Literatura,

Um panorama de nossos medos

O sucesso da ficção distópica no mercado brasileiro mostra o interesse em sobreviver às dificuldades do presente

01dez2019 - 01h00 | Edição #29 dez.19/jan.20

A Amazônia está em chamas. Nosso presidente, ou alguém associado a ele, pode estar ligado ao assassinato de uma líder política e ele faz discursos desesperados que passam ao vivo na internet. Nossos celulares nos ouvem, usando a gravação de nossas conversas para vender produtos. Mensagens falsas são espalhadas por robôs em redes sociais. Uma das mansões do homem mais rico do mundo tem 25 banheiros, enquanto seus funcionários são controlados por produtividade a ponto de urinarem em garrafas para não perderem tempo. Os oceanos estão imundos de petróleo, e a população tenta recolher os detritos no braço, dado o descaso público, à medida que a fauna e a flora marinhas morrem. Tudo isso poderia ser uma distopia.

“Distopia” parece ser o novo termo da moda. Está nos filmes, nos seriados e nos livros. Só em 2019, saíram uma reedição especial de 1984, de George Orwell, pela Companhia das Letras, e uma adaptação em quadrinhos de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, pela Excelsior, dois dos maiores clássicos distópicos da literatura mundial. Em 2018, a Companhia das Letras publicou uma versão para os quadrinhos de A revolução dos bichos, também de George Orwell, em parceria com o ilustrador Odyr. O conto da aia, de Margaret Atwood, é um dos livros mais vendidos no Brasil, quase dois anos desde seu relançamento pela Rocco, provavelmente pelo sucesso da série televisiva baseada nessa obra, The Handmaid’s Tale.

É difícil dizer como chegamos aqui. Quando a ficção distópica deixou de se tornar um nicho da ficção científica para se tornar um gênero próprio? O romance Nós, de Ievguêni Zamiátin, considerado a obra distópica basilar, foi escrito em 1920. Kallocaína, de Karin Boye, é de 1940. A mão esquerda da escuridão e A curva do sonho, de Ursula K. Le Guin, são de 1969 e 1971, respectivamente. Tivemos ainda filmes como Planeta dos Macacos (1968), Mad Max (1980) e Matrix (1999), e jogos como Resident Evil e Beyond Good & Evil. A distopia sempre foi uma forma de conceber a realidade e os medos humanos.

No Brasil, temos o clássico Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, de 1981, em que o país é governado por uma entidade chamada Esquema. O autor, aliás, ganhou neste ano uma edição especial pela Global da sua trilogia de romances distópicos: além de Não verás país nenhum, estão Zero e Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela (de 2018). Em meados dos anos 1970, Zero foi proibido no Brasil pelo Ministério da Justiça, por ser considerado atentatório à moral e aos bons costumes. Seu pano de fundo histórico é a ditadura militar brasileira, o mesmo período em que o próprio livro foi escrito. Tem como temas principais a repressão e o desejo de liberdade, temáticas que seriam exploradas novamente em Não verás país nenhum. Zero foi lançado primeiro na Itália, para só depois ganhar uma editora brasileira.

Autora de uma tese sobre distopias, Caroline Becker pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), professora de educação básica no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e minha colega no podcast Hora da Distopia, comenta que “a distopia repensa sim medos da contemporaneidade que circunda o autor empírico”. Na sua visão, esse é o movimento da arte, “mas as distopias potencializam isso [os medos] por meio de uma estética específica. Foi algo que emergiu na história da literatura, assim como outras estéticas emergiram e compuseram uma historicidade”.

Tempos menos opressores

Até o fechamento desta edição da Quatro Cinco Um (que teve seu nome inspirado, inclusive, na distopia de Ray Bradbury), três ficções distópicas apareciam na lista dos livros mais vendidos da revista Veja. O conto da aia está na 95ª semana não consecutiva na lista dos mais vendidos. A revolução dos bichos, na 71ª; 1984, na 31ª. Mensalmente, surgem séries com alguma temática distópica, enquanto filmes seguindo essa mesma fórmula são lançados a cada semana. Os últimos dois anos têm testemunhado um movimento mais intenso na produção desse tipo de narrativa. Por quê?

Daniel Lameira, editor da Aleph, comenta: “Tem a resposta bonita, que é fazer as pessoas pensarem, refletirem sobre o momento em que estamos vivendo. E tem a resposta que é mais real: é um mercado, são narrativas que estão sendo mais procuradas agora”. Além de ser a casa de clássicos distópicos, como Nós e Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, a Aleph neste ano está reeditando Blade Runner e O homem do castelo alto, de Philip K. Dick. Para ele, “o momento político de 2019 facilita que as pessoas se engajem com esse tipo de narrativa”.

