Editora 451,

O pensamento de um continente

Muryatan Barbosa expõe o trabalho intelectual para definir a identidade africana e construir uma sociedade pós-colonial

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

A história do pensamento africano é tão antiga quanto a própria humanidade. O berço da civilização egípcia, sacramentada pelo cânone ocidental como fundamental para a história humana, foi a África, estendendo-se em menor medida ao Oriente Médio. Pouco se conhece também sobre outros impérios que floresceram no continente nos séculos seguintes: o Império do Gana, do Mali e do Benin, por exemplo. Na esteira dessas civilizações, outras sociedades igualmente importantes se constituíram de norte a sul: cunharam escritas, aperfeiçoaram o comércio, desenvolveram a arte, formaram exércitos para a defesa de seu território e estabeleceram contatos com o Oriente e o Ocidente. A primeira universidade do mundo, reconhecida pela Unesco, foi fundada em Marrocos no ano de 859 a.C: Al-Qarawiyyin, na cidade de Fez. Esta breve introdução traz uma pequena amostra da história africana ainda pouco conhecida além de suas fronteiras, apesar de abrigar as origens da humanidade além de muitas sociedades do continente americano. 

A ideia de uma identidade que acolhesse um continente multiétnico era uma resposta da elite intelectual africana ao colonialismo

A razão africana: breve história do pensamento africano contemporâneo, de Muryatan S. Barbosa, vem para preencher essa lacuna, destacando um breve panorama sobre a produção científica e intelectual do continente entre o final do século 19 e o fim do século 20, período de intensas transformações. A produção científica e intelectual africana, como descobriremos, não estava apenas circunscrita aos limites do continente, já que é impossível pensar a África sem incluir os descendentes da diáspora africana, evento incontornável e que mudou o curso de nossa história. Assim como as civilizações grega, romana e hebreia, a civilização africana moldou o mundo onde vivemos hoje. 

Em suas três partes, além da introdução e da conclusão, o livro dá ênfase a três grandes temas do pensamento africano contemporâneo: a construção de uma identidade africana, moldada nas numerosas etnias que a formam, bem como a dos afrodescendentes da diáspora, especialmente os dos Estados Unidos e do Caribe; a formação de um pensamento político a partir de eventos como o colonialismo europeu, as lutas por independência e o neocolonialismo; os dilemas do desenvolvimento a partir do reconhecimento de seu lugar como periferia do sistema capitalista,  propondo o contraponto do autodesenvolvimento possível.

Na primeira parte, intitulada “A personalidade africana”, Barbosa traça uma linha sobre o pensamento de uma identidade única, partindo do nacionalismo do caribenho Edward Blyden, no final do século 19. A ideia de uma identidade que acolhesse um continente multiétnico era uma resposta da elite intelectual africana e da diáspora ao crescente colonialismo europeu. Essa elaboração marca a origem do que o autor chama de “pensamento africano contemporâneo”. Esse conceito de personalidade é constituído pelos princípios da gerontocracia, da centralidade da família, do coletivismo, do uso comum da terra e da água. Dessa forma, a elaboração dessa identificação passava pela necessidade de “reafricanizar” as identidades urbanas que coexistiam com o meio rural, mas sempre reafirmando a supremacia da segunda identidade sobre a primeira. 

Nacionalismo africano

Essa foi a origem do nacionalismo que culminaria no movimento pan-africanista, baseado nos mesmos princípios da personalidade africana, da solidariedade e da luta em comum contra o colonialismo europeu. Uma construção surgida do Pan-africanismo e do Movimento Negritude, que propagava o reconhecimento de se ser negro a partir da centralidade positiva de uma herança sociocultural.  Tais movimentos ganharam força na década de 1950 e foram responsáveis pela internacionalização do pensamento africano na África e na diáspora. Para um continente tão diverso em etnias, cultura e história, o Pan-africanismo e o Negritude permitiram uma unidade que seria crucial ao levante contra o colonialismo vigente. A unidade, como escreve Barbosa, era desejável como resposta “aos desafios da descolonização e da integração (africana e afro-diaspórica) da era pós-colonial, que se avistava no horizonte próximo”. 

O socialismo africano queria reabilitar ideais tidos como tradicionais, como o senso comunitário e o humanismo, para a construção de uma sociedade nova

A consolidação desse pensamento político encontra ecos na união de dois conceitos — o cultural e o político — desagregados deliberadamente pelo colonialismo. Para devolver a condição humana aos colonizados era preciso conectá-la às iniciativas, às histórias e aos desejos de seu próprio povo. Seguindo essa trilha, toda uma geração de intelectuais africanos e da diáspora formada na Europa e nos Estados Unidos assumiu o poder político nos seus respectivos países durante o processo de descolonização. Kwame Nkrumah, Gamal Abdel Nasser, Léopold Senghor, Mamadou Dia, Obafemi Awolowo, Julius Nyerere e Ahmed Sékou Touré, dentre outros, todos intelectuais formados no exterior, tiveram grande importância no processo de descolonização, quando contribuíram para a difícil transição em seus respectivos países da construção de uma sociedade pós-colonial.

Nesse contexto, ganha relevância o fenômeno do “socialismo africano”, heterogêneo tanto em seu discurso ideológico-político quanto nas proposições efetivadas nas sociedades do continente. Embora tivesse influência de pensadores como Marx e Lênin, o socialismo africano estava muito distante do modelo soviético que dominava o Leste Europeu. Estava inicialmente alicerçado em valores caros às sociedades africanas: o coletivismo, o humanismo, os laços de parentesco, a sociabilidade, além de um caráter democrático, ainda que, em parte, divergente dos valores ocidentais. Tratava-se de um perspectivismo democrático baseado em valores sociais africanos. O socialismo africano queria reabilitar ideais tidos como tradicionais, como o senso comunitário, o humanismo e o espírito igualitário para a construção de uma sociedade nova que fizesse frente aos desafios da descolonização e do neocolonialismo.

Por fim, na construção do seu argumento sobre o pensamento africano, Barbosa dedica a última parte do livro aos dilemas do autodesenvolvimento, surgido da constatação sedimentada entre os pensadores africanos de que o desenvolvimento no período pós-colonial deveria minimizar e até mesmo romper com a sua situação periférica, principalmente em relação à divisão internacional do trabalho. Era necessário que os africanos, a partir de uma grande mobilização nacional-social, se tornassem agentes definidores de sua própria história. Como escreve o autor, “a resolução dos seus problemas internos (distribuição de renda, autodesenvolvimento, produção técnico-científica, melhoramento da qualidade de vida)” deveria estar “no primeiro plano de suas capacidades decisórias”. Mesmo assim, o continente não conseguiu escapar de um longo período, entre os anos 1970 e 1990, de grave crise econômica e humanitária que forjou, por exemplo, conceitos como o “afropessimismo”, expressão de um sentimento coletivo de fracasso.

Com uma escrita fluida e acessível, A razão africana é uma excelente introdução para adentrar a pluralidade do pensamento da África contemporânea e sua relação com a história. A partir de suas muitas referências bibliográficas, podemos conhecer mais sobre o continente, ampliar nossos horizontes epistemológicos e assim descolonizar nosso próprio pensamento.  

Quem escreveu esse texto

Itamar Vieira Junior

Recebeu o Prêmio LeYa pelo romance Torto arado (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.