Livro e Leitura,
Cuidar do fogo
Manifesto pela leitura conclama à conservação da cadeia do livro para que a história continue a ser contada
27ago2026O manifesto nasceu como arma. Ao abrir o texto de 1848 anunciando o espectro que rondava a Europa, Marx e Engels consolidam um gênero de combate: escreve-se um manifesto quando se acredita que o mundo precisa mudar agora e que os inimigos da mudança têm nome.
O século seguinte fez do gênero uma barricada de papel. Marinetti, em 1909, mandou atear fogo às estantes das bibliotecas. Tristan Tzara respondeu à razão burguesa com o escárnio de Dadá. Oswald mastigou a cultura europeia e a devolveu antropofagizada. O verbo do manifesto é o imperativo e seu tempo, o futuro.
Nessa linhagem, o Manifesto pela leitura, de Irene Vallejo, é uma anomalia. Conserva o gênero e inverte-lhe a polaridade. Se Marinetti sonhava com bibliotecas em chamas, Vallejo escreve para protegê-las. Se a vanguarda declarava guerra ao passado, ela faz do passado — a Ilíada, Sherazade, os copistas sem nome — o próprio bem a transmitir. Este é um manifesto de retaguarda, no sentido militar, sem a carga pejorativa. Alguém precisa permanecer atrás, guardar o que os outros deixam, recolher os feridos, impedir que a retirada se transforme em desaparecimento. O inimigo mudou: a tradição já não sufoca; corre-se o risco de ela deixar de chegar até nós.
O fogo é uma das imagens que atravessam o livro. Vallejo relembra a pira da intolerância, os livros perseguidos e queimados em todas as eras, e cita o cordovês Ibn Hazm, que, no século 11, respondia aos incendiários que podiam queimar o papel, jamais o que ele guardava, porque o carregava dentro de si. É também a cena de Fahrenheit 451: os bombeiros ateiam fogo às casas onde há livros e, na resistência, homens e mulheres decoram obras inteiras, já que a chama não alcança aquilo que passou à memória. Bradbury, porém, percebeu uma ameaça mais inquietante. Na sociedade que ele imaginou, os livros começam a morrer antes de serem queimados. As telas ocupam as paredes, a velocidade expulsa o silêncio, e quase ninguém deseja ler quando os bombeiros chegam. O fósforo apenas conclui o trabalho.
Memória da perda
É aqui que “O fogo e o relato”, ensaio de Giorgio Agamben, oferece outra maneira de olhar para a chama. Ele recupera uma história: quando o Baal Schem precisava realizar uma tarefa difícil, entrava no bosque, acendia o fogo, fazia uma prece, e o que desejava acontecia. Uma geração depois, já não se sabia acender o fogo, mas ainda se conhecia a prece. Depois perdeu-se também a prece, embora restasse o lugar no bosque. Até que, muitas gerações adiante, já não havia fogo, prece ou lugar. Restava somente alguém capaz de contar a história. “E isso deve ser suficiente.”

Agamben lê a parábola como uma alegoria da literatura. O relato começa justamente quando alguma coisa já se perdeu. A literatura não possui o fogo original; ela guarda a memória de sua perda. “Todo relato — toda a literatura — é, nesse sentido, memória da perda do fogo”, escreve. A imagem desloca a discussão de Vallejo para um lugar mais delicado. Há livros que queimam e livros que sobrevivem ao incêndio. Há também o que nenhuma biblioteca consegue conservar intacto: a experiência que fez alguém, um dia, precisar contar uma história.
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Preservar, então, ganha outro sentido. Podemos conservar o objeto, restaurar o papel, multiplicar exemplares, construir bibliotecas, formar acervos. Tudo isso importa imensamente, e Vallejo tem razão em fazer dessa cadeia material — escritores, tradutores, editores, livreiros, professores, bibliotecários e leitores — uma política do cuidado. Mas nenhuma transmissão entrega exatamente aquilo que recebeu. Entre uma geração e outra, alguma coisa desaparece. Perde-se o fogo, a oração, o caminho do bosque. O que se passa adiante é uma história capaz de carregar consigo a lembrança dessas ausências.
Para interromper uma transmissão, não é preciso queimar livro; basta que ele não encontre o leitor
Talvez por isso a leitura seja uma forma tão estranha de transmissão. Abrimos um objeto feito por alguém frequentemente já morto, numa língua que mudou, diante de um mundo que já não existe, e ainda assim alguma coisa acontece. Aquiles volta a se enfurecer. Sherazade precisa sobreviver a mais uma noite. Anna Karenina entra outra vez na estação. O leitor não recupera o fogo que esteve na origem das histórias. Ele encontra no relato o indício de que ali houve fogo. Agamben diz que a língua funciona como uma sonda lançada em direção ao mistério perdido, capaz de medir a distância que nos separa dele.
Essa talvez seja a força maior do manifesto de Vallejo. Seu cuidado com a leitura não precisa transformar o livro numa relíquia nem a biblioteca num mausoléu. Preservar livros interessa porque ainda podem chegar a alguém. O livro atravessa o tempo para encontrar outro corpo, outros olhos, uma imaginação que não existia quando foi escrito. A transmissão se completa nesse encontro, embora o que passa de um lado ao outro jamais seja exatamente a mesma coisa.

Há uma ironia histórica nisso. Marinetti queria incendiar bibliotecas para que o futuro se libertasse do peso dos mortos. Vallejo escreve mais de um século depois para pedir que cuidemos delas. Entre os dois, o século 20 mostrou quantas vezes homens queimaram livros e quantas outras descobriram maneiras menos espetaculares de fazê-los desaparecer. O posfácio de Zoara Failla dá a esse desaparecimento uma medida concreta: no Brasil, perdemos quase 7 milhões de leitores em quatro anos, e mais de 60% das escolas brasileiras continuam sem biblioteca. Para interromper uma transmissão, não é preciso queimar livro algum. Basta que o livro não encontre o leitor, que a biblioteca não exista, que uma geração deixe de entregar à seguinte aquilo que recebeu.
Nesse ponto, Vallejo e Agamben se encontram. Se todo relato é, como escreve Agamben, memória do fogo perdido, a leitura permite que essa memória continue passando de mão em mão. Preservá-la significa cuidar dos livros, das bibliotecas, das escolas e, sobretudo, dos leitores capazes de receber o relato e levá-lo adiante. O fogo não pode ser guardado numa estante: ele já se apagou em alguma medida, e a literatura começa justamente aí. Resta cuidar para que o relato continue testemunhando sua ausência e, nesse testemunho, reacenda alguma coisa em quem lê. Talvez seja este, afinal, o cerne do manifesto de Vallejo: cuidar da leitura é garantir que a história continue sendo contada.
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