Por mais que pareça uma tendência literária nova, esse crescimento vem surgindo desde 2008. O segmento young adult viu essa aceleração de distopias com o surgimento da série Jogos vorazes, de Suzanne Collins, em 2008, além de suas adaptações cinematográficas. Uma série de distopias literárias foi lançada desde então, como as sagas Divergente, de Veronica Orth; Legend, de Marie Lu; Maze Runner, de James Dashner; e A seleção, de Kiera Cass. No cenário nacional, tivemos a Trilogia Anômalos, de Bárbara Morais, e Ninguém nasce herói, de Eric Novello. Muitos desses livros vieram antes da conjuntura política que vemos no Brasil e no exterior. Vieram em tempos menos opressores. No livro de Novello, de 2018, o protagonista, chamado Chuvisco, luta contra um governo totalitário e religioso com um ato singular: a entrega de livros proibidos pelo governo na Praça Roosevelt, em São Paulo.

Em setembro deste ano, acompanhamos o vai e vem jurídico do prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella tentando censurar na Bienal do Livro do Rio a graphic novel Vingadores: a Cruzada das Crianças por conter — em suas palavras — “conteúdo sexual para menores” . Em uma página desse quadrinho, há a imagem de um casal de super-heróis do sexo masculino se beijando. Fiscais da prefeitura perambularam pela Bienal por dias, assombrando e ameaçando. A hq fora lançada em 2016.

Premonições

O assustador não é o fato de que um líder político tentou agradar a sua base eleitoral por meio de um pedido totalitário e desinformado, mas sim que ele teve o poder de fazê-lo. O youtuber Felipe Neto lutou contra essa decisão totalitária e religiosa com a mesma arma do protagonista do romance de Novello. Distribuiu livros, inclusive Ninguém nasce herói, que também traz conteúdo LGBT. É como se o livro de Novello virasse uma profecia de si mesmo. Ele comenta: “Justiça poética”.

O escritor vê a situação ocorrida com otimismo: “O nome do meu livro foi citado em sites e jornais junto com alguns outros como exemplo do que aconteceu. Algumas pessoas me descobriram graças a isso, outras vieram conversar depois de ler o livro distribuído na ação do Felipe Neto. O que poderia ter sido um momento de glória para o prefeito do Rio de Janeiro acabou como um evento de divulgação para obras de conteúdo similar ao quadrinho que ele pretendia censurar”.

Mesmo com o consumo de conteúdo on-line, a proibição de livros segue como um medo contemporâneo. A nova ordem, de Bernardo Kucinski, lançado neste ano pela Alameda Editorial, já abre com epígrafes de 1984 e Admirável mundo novo. No caso de Kucinski, por ser um livro de 2019, as alusões são mais explícitas à nossa atual conjuntura política.

No livro, um Brasil fictício passa pela formação de uma “nova ordem” de viés autoritário, liderada por militares. O regime luta contra “utopistas”, aqueles com viés crítico, encarcerando professores e fechando universidades. Na narrativa bem construída, a variedade de linguagens traz uma série de histórias e personagens. Os problemas que já existem no Brasil de hoje são potencializados, e é arrepiante perceber como o livro tem sido premonitório.

Kucinski vê um crescimento no consumo de narrativas distópicas no último ano, marcando “o interesse do público, isso é certo”. Ele comenta as obras distópicas nas listas de mais vendidos, “embora sejam obras antigas, manjadíssimas”. Ele aponta que “o panorama [brasileiro] tem sido marcado por narrativas de gênero e de raça e também narrativas de violência, algumas das quais, essas sim, são de um hiper-realismo que tangencia a distopia”. Kucinski vê uma relação entre o governo Bolsonaro e as distopias atuais. “Bolsonaro está levando o povo brasileiro à situação de desespero com a privação de direitos sociais, trabalhistas e de cidadania, o que é a própria definição de distopia.”

Joca Reiners Terron também vê essa relação entre distopia e bolsonarismo. Ele lançou neste ano A morte e o meteoro, pela Todavia, escrito antes de ver uma Amazônia em chamas. No livro, a floresta amazônica praticamente acabou. Um grupo indígena fictício, os kaajapukugi, que nunca teve contato com o resto do Brasil, agora pede asilo político no México. “Terminei em março a primeira versão do livro que enviei à editora”, ele comenta. “Então o coiso já estava no poder, descoisando tudo e coisificando pessoas. A carta branca dada por esse governo para a destruição está simbolizada na ideia de que ‘é preciso monetizar a Amazônia para salvá-la’. O que eles querem é patrolar árvores, indígenas e qualquer outra coisa que os impeça de chegar ao nióbio e outros minérios que estão nas reservas. Para a continuidade do extrativismo tão característico do colonialismo, não hesitam em extrair a vida.”

