Literatura,

Caminhos vivos

Aparentemente agarradas ao menor e ao presente, as crônicas de Corsaletti reencontram verdades antigas em pautas novas

15nov2018 - 18h08 | Edição #9 mar.2018

Ao pular das páginas fugidias de jornal para o corpo de um livro, a crônica ganha novo impulso e outra aspiração: não apenas se distingue entre matérias jornalísticas, mas afirma-se com a ênfase de gênero pessoal que o autor consegue para ela. Se no jornal o olhar avulso de um cronista traz a singularidade de um observador em seu exercício de visada, no livro o parentesco entre as páginas reunidas arma um efeito de permanência, acentua um estilo, reitera perspectivas, assina e emancipa um certo discurso. Localiza um sujeito em circulação.

A qualidade do movimento impõe-se logo, para se considerar uma matriz vivencial e escritural do poeta/cronista Fabrício Corsaletti. Está presente já no título de seu livro de estreia — os poemas de Movediço (2001) — e no deste recém-lançado Perambule (crônicas, com passagens em verso). Quando o sentimento da instabilidade desse morador do movimento roça o drama, ou mesmo o pantanoso, o leitor prepara-se para a melancolia mais grave; e se desnorteará quando sobrevier uma curtida jornada boêmia pelas ruas, desmentida no passo seguinte por angústia indefinida, logo consertada pela presença de um amigo, por um rompante amoroso, mas quem sabe reativada numa próxima estação sombria. 

Tal desconcerto do mundo poderia se instalar de vez, não o enfrentasse a firmeza a um tempo lúcida e relativista, na plataforma móvel das experiências de vida e da linguagem de Corsaletti, tão solidariamente casadas. A confiança que creditamos à companhia oferecida por esse viajante da cidade e do mundo deve instigar-nos a entender a procedência e a qualidade da camaradagem.

Ao que, afinal, nos chama esse cronista que confessa: “Não gosto de falar do que não entendo”, sugerindo que entende do que fala? Do que entende? Do que fala? “Depois de fechar um poema, vou até a padaria como se desse a volta ao mundo” — é o movimento acusado na crônica-título do livro. É um trajeto proposto para vida, com um sujeito dentro — sujeito que fecha um poema para abrir um mundo, ou abre o mundo para fechá-lo num poema. Ou numa crônica.

É nessa sua condição rara de sujeito que se pode acompanhá-lo como recompensado leitor de sua prosa e de sua poesia, se a separação ainda faz sentido. Mesclado entre passantes, conduzindo sem alarde sua expectativa de felicidade, ritualizado em grupo ou isolado na mesa reflexiva do boteco, não quer nada de heroico além da humanidade a que tem direito e que curte como se fosse ocasional, sendo funda. É sobretudo a esta que ficamos presos. Competência de escritor entendida como verve, expertise de pessoa atualizada, sismógrafo ideológico ou cultivo irônico encontram-se em vários cronistas de hoje; a singularidade de Corsaletti está na firme reação às fáceis conveniências.

Experiência e verdade

Há mesmo uma aposta desafiadora — quase diria regressiva — no valor da experiência pessoal como ponto de partida para alguma verdade, que a linguagem não pode trair, que antes ajuda a instalar como parâmetro para o movimento. Ter voz própria é uma façanha na modernidade, impõe conjugar vivências contraditórias sabendo encontrar uma afirmação de vida “na solidão povoada que é cabeça de todo escritor”. Aparentemente agarrada ao menor — ao detalhe de um “imenso pote de manteiga”, de uma caneca de alumínio real e imaginária “que brilha na sombra quando bebo água”, das faíscas de um sinistro amolador de facas —, a crônica “estilo vira-lata” conhece e frequenta muitos contrapontos seus, por exemplo o estilo “chique” de Lampedusa ou uma sentença de Valéry, e tece com a tradição das artes uma fina mas relaxada parceria. O efeito disso está em nos lembrar que o menor é, com frequência, uma redução feita pelo leitor, não pelo artista.

O leitor de seus livros anteriores, em prosa ou em versos, sempre singulares, confirmará neste Perambule uma disposição essencial de Corsaletti: estar disponível tanto para os prazeres já firmados como para as descobertas. O apego às bases sólidas de uma verdadeiramente fecunda formação familiar e interiorana (vejam-se as narrativas de King Kong e cervejas, de 2008) não exclui a sensação de ter “a alma lavada numa água suja”, ou de gostosamente, em qualquer boteco, “perder o comando da vida”.

Espelho severo

O hedonismo aparentemente fácil mira-se nas exigências de um espelho discreto mas severo, supõe critérios de valor elásticos mas incontornáveis, parece mesmo ocultar a iminência de um drama maior. A novidade de encontrar no pai e amigo o prazer de um “droneiro” tecnológico que vasculha na cidadezinha as vidas dos conhecidos a partir da leveza do espaço aéreo é logo substituída por um retorno, pela condição primitiva de um pai e de um filho já no carro, recolhido o drone, de novo “presos em nossos corpos grandes e pesados”. Esta é, no fundo, uma alternância entre desfrutes distintos, pela qual se revigora nas crônicas de Perambule a sensação de que o apego ao presente não se pauta pela novidade, mas por alguma verdade antiga que se confirma numa pauta nova.

Desviando-se dos apelos da crônica moderninha, a atenção ambulante ao imediato e a ancoragem das experiências na geografia real das cidades frequentadas — sejam elas Santo Anastácio, São Paulo, Rio, Paris, Buenos Aires ou a próxima — encontram matéria viva para palavras vivas, evitando, até onde for possível, as máscaras que posam de “literatura”. Comparações poéticas e imagens reveladoras são convocadas para coabitar os movimentos do cronista, “como uma trapezista que conseguisse rir de uma piada idiota […] enquanto viaja de ponta-cabeça sobre o abismo”, ou “como se um bando de cachorros invisíveis quisesse estraçalhar seus tornozelos”. Uma justa rebelião, uma busca de verdades informais e um tão prazeroso como agônico compromisso com o viver fazem de Corsaletti um escritor que, imerso em nosso tempo de fragmentos, encara-os com rara honestidade, em linguagem que ao mesmo tempo os absorve e recusa, na desconfiança de que há muita coisa a conhecer, para frente e para trás, na vida e nas palavras, pontos a frequentar.  

Quem escreveu esse texto

Alcides Villaça

Poeta e ensaísta, é autor de Viagem de trem (Duas Cidades).

Matéria publicada na edição impressa #9 mar.2018 em junho de 2018.