O escritor estadunidense Edmund White em 2007 (David Shankbone/Divulgação)

Livros e Livres,

A biografia gay do século 20

Morto em 2025, aos 85 anos, Edmund White deixou como testamento a história de seus amores, entre revoluções, preconceito e epidemias

09out2026

Talvez ainda falte um grande trabalho biográfico que debata de forma sistemática o que foi a experiência LGBTQIA+ ao longo do século 20. No entanto, consigo listar alguns projetos que têm, mesmo que de maneira pulverizada, reunido essa história. É o caso de A cidade solitária (trad. Bruno Casotti, Anfiteatro/Rocco, 2017), longo ensaio da britânica Olivia Laing. Autoexilada em Nova York por conta de uma desilusão amorosa, a ensaísta começou a listar artistas que a ajudaram a entender o isolamento de alguém numa metrópole com milhões de habitantes. Lá pela metade do livro, quando avança para autorias dos anos 1980 e 90, percebemos que boa parte morreu vítima de complicações com o HIV. Laing parece atestar que as utopias de progresso do século 20 terminaram por esbarrar nos mortos da aids, que nos primeiros anos foi tratada como o “câncer gay”.

O mesmo sentimento encontramos em Sontag (trad. José Geraldo Couto, Companhia das Letras, 2019), de Benjamin Moser, biografia magistral de Susan Sontag. Temos aqui um embate explícito do autor com a dificuldade da biografada em assumir a homossexualidade enquanto os primeiros casos de aids começaram a emergir nos Estados Unidos, empilhando corpos e fulminando uma geração inteira. Um repórter da revista Vanity Fair, aponta Moser, chegou a declarar que cobrir os anos iniciais da aids era como retratar a guerra do Vietnã. Ainda assim, inúmeros intelectuais se contorciam para dar nome ao que estava acontecendo. Em sua novela Assim vivemos agora (trad. Caio Fernando Abreu, Companhia das Letras, 1995), na qual uma nova doença se alastra a ponto de furar o bloqueio da classe alta burguesa, Sontag não usa a palavra “aids” nenhuma vez — em entrevistas, receia na hora de localizar o nome específico de uma doença para definir as razões por trás da escrita.

Nem sempre, no entanto, a aids é o foco principal na história homossexual/queer/LGBTQIA+ do século 20. Nos últimos sessenta anos, sobretudo na América Latina, o passado comum de regimes ditatoriais tem se mostrado um inimigo frontal. É o que vemos na reunião de textos curtos do escritor chileno Pedro Lemebel, Poco hombre (trad. Mariana Sanchez, Companhia das Letras, 2023), que retrata a vivência queer encurralada entre a esquerda e a direita, ambas homofóbicas. Aqui no Brasil, a temática aparece em obras como Contra a moral e os bons costumes: a ditadura e a repressão à comunidade LGBT (Companhia das Letras, 2021), de Renan Quinalha, e na reemergência do monumental estudo Devassos no paraíso (1986), de João Silvério Trevisan.

White trata o texto como um corpo vivo, que vibra ao sabor daquilo que mais o excita ou fere

É importante ressaltar, em todos os exemplos citados, o esforço dos autores para dar conta, de forma original, da saga de uma população marcada por narrativas de massacres e de apagamentos. Morto em 2025, aos 85 anos, o escritor estadunidense Edmund White deixou como uma espécie de testamento um pequeno livro de duzentas páginas, em que a sua história como homem gay é relatada a partir de como, década após década, conseguiu viver aventuras amorosas e sexuais, nos embalos do humor das revoluções, de preconceitos e de epidemias. O título é simples e direto, como alguém que aponta o dedo na região exata de uma dor ou no princípio do seu prazer, para não deixar nada sobrando: Os amores da minha vida: memórias sexuais.

Construção

Biógrafo de homens gays como Jean Genet, Marcel Proust e Arthur Rimbaud, White sabiamente deixa de lado a cansada ordem cronológica, que seria a primeira escolha de um livro autobiográfico, e trata o texto como um corpo vivo, que vibra ao sabor daquilo que mais o excita ou fere. Numa de suas passagens, Os amores da minha vida entrega uma aula de construção literária digna dos grandes autores:

Não posso avançar inteiramente em ordem cronológica, já que o desejo não obedece a nenhuma linha do tempo. Quando nos masturbamos (pelo menos eu me masturbo — ou me masturbava, estou velho demais para isso, agora), saltamos de uma memória para outra, pulamos décadas, em busca de uma sequência narrativa.