Tanto para Kucinski quanto para Terron, o Brasil já está em um estado de distopia. “A água parar de sair da torneira das casas, como aconteceu durante a crise hídrica aqui em São Paulo, é pura distopia”, diz Terron.

O medo do “fim da natureza” não é um tema novo e, cada vez mais, um romance como A morte da Terra, com mais de cem anos de idade, ecoa nossa própria realidade. Ecoa com o que Caroline Becker comentou sobre os medos que circundam o autor. Mesmo no começo do século 20 a distopia já tentava dialogar com o fim de nossos recursos naturais. A editora Piu lançou neste ano esse romance belga escrito em 1910 por J.H. Rosny Aîné. Nessa bela reflexão sobre a morte de nosso planeta, a Terra se tornou um deserto, sem água ou animais. Os Últimos Homens vivem em oásis em indolência e conformidade. Eles, então, começam a ver uma forma de vida surgir, devagar mas em uma continuidade ameaçadora: os Ferromagnetos, seres metálicos e amorfos. Essa distopia já trazia os medos que nos circundam na atualidade, por isso é uma leitura importante.

Como Terron comentou, a falta de água em São Paulo é uma distopia. Uma distopia como As horas vermelhas, de Leni Zumas (Planeta, 2018), imagina a proibição do aborto nos eua, cujo governo passa a deter o controle sobre os direitos reprodutivos das mulheres. Uma emenda constitucional, inclusive, proporciona direitos de vida e liberdade aos embriões em detrimento das mulheres. Essa é, na verdade, a realidade não distópica pela qual o Brasil vem passando.

Censura

Enquanto escrevia este texto, eu me envolvi em um pequeno escândalo com a cidadezinha de Nova Hartz, no Rio Grande do Sul (é claro). A prefeitura baniu um livro de minha autoria, Enfim, capivaras (lançado neste ano pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras), de escolas e da feira do livro da cidade por causa de “linguajar inapropriado” (um eufemismo para “palavrões”). Falo de censura de livros na ficção neste texto e cá estou eu passando pela mesma coisa na realidade.

Em Fahrenheit 451, livros são queimados. Eu, na minha própria vida, tento me comunicar com a Secretaria de Educação da cidade e saber o que acontecerá com os livros que já foram comprados pela prefeitura. Tenho lido comentários no Facebook sobre o caso. Parecem saídos da boca de Capitão Beatty, chefe do corpo de bombeiros de Fahrenheit 451 que queima obras literárias e uma pessoa que odeia livros devido aos sentimentos desagradáveis que causam.

O medo de governantes e do controle estatal e o cerceamento de direitos sempre existiram, apesar de terem piorado com figuras como Bolsonaro e Trump. Mas nem sempre esses direitos foram universais (pelo menos no papel). É interessante lembrar que a ideia de distopia não é fictícia para alguns grupos historicamente oprimidos, para quem esse tipo de perseguição não é novidade nenhuma, uma vez que vivem distopias que imaginamos impensáveis. O medo é o dia a dia desses grupos.

Por exemplo, O quase fim do mundo, de Pepetela, lançado pela Editora Kapulana neste ano. O ganhador do Prêmio Camões de 1997 renova ao trazer o aspecto colonial na distopia angolana. No livro, um grupo de pessoas sobrevive a um evento apocalíptico de origem não especificada (o Feixe Gama Alfa). Toda a Terra é aniquilada, com exceção de algumas plantas e animais. Um grupo de sobreviventes com perfis, nacionalidades e etnias variados começa a se formar. Por mais que a África volte a ser o berço da humanidade, a humanidade volta a trazer seus velhos desentendimentos. Há preconceito étnico e a sugestão do retorno de um sistema com classes sociais. Com personagens bem construídos, a renovação parece utópica de início, apenas para sugerir que o caminho voltará a ser distópico.

Por alguns ângulos, nunca estivemos tão perto de uma utopia no mundo. Há menos guerras, há menos doenças, estamos vivendo por mais tempo, temos mais acesso à informação do que em qualquer outro momento na história. “Utopia” vem do grego, querendo dizer “não lugar”, pela junção de um prefixo de negação com a palavra “tópos”, que significa “lugar”. Mas essas narrativas nos lembram do contrário. A distopia é, sim, um lugar.

Ela não é uma ideia ficcional, mas é algo que já vivemos. Sempre haverá “utopistas”, como os personagens de Kucinski, porque já vivemos uma distopia. Kucinski comenta que “a literatura desperta a imaginação, e a imaginação é a mãe de todas as utopias”. Por outro lado, nunca tivemos tanto medo, e esse medo é embasado em informações (falsas ou verdadeiras). E o medo é o pai das distopias.

Quem escreveu esse texto

Luisa Geisler

É autora de Enfim, capivaras (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #29 dez.19/jan.20 em novembro de 2019.