O inglês E. M. Forster (1879-1970), em Londres em 1960 (Evening Standard/Getty Images)

Livros e Livres,

A intolerável felicidade

Nova edição de Maurice mostra o poder contestador do ‘romance menor’ de E. M. Forster ao conceder a um casal gay a chance de um final feliz

29dez2025 • Atualizado em: 08jan2026 | Edição #101

É curioso como o mais banal dos prazeres literários, o de um enredo romântico com final feliz — ou ao menos com certo senso de esperança e reconciliação entre personagens —, adquire um peso político libertador quando aplicado àqueles ao qual foi negado.

Após o julgamento de Oscar Wilde em 1895, uma sombra pairou sobre a ficção na maior parte do século 20: a de que histórias queer só seriam bem recebidas se seus personagens tivessem um fim trágico. Além do estigma social, a homossexualidade foi crime no Reino Unido até 1967, então não foi à toa que Edward Morgan Forster, o renomado autor de Uma passagem para a Índia e Howard End, determinou que Maurice só fosse publicado após sua morte, ocorrida em 1970, aos 91 anos.

Um dos temores de Forster era ser alvo de processos por obscenidade, como ocorreu com seu amigo D. H. Lawrence, que, após ler o original de Maurice, inspirou-se a escrever O amante de Lady Chatterley.

Dois camaradas

Maurice nasceu da amizade de Forster com o poeta e ativista inglês Edward Carpenter, filho ilustre da intelectualidade burguesa britânica e pioneiro dos direitos LGBTQIA+, e com seu companheiro, George Merrill, nascido na pobreza da classe operária vitoriana. Com uma diferença de idades de 22 anos, Carpenter e Merrill conheceram-se em uma viagem de trem, apaixonaram-se e viveram como um casal por cinquenta anos, em plena era vitoriana (oficialmente, Merrill era o “secretário pessoal” de Carpenter) até o fim da vida deles.

Em uma visita, a gentileza no modo como Merrill tocou nas costas de Forster o eletrificou, e, diante da visão de uma vida bucólica entre “dois camaradas”, Maurice tomou forma, em 1914. “Um final feliz era imperativo”, diz Forster no posfácio. “Estava de­terminado a que na ficção, pelo menos, dois homens pu­dessem se apaixonar e assim permanecer para sempre, na eternidade que a ficção permite.”

Na faculdade em Cambridge, o jovem Maurice Hall inicia um relacionamento com o aristocrático Clive Durham, com quem compartilha o interesse pela filosofia grega, em especial no Fedro de Platão, mas se mantém casto devido à interpretação estrita de Clive para o “amor platônico”. Ao melhor estilo Downton Abbey, o relacionamento entre os dois se alterna entre a aristocrática propriedade da família de Clive e o apartamento burguês em Londres, onde os dois são apenas “colegas de quarto”.

Apesar do pioneirismo do tema, o romance não destoa da obra de Forster, com seus conflitos entre classes

Após uma viagem à Grécia, Clive decide deixar Maurice, e casa-se com uma pretendente num relacionamento marcado pela formalidade. Incapaz de lidar com a rejeição, Maurice se entrega primeiro à depressão, frequentando sessões de hipnose em busca de uma “cura gay”; depois aos esportes, e aos poucos aceita a ideia de viver uma meia-vida, ocupando um espaço de semi-invisibilidade que cruza com o de outra classe social, na figura do jovem Alec Scudder, que trabalha como guarda­-caça justamente na propriedade de Clive. Com Alec, Maurice descobre o amor espiritual e carnal.

Apesar do pioneirismo do tema, Maurice não destoa da obra de Forster, com seus conflitos na dinâmica entre classes e a forma como a falta de perspectivas econômicas reprime a sexualidade. Se o amor entre dois homens cria uma espécie de democracia espiritual, as diferença sociais trazem o conflito. Ao fim, a mesma invisibilidade que oculta Maurice dos olhos da sua sociedade possibilita que ele planeje sua fuga com Alec para o campo.

Se Maurice tivesse um final trágico, teria sido publicado em sua época, quando a figura do homossexual era aceita contanto que atada a um final punitivo — algo que, no cinema americano ou nas telenovelas brasileiras, perdurou até pouco tempo atrás.

Para inglês ver

Já disse Michel Foucault que as pessoas podem tolerar ver dois homossexuais saindo juntos, mas se no dia seguinte elas os virem de mãos dadas, isso é o que não pode ser perdoado: o que é intolerável não é a busca pelo prazer, é acordar feliz no dia seguinte. Forster reconheceu na literatura o que acontecia ao recém-nomeado “indivíduo homossexual”, mas não conseguiu encontrar em vida os recursos com os quais dar conta da nova tendência.

De modo tragicômico, ao ser publicado em 1971, apenas dois anos após Stonewall, já não havia mais escândalo a causar. Mesmo assim, quando o casal de cineastas James Ivory e Ismail Merchant propuseram adaptar Maurice, foram recebidos com ressalvas pelo conselho do King’s College, herdeiros do espólio de Forster. Para estes, Maurice era uma “obra menor”, sobre a qual não queriam atenção.

Afinal, como é comum na construção de cânones, autores não costumam ter seus romances explicitamente gays listados entre os principais de sua obra. Harold Bloom, por exemplo, no seu O cânone Ocidental (1994), ao citar Christopher Isherwood exclui Um homem só, menciona Gore Vidal mas não A cidade e os pilares, lembra-se de James Baldwin mas não de O quarto de Giovanni, e cita Forster mas não seu Maurice. Ironicamente, hoje são justamente estes os títulos a servir de porta de entrada para esses autores.

Com um então estreante Hugh Grant no elenco, o filme de Merchant e Ivory foi lançado em 1986, no auge da crise de HIV. Foi recebido com frieza pela crítica, que não via com bons olhos uma história celebrando o amor homossexual em meio à epidemia. Com o passar do tempo, filme e livro tornaram-se cults e, mais recentemente, William di Canzio publicou o romance Alec (2021, inédito em português), continuando o enredo de Maurice pela perspectiva de seu companheiro. Somadas a suas recentes reedições, estas são provas não apenas da crescente importância de um outrora “romance menor”, como do poder contestador de conceder a uma minoria algo tão comum mas que tantas vezes lhe foi negado: a possibilidade de um final feliz.

Quem escreveu esse texto

Samir Machado de Machado

Escritor, é autor de O crime do bom nazista (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “A intolerável felicidade”

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