Numa biografia, o importante não é apenas a riqueza da pesquisa feita pelo biógrafo, mas também a seleção dos pormenores, a ordem dos fatos sob a luz da política da época, que faz de um novo amante ou de uma revolta urbana algo que vale a pena ser lembrado ou escrito. Sim, o desejo não obedece a nenhuma linha do tempo da mesma forma que qualquer escrito tem sua carga erótica, como já escreveu Italo Calvino. Assim, Os amores da minha vida nos faz pensar que um “romance de formação” não precisa ficar restrito aos primeiros anos de um personagem. Toda formação é projeto, até seu ponto-final. Ao fim do livro, White nos lembra que “andar com história” talvez seja simplesmente “adivinhar o que escrever em seguida”.

O autor começou a ter relações sexuais nos anos 50, ainda na sombra do trauma do pós-guerra, quando o conceito de sair do armário era inexistente, com exceção das drag queens ou dos funcionários de lanchonete com o cabelo notadamente descolorido — em suas palavras. É quando tem início sua relação de vida inteira com michês, na época homens “héteros”, que deixavam o próprio corpo ser tocado por homens gays — e assim pensavam e podiam agir, ele destaca, os homens gays de antigamente.

A virada de comportamento acontece com a revolta de Stonewall, em junho de 1969, numa noite nova-iorquina de verão, em que os gays “não estavam de bom humor”. Judy Garland (a grande diva dos homossexuais da época) havia acabado de morrer e estava sendo velada numa funerária no Upper West Side.

“Fazia muito, muito calor, e todo mundo estava sentado nos degraus das entradas dos prédios”, lembra White, e assim a revolução começou a se desenrolar. Lotado em reverência à diva morta, um bar gay, o Stonewall, sofreu uma batida policial violenta. Mas a revolta, como o autor ressalta, não foi capitaneada por homens gays brancos de classe média, como ele próprio:

Enquanto os gays no passado tinham fugido, com medo de serem presos e levados para a cadeia, aqueles afro­-americanos e porto-riquenhos e drag queens de Stonewall não se deixaram intimidar tão facilmente. Estavam acostumados a enfrentar a polícia. Atearam fogo, viraram carros e ridicularizaram os tiras, chegando a investir contra as paredes pesadas de Stonewall onde alguns policiais retinham funcionários e clientes.

Uma manchete infame no jornal New York Daily News retratou de forma irônica a noite de violência, numa chamada até hoje lembrada: “Homo Nest Raided, Queen Bees Are Stinging Mad”, algo como “Batida no ninho homossexual; as abelhas-rainhas estão furiosas”.

A princípio chocados com os levantes de Stonewall, aquela noite ajudou os gays brancos a se revoltar contra a repressão que os degolava havia tanto tempo. “Eu ia me juntar a eles, apesar dos meus anos de submissão.” White destaca que Stonewall era um chiqueiro anti-higiênico e mafioso, fortemente vigiado por capangas da máfia. “Pouco importava — talvez não valesse a pena defender o bar, mas a energia era contagiante”, lembra. Judy Garland havia morrido, mas parecia ter deixado a ideia de uma utopia raivosa, num lugar over the rainbow, como cantou em sua canção mais famosa.

‘Os amores da minha vida’ nos faz pensar que toda formação é projeto, até seu ponto-final

A energia de Stonewall se reverteu, nos anos 70, em manifestos gays, em estudos gays nas universidades, na febre das discotecas e numa breve época de liberdade sexual nos grandes centros urbanos dos Estados Unidos, interrompida na década seguinte com os primeiros casos da aids. Faz muito sentido que, com o prazer tantas vezes interditado e após viver todos esses traumas, o autor tenha escolhido o tema “os amores” para contar sua vida e a vida de todos os seus companheiros de percurso. White morreu portador do HIV, sem nunca ter desenvolvido os sintomas. No lugar do vírus, escolheu o desejo por outros homens como linha narrativa e a construiu, na autobiografia, com altas dosagens de humor e autoironia. Rimos dele, com ele e de nós mesmos ao longo da leitura.

Num poema que escreveu aos 83 anos, em forma de pergunta e resposta, transcrito agora no seu último livro, deixou claro que, revoluções e contrarrevoluções à parte, há “uma luz que nunca se apaga”, como canta aquele hit pop lançado pelos Smiths em meados dos anos 80. Segue um trecho do poema:

P. Tenho um apartamento em Berlim. Por que não vem passar um mês comigo lá?
R. Tá bem.
P. Quão empolgado você fica com a ideia? Em termos percentuais?
R. Cinquenta por cento.
P. Por que a hesitação?
R. Tenho medo de me apaixonar por você. Já chorei o suficiente.

Acredito que esse seja um excelente epílogo para a história homossexual/queer/LGBTQIA+ do século 20. E também para os anos que se seguem.

Quem escreveu esse texto

Schneider Carpeggiani

É editor, jornalista, doutor em teoria literária e curador.