Literatura brasileira,

Tríades precisas

Mariana Salomão Carrara narra a inteireza de três mulheres constituídas em pedaços de dor

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

Mariana Salomão Carrara é muito boa de encontros. A escritora paulistana tem a habilidade de construir química entre personagens, palavras e contextos. Carrara faz figuras interessantes se cruzarem, vocábulos inesperados casarem e camadas complementares se integrarem. Este é um texto de três em três, como são três as sílabas do sábado. Três fragmentos que reúnem um ciclo completo: nascer, viver e morrer. Não fossem as sílabas do sábado é guiado por essa tensão, a parte e o todo se alternam no protagonismo para compor o luto de Ana, a narradora que compartilha o que vem depois de uma tragédia flagrante e inescapável. André, seu companheiro, morreu quando saía do prédio para ajudá-la a carregar um quadro pesado demais. Era um pôster de um filme pouco popular, mas que o casal conhecia bem. Assunto público que era só deles, íntimo. Não foi uma morte qualquer. Como o pôster, que cumpria seu destino ao se tornar algo grandioso, André cumpria o seu ao ser o ponto de aterrissagem de Miguel, o vizinho que se jogou da janela naquela hora, naquele minuto, naquele segundo. “Na frente do prédio os dois homens amalgamados no asfalto, ursos engalfinhados numa luta, era difícil dizer quem teria começado a guerra.”


Antes de Não fossem as sílabas do sábado, o luto já era tema central nos romances de Mariana Salomão Carrara

Foram-se os homens, ficaram as mulheres. Miguel deixou Madalena, a esposa, certamente a culpada pelo “suicídio desabado”. Ana entende o vizinho, devia estar sofrendo, o coitado. Mas não a vizinha — que raios de mulher não consegue evitar a catástrofe? André deixou Ana e também Catarina. Nem nascida era, a Tina, viveu todinha na ausência; mas respeitosa, cuidadosa, silenciosa. “A Tina cresceu depressa e nunca avançou para além das fronteiras da minha dor, se uma vez chorou alto demais por causa de um acampamento que não achei seguro logo em seguida aquietou e lembrou que não podia morrer.”

Os amigos, o porteiro, o delegado — tão insensível! — não conseguem diferenciar a dor de Ana da de Madalena; as duas viúvas são igualmente a concretude do sofrimento. Mas Ana consegue. Não vê coincidências, semelhanças ou proximidade nos lutos. Mantém distância, tem aversão, não quer saber. Como se não fosse legítima a dor de Madalena, vê na outra intermináveis “e se”. E se ela não tivesse pedido ajuda a André? E se ele tivesse colocado uma peça de roupa a mais? E se o elevador tivesse atrasado? E se o porteiro tivesse se alongado no bom-dia? A presença de Madalena é o insuportável, a ausência, o futuro negado.

A autora nos faz ver, ouvir e sentir o infortúnio com precisão sem dizer o horror com todas as letras

Mas Madalena está comprometida com o encontro e vai se infiltrando pelas frestas. Começa tocando a campainha de leve, quase sem som, e logo vai entrando sem bater, preparando o almoço, sentando no sofá. Por mais que resista a princípio, Ana não nega um comparecimento tão contundente. Mãe solo, precisa de ajuda, e os tentáculos da vizinha até que não são de todo maus. Naquele sábado, abriu-se um vazio imensurável, indistinto, sem nome. Só em três para começar a fechá-lo. Porque o que falta de sílabas em Ana sobra em Madalena e Catarina, “estafadas de sílabas”.

Pedaços e inteiros andam lado a lado desde o primeiro parágrafo. São simultâneos, acoplados, indissociáveis. A cena inaugural — tão boas as imagens que se criam que não há hesitação em chamar de cena — é Ana reparando em Madalena pela primeira vez, na sala de espera do Instituto Médico-Legal. “Ela era inteira um desfiguramento. Uma mulher em ruínas.” Dali em diante, são desmembramentos seguidos. Tudo o que parece largo, longo, duradouro é ao mesmo tempo estreito, curto, perene. Como o tempo daquele sábado, tão breve, mas que durou para sempre. “O tempo que o Miguel levou para atingir o André é o tempo de uma criança dizer sábado.”

Como tudo que permanece, André está também nos detalhes. Na almofada que agora parece entristecida, na fruta de que Catarina gosta mas a mãe não, no pôster enquadrado depois de tanta demora. São os pedacinhos que lembram a Ana o amor que morreu, que contam a Madalena do vizinho que perdeu e que montam a Catarina o pai que não conheceu.

Arquitetura do luto

Ana narra dez anos depois. Arquiteta, recompõe a ausência de André como a encaixar peças, a desenhar a planta de uma casa. Há atenção aos lugares precisos, aos cantos que não podem ser vazios, aos corredores cheios demais. A casa que foi dos dois exala a impossibilidade, e os móveis, sem sentido como tudo o mais, precisam de novos postos, novas luzes, novos tons. Os capítulos breves que vão e voltam no tempo, oscilantes como o luto, descamam as miudezas da ausência na geografia da vida da narradora.

O que queria mesmo era encontrar a planta para uma nova vida, mas sua trena não contorna essa extensão. Inviável que é, a pressa não tem vez. Então, Ana se concentra nas hachuras e desenha centímetro por centímetro. Se for preciso uma década inteira, que seja. Os cômodos se conectam à medida que novos elementos aparecem como cola para formar um novo todo. Um encaixe complicado: não adianta tentar montar um quebra-cabeça igual ao de antes; os fragmentos originais se esfacelaram. Por isso a nova paisagem nasce peça a peça, na congregação precisa das três mulheres.

Além de ser boa de encontros, Carrara é boa de títulos. A paulistana investe nos nomes grandes, que amarram ideias completas, mas sem fechá-las. Há inteireza e há espaço para ilações, um jogo atraente. Uma linha única que abre ao leitor uma sequência de janelas, antes mesmo da primeira página. Antes de Não fossem as sílabas do sábado, a escritora publicou as novelas Fadas e copos no canto da casa (Quintal Edições) e Se Deus me chamar não vou e É sempre a hora da nossa morte amém (ambas da Nós). O luto já era tema central nos dois últimos. Mas sutil, metafórico, diluído. Agora, concreto, delineado, incontornável.

Não é fácil escrever com delicadeza sobre uma tragédia arrebatadora. Mais difícil ainda é construir com sutileza sem abrandar o inabrandável. Mas eis a magia da boa escolha de palavras. A autora não é econômica ao descrever o infortúnio; no entanto, nos faz ver, ouvir e sentir com precisão sem dizer o horror com todas as letras. É bonito ver duas palavras juntas quando seria improvável que se encontrassem, e talvez esteja na incongruência desses concílios vocabulares a proeza de escrever de forma tão imperativa e deferente. É bonito ver como a autora valoriza a palavra inteira; por isso exalta cada sílaba. Não fossem elas, não haveria o sábado, nem o encontro.

Quem escreveu esse texto

Gabriela Mayer

Jornalista e crítica literária, criou o podcast Põe na Estante.

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.