Literatura,

Quem é o monstro?

Ao criar arquétipo maior que o próprio livro, autora de ‘Frankenstein’ deixa na mão do leitor o julgamento de criador e criatura

01ago2021 - 00h51 | Edição #48

A origem da palavra “monstro”, que aparece mais de trinta vezes em Frankenstein, de Mary Shelley, deriva, provavelmente, do latim monstrare, que significa “demonstrar”, e de monere, “advertir, avisar”. Monstros precisam ser mostrados, identificados, vistos. Usada primeiro como pronome no século 14, e depois como adjetivo no século 19, a palavra designa um desconforto com o que não parece natural, seja um assassino, um ente mitológico, um cientista sem escrúpulos ou uma criatura gótica. Era comum que seres monstruosos povoassem regiões desconhecidas, tentando avisar marinheiros e viajantes dos riscos de tais empreitadas.

Mary Shelley não sabia que o divertimento banal dos convivas em Villa Diodati levaria à criação de um dos seres mais fantásticos da literatura. Entre as conversas que ouvira naquele ano sem verão de 1816 estavam os últimos avanços das ciências, inclusive aquele sobre a aplicação da corrente elétrica capaz de gerar vida em coisas inanimadas. Luigi Galvani descobrira que podia movimentar membros de animais dissecados apenas utilizando o estímulo elétrico, visto então como um elixir da vida, uma centelha divina. Estava plantada a semente para um dos livros seminais para o horror, a ficção científica e a ficção gótica: Frankenstein.

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A primeira edição contou com apenas quinhentas cópias divididas em três tomos, em 1818. A edição da editora Autêntica conta com apresentação de Bráulio Tavares e tradução de Luis Reyes Gil, e o texto é a versão revisada em 1831 por Shelley. Escrito de forma epistolar, com uma história dentro de outra, o livro começa com cartas do capitão Robert Walton à sua irmã, Margaret, sobre suas aventuras no polo Norte. Ele narra como conheceu um sujeito chamado Victor Frankenstein que, resgatado em seu navio, revela sua trajetória, desde a infância em Genebra até sua obsessão pelo segredo da vida, que levara à sua ruína.

Versado nas ciências naturais, Victor se aprofunda nos estudos em seu laboratório após perder a mãe para a escarlatina. Com seus conhecimentos em química, ele cria uma técnica capaz de dar vida a coisas inanimadas. Assim, monta um ser no laboratório, uma criatura de 2,4 metros, larga e intimidadora. Ainda que tenha tentado recriar a beleza da natureza, o ser, depois de animado, é tão repulsivo que Victor, enojado, o abandona. Enquanto ele vaga pelas ruas da cidade, a criatura foge do laboratório.

Identidade

Uma questão levantada no romance é sobre a identidade do monstro. Ainda que o público hoje identifique Boris Karloff como o monstro Frankenstein, o nome do romance remete a Victor, aquele que muitos identificam como sendo a verdadeira figura monstruosa da história. Shelley acaba deixando na mão do leitor a decisão de julgar criador e criatura, tornando-nos vigilantes sobre o mau uso da ciência e a arrogância daqueles que insistem em quebrar as leis naturais.

Nada se sabia sobre a incompatibilidade sanguínea e de tecidos na época da confecção do livro, mas isso não tira o brilhantismo da história que muitos julgavam impossível ter sido criada pela mente de uma jovem moça. A glória de Frankenstein é também a dualidade da monstruosidade. A criatura do livro é muito diferente daquela do cinema, sendo eloquente, ávida leitora, solitária, incapaz de ser amada, escorraçada para as bordas da humanidade, sem nada poder fazer para mudar sua realidade. Enquanto isso,
Victor, o cientista dedicado, tão enojado de sua criação, se afasta dos amigos e da família, perseguindo a criatura em uma busca louca por vingança, tornando-se tão isolado e amargurado quanto o próprio ser que criou.

Brian Aldiss dizia que Shelley conseguiu algo notável: a criação de um novo arquétipo, que acabou por sobrepujar o livro em si. A figura do autômato renegado por seu criador foi reutilizada ao longo dos séculos em dezenas de produções. É vista de forma intensa e elegante, por exemplo, no filme Blade Runner: o caçador de androides (1982), de Ridley Scott, e em sua sequência, Blade Runner 2049 (2017), de Denis Villeneuve, com seus seres orgânicos artificiais que se voltam contra seu criador em busca de um sentido para sua existência.

Tanto a criatura de Shelley quanto os androides de Ridley Scott são seres e inteligência artificial, autômatos, ainda que orgânicos, criados em laboratório e limitados pelas tecnologias de suas respectivas épocas. Mas enquanto Victor fica aterrorizado com sua criação e a abandona à própria sorte, Niander Wallace, presidente da Wallace Corporation, fabricante de replicantes em Blade Runner 2049, fica exultante com ela, em busca de simular o ato divino da criação em sua totalidade: a capacidade de reprodução dos androides. Os misteriosos processos da vida, como a concepção, estariam agora relegados a um processo industrial, criando uma espécie inteira de seres muito superiores em força ao ser humano comum. Como Victor se sentiria ao ver uma produção em série de sua criatura?

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Victor destruiu a versão feminina da criatura, temendo que eles tivessem filhos, pois “uma raça de demônios se propagaria pela Terra, o que talvez tornasse a própria existência da espécie humana uma condição precária e cheia de terror”. A criatura em si não representa perigo para a humanidade por ser única. Mas uma linha de produção representa um risco: o da nossa substituição.

Em Metamorfoses, de Ovídio, Prometeu criou um homem de barro, com partes de animais, conferindo-lhe a vida com a centelha do fogo celestial roubado da carruagem do Sol. Tanto Victor quanto Niander assumem esse papel de um Prometeu moderno (que é o subtítulo de Frankenstein), afrontando a sagrada face natural e borrando de vez a linha entre o orgânico e o artificial.

Quem escreveu esse texto

Lady Sybylla

É autora de Deixe as estrelas falarem (Dame Blanche, 2020).

Matéria publicada na edição impressa #48 em junho de 2021.