Editora 451,

Em busca de uma experiência esplêndida

Em 'Canções de atormentar', Angélica Freitas canta o nosso tempo com olhos e ouvidos muito atentos

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

Como seria um canto capaz de afundar caravelas? Como provocar arrepios em quem nos atormenta? A poesia de Angélica Freitas não pretende nos oferecer respostas, mas nos estimula a fazer mais perguntas, observar e investigar. Seu terceiro livro, Canções de atormentar, reúne poemas nos quais reencontramos a mistura de referências literárias com a cultura pop e o humor de Rilke Shake (2007) e Um útero é do tamanho de um punho (2012). No entanto, ao longo da leitura é possível perceber como a relação da autora com a escrita ressoa nos versos como parte duma busca constante: “eu quero ir aonde/ você esconde/ o próximo poema”.

Entre memória e imaginação, Canções de atormentar aborda nosso tempo a partir de uma perspectiva crítica e sem moralismos. No poema que abre o livro, “laranjal”, os versos “quer saber o que é/ o fim da civilização?” surgem em meio a lembranças da infância e da adolescência, mas, após uma sequência de poemas (de “abelhas” a “sentada no topo do mundo”), cabe a pergunta: que civilização é essa? A poeta observa como o desejo das pessoas foi capturado pelo consumo, pelo descaso pelo meio ambiente refletido pelas hidrelétricas na Amazônia e pelas desigualdades cada vez mais profundas entre “quem está do lado de fora/ quem está do lado de dentro”.

Incômodo com a realidade 

Contudo, o humor, as imagens da poeta e o ritmo de seus versos não permitem que esses temas soem como denúncias ou comentários cínicos. As Canções de atormentar podem nos trazer novas inquietações ou mostrar que não estamos sozinhos em nosso incômodo com a realidade. Um poema que resume bem como ela articula forma e conteúdo criando um efeito cômico é “us enimaos”, em que a troca das vogais nas palavras torna a leitura estranha, mostrando que basta uma pequena mudança na dicção ou no ponto de vista para que os seres humanos pareçam ridículos por se acreditarem superiores às outras formas de vida. 

Os bichos expõem as limitações e arbitrariedades das ideias humanas (“explicar o casamento igualitário/ a uma iguana, explicar/ alianças políticas a um gato, explicar/ mudanças climáticas/ a uma tartaruga no aquário”). Em “uma história da sujeira”, a poluição dos oceanos é colocada como se produtos supérfluos do nosso dia a dia pudessem ser desejos atribuídos aos animais: “chocolates para os tubarões/ chicletes para os camarões/ refrigerantes para as focas”. Mas nem tudo é tensão entre humanos e animais, há relações afetuosas, como em “Juçara Marçal adota um gato”.

As mulheres também estão presentes em Canções de atormentar de modo bem diferente de Um útero é do tamanho de um punho. Há poetas em forma de pera pulando de uma cama para outra, uma santa padroeira dos feios e uma poeta que protagoniza “a mais velha história do rock n’roll”. São imagens e experiências bem diferentes, que têm em comum o desconforto porque o patriarcado não dá trégua a essas mulheres que não correspondem aos padrões. São lésbicas, escritoras, viajantes, sereias que se recusam a cobrir seu rabo de peixe e cantar para agradar os marinheiros.

Consciência do corpo

A consciência de como o próprio corpo não se adéqua a ideias tradicionais de feminilidade não está restrita aos poemas sobre mulheres. Em “alegria é encher a tua casa de cabelos”, dedicado ao poeta Fabrício Corsaletti, Freitas celebra a amizade a partir dos fios caídos pela casa: “curtos, quando vou melhor/ longos, quando a sucessão dos dias/ me impede os cortes”. Além de preferir cabelos curtos, a poeta aposenta suas calças agradecendo por andar com elas até rasgarem, em vez de usar vestidos. No entanto é o poema “eu sou a garota mais doce ao sul do Equador” que questiona o que é entendido por características femininas e masculinas. A voz poética se apresenta como “a garota mais valente ao seu dispor/ o garoto mais engraçado que conheço” sem criar oposição entre ser doce, quente e fugaz. O problema é quem ainda acredita em papéis de gêneros da família tradicional. 

As relações entre o desejo e o consumo são mais evidentes em “algum café em rosário” (celebração do momento em que não se quer mais nada, nem ler, nem escrever) e “entrei no grande magazine para comprar uma geladeira”, em que um esquimó entra na loja para comprar uma geladeira e só então percebe que não precisa dela. Se a vida parece resumida a consumir e produzir, pois até nossos interesses e hobbies se tornam entretenimento para os outros nas redes sociais, a forma de escapar dos estímulos do sistema é viver o momento: “aleluia, porque eles querem minha cabeça baixa,/ me querem/ comprando num shopping/ procurando as últimas revistas”. 

Em entrevista à revista Continente, diante da pergunta “Como é ser poeta?”, Freitas disse: “Acho que ser poeta é uma maneira de você estar no mundo. É uma maneira bem intensa de estar no mundo, porque a maioria das pessoas não faz nada com os estímulos que recebe. Você pode ver uma coisa pela janela, ver um pássaro, ver um acidente de trânsito, ver um avião passando… Você viu e era isso. Agora, se você é poeta, há grande probabilidade de que vai ver um avião passando, vai começar a devanear sobre isso e acabar escrevendo um poema, que, de repente, não tem nem a ver com o avião. E vai lhe levar para outro lugar”.

A percepção de ser poeta como um jeito de estar no mundo nos ajuda a compreender como Freitas é capaz de usar elementos cotidianos para construir poemas que parecem simples, mas nada têm de banais. A forma como ela usa consonâncias, aliterações e repetições para criar ritmos, a edição dos versos e estrofes gerando silêncios entre a sucessão de imagens e as mudanças de assunto mostram como a busca pelo poema envolve dedicação e cuidados com a linguagem.

Canções de atormentar nos convida a olhar pelas nossas janelas com um olhar renovado e sermos capazes de rir, até de nós mesmos, enquanto nos perguntamos como podemos nos livrar dos que nos impõem misérias.   

Quem escreveu esse texto

Stephanie Borges

Jornalista, ganhou o prêmio Cepe de poesia com Talvez precisemos de um nome pra isso (no prelo).

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.