Literatura,

Relações pitagóricas

Escritora e cineasta norte-americana narra complexo triângulo amoroso em livro de “ficção teórica”

01out2019 - 01h51 | Edição #27 out.2019

Dezembro de 1994. Chris Kraus e o marido, Sylvère, encontram Dick Hebdige, um crítico cultural inglês que vive na Califórnia, para jantar. Chris acredita que Dick flertou com ela, o que evolui para a sensação de que tiveram uma “Foda Conceitual” (com letra maiúscula). Já a paixão que Dick desperta em Chris evolui, ao longo dos meses seguintes, para uma obsessão.

Depois daquela noite, e com a ajuda de Sylvère, Chris escreve mais de uma centena de cartas para Dick. Não há como definir em poucas palavras o papel de Sylvère na situação, mas é evidente que ele encontra nela certo prazer. O casal trata Dick como uma entidade, como um santo que possibilita sobretudo o ressurgimento do desejo sexual depois de um período de mais ou menos dois anos. O que Chris sente por Dick, porém, não necessariamente inclui Sylvère.

Eu amo Dick é um apanhado das cartas de Chris e Sylvère para Dick, além de transcrições de conversas e de notas autobiográficas da autora. É difícil não ficar ambivalente diante do que é, embora a definição pareça ingênua, uma situação real. No posfácio, Joan Hawkins critica o fato de que quase todas as resenhas do livro, publicado em 1997, escolheram destacar “seu status de roman à clef”. A verdade é que o que sobressai em Eu amo Dick é, tanto quanto o texto, uma ação. E a ambos é impossível descolar da realidade.

Para Chris, as cartas “parecem inaugurar um novo gênero, algo a meio caminho entre a crítica cultural e a ficção”. Ela se refere ao livro como um “estudo de caso” cujo recorte possibilita um exame mais aprofundado da própria vida e da própria carreira. Joan Hawkins prefere o conceito de “ficção teórica”, já que Chris, em suas notas, mistura arte e feminismo, política e filosofia. Para Hawkins, é o conhecimento que autoriza e justifica o livro: “Sylvère e Chris são experientes demais em teoria para apresentar o texto/linguagem de maneira não problemática, como uma transparência através da qual podemos ler o real”.

Hawkins tem razão, mas o reconhecimento da complexidade do livro — e da própria situação — não elimina o desconforto do leitor. De acordo com Chris, “a pessoa amada pode se tornar um padrão de costura para todas as pontas esfarrapadas da memória, experiência e pensamento” de alguém. É Dick que permite que ela leve a cabo essa espécie de autoanálise. Se no passado Chris inventava “maneiras cifradas” de usar a primeira pessoa, agora a escrita do eu flui com mais facilidade. Há uma coragem evidente em compartilhar detalhes tão íntimos quanto os que Chris compartilha, e em avaliar a própria trajetória como um paradigma das experiências da mulher artista e intelectual.

A visão que Chris tem de si é contraditória, o que pode ou não ser intencional. No começo, uma terceira pessoa genérica diz que ela “não é uma intelectual”, e que costuma ficar de fora de certas discussões. Logo em seguida, no entanto, ela passa a repetir à exaustão justamente o contrário. Garante que é “uma garota maluca e intelectual”, até “intelectual demais”.

Chris, cineasta experimental, reconhece ao longo de Eu amo Dick o fracasso do último filme que produziu, do casamento e de boa parte das ambições que tinha na juventude. Ela se volta para o passado, e em especial para a sensação de ser apenas a mulher de uma figura respeitada como Sylvère Lotringer. Prestes a completar quarenta anos, ela quer “vingar o fantasma” da antiga Chris.

Amor e escrita

Segundo a autora, “o amor é como a escrita: viver num estado tão intenso que a precisão e a consciência se tornam cruciais”. Há, é claro, o risco de que “esses sentimentos sejam expostos ao ridículo ou à rejeição”. É aí que reside a valentia do livro, além de certo atrevimento: nessa dupla entrega, nesse duplo risco assumido. Dick é o papel ou a tela em branco em que Chris projeta o que quer, dele e de si. Em dado momento, as muitas páginas de cartas são entregues a Dick “como uma bomba-relógio, uma latrina ou um manuscrito”.

Apesar da ousadia bem-vinda, não há como ignorar o ridículo. A coisa toda é adolescente, como a própria Chris compreende ao dizer que aquilo “que parecia tão ousado [é só] juvenil e patético”. Para ela, o leitor, valendo-se dos estereótipos mais banais, pode ver em Dick o homem “verdadeiro e fiel aos princípios”, e nela a mulher “escorregadia e maliciosa”. Mas não é o que sobressai. É quando Chris se descreve como uma mulher “particularmente chata” que fica impossível discordar. Chris é tão chata que, quando finalmente vai para a cama com Dick, pensa “no terceiro termo kierkegaardiano”. Uma “chupada” num sonho é descrita por ela como “um tanto sutil e psicocientífica”. Não há uma página que não seja ao menos vagamente absurda — o que não é defeito, embora possa ser cansativo.

Desconfortável com as cartas, faxes e telefonemas, Dick diz que não sabe lidar com uma stalker. “Mas aquilo era stalking?”, pergunta Chris. (Sim.) Se um homem desrespeita os limites que uma mulher impõe, querem saber se ela mereceu — querem saber o que veste, o que diz, como se comporta. O contrário não é verdadeiro. Só um homem abre a porta da própria casa para alguém que considera stalker, como Dick fez com Chris mesmo depois que toda a situação parecia insustentável. No lugar de Dick, uma mulher temeria por sua integridade física ou sua vida. Qual a transgressão que o comportamento de Chris representa? (Em certo sentido, das normas mais básicas de civilidade.) Há feminismo na conduta de Chris com Dick? (Não.) Há consolo ou justiça em tentar dizer que Dick mereceu passar pelo que passou? (Jamais.)

Uma das passagens mais horrendas do livro é quando Sylvère praticamente força Dick a escrever para Chris. Não dá para ignorar o que há de jogo perverso aí, nem de francamente indigesto. Ainda que Chris deseje que o leitor encare o desejo feminino e o machismo do mundo pelo qual transita, nem tudo pode ser justificado pela vontade de “dar a cara a bater” em público. Chris quer que as mulheres sejam donas da própria história, assim como eles foram donos da “História de Mim” que marca o “romance heteromasculino contemporâneo”. Mas quão longe nos é permitido ir para isso?  E quão longe é longe demais?

Quem escreveu esse texto

Camila von Holdefer

Crítica literária, é colaboradora do IMS e da Folha de S.Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #27 out.2019 em setembro de 2019.