre a captação de experiências sensíveis essenciais que se apresentam como súmulas de uma poética; uma sensibilização aguda nas experiências cotidianas, que imediatamente se abrem ao campo da investigação; uma configuração muito pessoal de um sujeito que prefere a força da insinuação à definição de uma presença; uma discreta ironia que se instala entre uma percepção definida das coisas e uma sombra delas projetada em abismo; um compromisso com a exposição do fazer poético no interior mesmo da experiência revelada. Em suma, a autoria madura de quem encontrou seu lugar de sujeito entre os desafios da massificação e da impessoalidade que regem nosso tempo.

Nada mais difícil, para a crítica, do que definir a frequência precisa de uma poesia. Ajude-nos um poema como “dente-de-leão” — flor com a qual se aprende um movimento existencial e poético, lição que nos dão 

certas flores
para quem ser
é espalhar-se
e que num sopro
se soltam. 

Essa busca inquieta de contornos essenciais dos seres como das coisas e essa inclinação para a materialidade das palavras se plasmam com segurança e encantamento nos poemas de Ana Martins Marques.  

Nota do editor
O livro dos jardins é o livro de junho do Clube 451. Veja mais informações à p. 2. 

Quem escreveu esse texto

Alcides Villaça

Poeta e ensaísta, é autor de Viagem de trem (Duas Cidades).

Matéria publicada na edição impressa #23 jun.2019 em maio de 2019.