A escritora ucraniana Oksana Zabuzhko (Divulgação)

Literatura,

Políticas do sexo

Em primeira tradução no Brasil, ucraniana Oksana Zabuzhko parte do espaço íntimo da cama para refletir sobre as relações externas do seu país

25mar2026

Pense nesta cena. Uma cama desfeita, suja, com garrafas de vidro e bitucas de cigarro ao redor. Em cima, uma meia-calça usada; ao lado, um bichinho de pelúcia que poderia ter sido presente de um interesse romântico. Na instalação My Bed (1998), da britânica Tracey Emin (cuja trajetória é apresentada agora em uma exposição do Tate Modern), vira obra de arte a cama em que a artista passou alguns dias com depressão e pensamentos suicidas — resultado de dificuldades com relacionamentos. A obra é uma crítica às expectativas criadas a partir do amor romântico e seus efeitos. 

O tema não é estranho à literatura, e a instalação lembra alguns livros de Annie Ernaux que retratam a intimidade. Em 1992, a autora francesa publicou Paixão simples (lançado pela Fósforo em 2023, em tradução de Marília Garcia), em que narra sua paixão avassaladora com um amante; em 2005, em O uso da foto (Fósforo, 2025, tradução de Mariana Delfini), retratou em imagens e por escrito o cenário doméstico após ter relações sexuais com Marc Marie.

Lançado há trinta anos, Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano, da escritora Oksana Zabuzhko, também traz a cama para o centro da literatura. Assim como a instalação de Emin e a obra de Ernaux, o romance, primeira tradução da ucraniana no Brasil, parte do espaço íntimo da relação e chega em algo tão grande como as relações externas do seu país. 

A cama, neste caso, é composta pela protagonista Oksana — uma poeta ucraniana com grandes semelhanças com a própria autora — e o escultor Mykola K, com quem tem um relacionamento abusivo. Os encontros entre os dois, intercalados com episódios da vida familiar e com amigos, assim como do trabalho dela como autora e professora em universidades do exterior, são apresentados de forma não linear. 

Entre momentos mais narrativos, os pensamentos de Oksana se dispersam entre amores, sexo, idiomas, línguas, textos, nações e as fronteiras, que se impõem ora arbitrariamente, ora politicamente e com violência, entre países e pessoas. Ela faz digressões sobre a história da Ucrânia, o significado de se apaixonar e o que o sexo significa para as mulheres — em especial, as ucranianas. 

Há um paralelo entre os relacionamentos e a posição da Ucrânia, um país formado à sombra de outro

Em 1996, quando o romance foi publicado, a Ucrânia, recém-saída da União Soviética, era um país que ainda ansiava por uma identidade própria, inclusive na língua que falava. O romance foi escrito em ucraniano, e a literatura é defendida como uma parte da formação da Ucrânia contemporânea. 

Zabuzhko nos convida a passear pelas frases como quem anda de montanha-russa: uma começa, é interrompida por um pensamento intrusivo, uma lembrança, um adendo. E, se esperávamos chegar em algum lugar, é possível que isso só aconteça depois de algum tempo: o passeio nos leva a explorar temas por que não esperávamos no começo da frase. Ouvimos, assim, uma personagem que pensa tudo ao mesmo tempo, que não consegue separar a prática artística de seus amores, as aulas da vida, o pensamento dos sentimentos.

O primeiro parágrafo (que se estende por três páginas) já apresenta um desses passeios. Começamos com “Hoje não, ela diz a si mesma”, na terceira pessoa. Algumas linhas adiante, “afinal, queria algum outro ser vivo além de você naquele lar temporário”. A segunda pessoa poderia incluir uma destinatária, claro, mas também pode se referir à própria autora, que antes era “ela”. Um pouco mais à frente: “como eu dizia, na cozinha, pinga zombeteira na pia uma água com barulho idiota”. Personagem que se assume como narradora ou narradora que se assume como personagem? Não sei se importa. 

Em temas, o começo do parágrafo sugere um suicídio que só é confirmado ao final; o meio fala sobre pias que pingam, o que a cozinha americana representa na dinâmica dentro de uma casa e uma citação de Voltaire. No fim, ler Zabuzhko é um pouco como ouvir aquela amiga que fala demais, com empolgação demasiada. Os assuntos se misturam antes de terminar e, justamente por não terminar, sempre voltam. 

Nesse formato fragmentado, o texto às vezes assume o tom de uma palestra sendo ministrada a um público, de conversa íntima com uma amiga ou de briga com o amante. O tema recorrente é o sexo, principalmente como as mulheres se sentem em relação a ele, antes dele, depois dele. Há uma imensa frustração com a expectativa de que o tempo do sexo seja o tempo masculino. 

Dominação

Além de questionar os relacionamentos, Zabuzhko cria um paralelo entre essas cenas e a posição da Ucrânia, um país formado à sombra (e no tempo) de outro, como os acontecimentos recentes nos relembram. Com os convites que recebe para falar em universidades no exterior, a autora se vê sempre obrigada a explicar seu país a outros, reafirmar que o ucraniano é uma língua diferente do russo e provar que a Ucrânia é um país a ser levado a sério. A dominação na cama tem um paralelo com a dominação política sofrida pelo país — e o mesmo vale para a frustração. 

“Mas por quê?”, pergunta uma amiga. “Por que você deixou que fizessem tudo isso?” 

O que eu poderia responder a você sobre isso, minha querida Donna? Que fomos criadas por homens fodidos de todas as maneiras possíveis por todos os tipos de homem, e que era assim que esses homens nos fodiam por sua vez e que, nos dois casos, eles fizeram conosco o que outros homens estranhos tinham feito com eles? 

O comentário é sobre homens e mulheres. Mas também sobre o país e a cultura de opressão que nele impera.

Pesquisa de campo alavancou a carreira de Zabuzhko, que já havia publicado livros de poesia e o calhamaço O museu de segredos abandonados, saga multigeracional que abrange sessenta anos de história da Ucrânia. “Não é um romance, é algo diferente”, diz o escultor como resposta a um comentário de Oksana sobre a relação dos dois. Gosto dos ecos da frase para pensar sobre o livro, que transgride os limites do romance, com memória e biografia, ensaio e crítica. Trinta anos depois, quando a Ucrânia volta a lutar por sua independência, a mensagem feminista e pós-colonial de Zabuzhko continua atual. 

Quem escreveu esse texto

Gisele Eberspächer

Gisele Eberspächer é jornalista, tradutora e apresentadora do canal do YouTube “Vamos falar sobre livros?”.

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