Literatura,

Um thriller para os nossos tempos

O segundo romance da escritora israelense Ayelet Gundar-Goshen confronta os leitores com seus próprios preconceitos e limitações

01maio2020 - 01h00 | Edição #33 mai.2020

Depois de um longo turno no hospital, um neurocirurgião, Eitan Green, dirige por uma trilha no deserto. Está exausto e descontente com a vida em Beer Sheva, conhecida como capital do Neguebe pois é a maior cidade do deserto ao sul de Israel. Eitan foi transferido para lá contra a sua vontade. Sente falta da vida de antes, em Tel Aviv, e se irrita com a poeira que recobre todo canto do lugar. Naquela noite, decide tomar um caminho diferente para casa e descobre, com alegria, que a estrada escolhida faz jus à fama. Um pouco antes de acelerar o carro e de cantar junto com Janis Joplin, um enorme porco-espinho cruza seu caminho. O médico freia a tempo e se lembra enternecido de um dos filhos, pensando na ótima história que poderá contar a ele, exagerando o acontecimento: o animal, que tinha menos de um metro, passaria a ter um e meio. Mas o encontro soa algo como um mau presságio — a história, na verdade, termina muito mal.

Desde o início de Despertar os leões, sabemos que há um atropelamento. Em uma espécie de prólogo, as primeiras linhas do livro anunciam: “E exatamente no momento em que atingiu aquele homem, pensou consigo mesmo que aquela era a lua mais bela que vira em sua vida. E logo depois de atingi-lo, ainda estava pensando na lua, e continuou a pensar na lua, e então parou de pensar de uma só vez, como uma vela que tivesse sido soprada. Ele ouve a porta do jipe se abrir e sabe que foi ele mesmo quem a abriu, e é ele mesmo quem está saindo do veículo agora. Mas essa constatação só está vinculada a seu corpo muito tenuamente, como a sensação da língua ao passar na gengiva após a anestesia”.

Conforme o narrador descreve os acontecimentos que se seguem, é quase possível visualizar a cena. A autora, nascida em 1982, é mestre em psicologia clínica pela Universidade de Tel Aviv e estudou roteiro na Sam Spiegel Film & Television School, em Jerusalém. Ambas as influências estão refletidas em seu romance, um suspense policial cinematográfico tanto quanto psicológico. Também é um drama a um só tempo doméstico e social, uma alegoria existencial e política, tudo junto e misturado. Um projeto tão ambicioso poderia acabar trocando os pés pelas mãos, mas Gundar-Goshen consegue entrelaçar múltiplos gêneros e instâncias com habilidade.

Tal qual em sua obra anterior, Uma noite, Markovitch (Todavia), que pode ser lida como uma metáfora política, o acidente que abre o livro representa dois mundos que colidem: o homem atropelado é da Eritreia, um imigrante ilegal. “E só o próximo passo [do médico, ao sair do jipe] revelará se esse homem, o pedestre, ainda é um homem ou já é alguma outra coisa, uma palavra que só de pensar nela o pé já se imobiliza no ar, no meio do passo, pois existe a possibilidade de que o passo se complete e descubra que o pedestre não é mais um pedestre, nem mesmo um homem, apenas a casca de um homem […]. E se o homem estendido não for mais um homem, ficará difícil imaginar o que será do homem que ali está, de pé, tremendo, sem conseguir completar um simples passo.” O narrador, onisciente, cola em Eitan de tal modo que temos a impressão de que ele mesmo narra a história em terceira pessoa.

O livro é um drama a um só tempo doméstico e social, uma alegoria existencial e política, tudo junto e misturado

Logo descobrimos que o eritreu não sobreviveu e o médico decidiu ir embora sem avisar a polícia: “De repente soube que tinha que sair dali. Agora. Aquele homem ele já não conseguiria salvar. Tentaria pelo menos salvar a si mesmo”. Em outro momento, também quer se convencer de que é uma boa pessoa, que não é racista, que havia votado no Merets (partido sionista de esquerda), que tinha se casado com uma judia sefardita, enquanto ele era asquenazita (duas grandes divisões do povo judaico). “Após contabilizar tudo isso, ficou mais tranquilo, e pôde continuar a odiar a cidade com a consciência limpa.”

A narrativa se complica quando, no dia seguinte, Sirkit, a esposa do morto aparece em sua casa. O médico se vê cada vez mais enredado em uma teia complexa, que envolve imigrantes de diferentes origens, e o romance passa a revisitar alguns topos dos thrillers policiais, quando uma das investigadoras designadas para o caso é a própria esposa do médico, Liat. O narrador passa então a transitar, com fluidez, entre diferentes perspectivas, e nós, leitores, a acompanhar o ponto de vista de Eitan, Liat e Sirkit, o triângulo central — o que, de certa forma, humaniza as personagens. A autora não adere a uma simplificação esquemática: não há fetichização das vítimas, nem demonização ou absolvição dos culpados. Se há algo estritamente político no livro, é uma denúncia estrutural.

Estranhamento

De acordo com o dicionário, o perspectivismo alega que o conhecimento é, inevitavelmente, parcial, pois é limitado e determinado pela perspectiva pela qual cada sujeito vê o mundo. Também é um modo de representar ou analisar algo por pontos de vista ou planos diferentes. Podemos considerar, então, que essa linha estrutura o romance tanto do ponto de vista formal (um narrador que acompanha a visão e os dilemas de cada personagem) quanto do temático: há sempre um confronto entre diferenças e cada um busca legitimar seu próprio ponto de vista. A ideia de alteridade, o encontro com um outro e os efeitos que isso produz são alguns dos temas mais importantes do livro. Não à toa, parece, há tantas metáforas com animais, que estão presentes, literal e simbolicamente, de maneira expressiva no romance , a começar pelo próprio título.

De outro lado, esse estranhamento também ocorre no plano privado, entre pessoas que compartilham a vida e supostamente se conhecem na intimidade, como é o caso de Eitan e Liat. Ao compartilharem o segredo, e tudo que decorre dele, o médico e a viúva acabam se conhecendo de um modo que ele e a esposa jamais se conhecerão. Mas o maior estranhamento talvez venha de nós mesmos: Despertar os leões é um suspense incômodo, que provoca o choque entre o familiar e o estrangeiro no plano coletivo tanto quanto no subjetivo. Quem somos nós? Como escreveu Toni Morisson em um ensaio, “o risco de sentir empatia pelo estrangeiro é a possibilidade de se tornar estrangeiro”.

Quem escreveu esse texto

Fabiane Secches

É psicanalista e pesquisadora de literatura na Universidade de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #33 mai.2020 em abril de 2020.