Literatura,
O real tamanho do pequeno
Reedição do premiado O Deus das pequenas coisas certifica relevância de seus temas quase trinta anos após primeira publicação
24ago2026 | Edição #109[…] tudo começou quando as Leis do Amor foram promulgadas. As leis que determinam quem deve ser amado e como. E quanto.
A frase que fecha o primeiro capítulo de O Deus das pequenas coisas, da indiana Arundhati Roy, suscita mais perguntas do que respostas. Até esse ponto da narrativa, os leitores sabem apenas que, por uma sucessão de pequenos e grandes acontecimentos, uma tragédia ocorreu e que Ammu, Estha e Rahel estão arrependidos de suas ações. Mas o que seriam as Leis do Amor e a que exatamente elas se referem?
O Deus das pequenas coisas, publicado originalmente em 1997, vai muito além de um enredo centrado em um “amor proibido”. O romance acompanha a história de uma família em Ayemenem, uma pequena cidade no estado de Kerala, na Índia, alternando entre os anos de 1969 e 1993. No primeiro período, uma sucessão de eventos transforma drasticamente a vida de seus membros; em 1993, a narrativa reflete sobre os traumas deixados por essa tragédia.
Rahel, Estha, Ammu e Velutha são os protagonistas da história. Rahel e Estha são gêmeos, com sete anos de idade em 1969, e mantêm um vínculo profundo. Ammu, mãe das crianças, retorna à casa de sua família após um divórcio. Velutha, por sua vez, é um intocável (ou um dalit), empregado da família de Ammu e membro do partido comunista local. A narrativa adentra os desejos mais íntimos das personagens, conferindo profundidade até mesmo àquelas que poderiam ser retratadas como condenáveis, como Chacko, o tio das crianças.
Roy alterna essa subjetividade, considerada melodramática por alguns críticos, com a realidade histórica dos dois períodos do romance, incorporando reflexões sobre questões sociais e políticas, como a condição em que viviam os intocáveis após a independência da Índia e sua frustração diante das promessas de igualdade jamais cumpridas. O legado da colonização britânica, a consolidação do comunismo no sul do país e a continuação do sistema de castas, mesmo depois de sua proibição, são alguns dos temas abordados criticamente no romance.
A polaridade entre as grandes e pequenas coisas é essencial na narrativa de Roy
Outra característica marcante do livro é a linguagem. Roy brinca constantemente: junta palavras para criar novos vocábulos, transforma expressões em substantivos, usa letras maiúsculas para dar ênfase: “E um cheiro. Docenjoativo”; “o Homem do Refrescodelaranja Refrescodelimão”; “Ammu explicou depois que Mui Brevemente queria dizer Por Pouquíssimo Tempo”.
Grandes coisas
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A polaridade entre as grandes e pequenas coisas é essencial na narrativa. As grandes são as estruturas de poder que organizam aquela sociedade: o Império Britânico, o sistema de castas e a História, escrita com agá maiúsculo para representar a narrativa oficial, contada pelos vencedores e responsável por ditar as Leis do Amor. As pequenas são representadas pelos sujeitos marginalizados: as crianças; Ammu, uma mulher divorciada que desafia padrões sociais; e sobretudo Velutha, descrito como o Deus de todas as pequenas coisas, aquele que “não deixava pegadas na areia, nem ondulações no mar, nem imagem nos espelhos”.
No romance, essas personagens marginalizadas subvertem os papéis que lhes são atribuídos, transgredindo regras implícitas e explícitas, as tais Leis do Amor. Embora essas leis partam do âmbito público — da História —, seus efeitos recaem sobre o âmbito privado, regulando as relações interpessoais, os afetos e “quem deve ser amado e como. E quanto”.
A violação das Leis do Amor leva a um desfecho trágico. E, ao mesmo tempo, convida a refletir sobre as estruturas que sustentam tais regras. Essa perspectiva transcende a estreia literária de Roy e se projeta em seu trabalho posterior. Sua produção voltou-se principalmente para ensaios e discursos de caráter político, abordando temas que vão desde a ocupação da Caxemira e a construção de represas até os impactos do capitalismo neoliberal e os conflitos geopolíticos.
Atualidade
Com sua amplitude de temas, O Deus das pequenas coisas venceu o Booker Prize em 1997 e projetou a autora no cenário literário nacional e internacional. Roy foi colocada ao lado de grandes nomes da literatura indiana contemporânea, como Salman Rushdie, Jhumpa Lahiri e Kiran Desai. Embora tenham produções singulares, suas obras compartilham características, como o hibridismo cultural, a construção da identidade no contexto do multiculturalismo e os impactos do período pós-independência sobre a sociedade indiana.
Ao mesmo tempo, o romance de Roy provocou bastante controvérsia. Como a própria autora relata em sua autobiografia, Meu abrigo, minha tormenta (trad. Fernanda Abreu, Record, 2026), o livro desagradou diferentes setores da sociedade, como o governo marxista de Kerala, cristãos-sírios conservadores, membros de sua própria família e um grupo que abriu um processo penal contra a autora, sob a acusação de “obscenidade e corrupção da moral pública” devido às descrições de natureza sexual.
Quase trinta anos após o lançamento, a Record está publicando uma edição comemorativa de O Deus das pequenas coisas. O livro, portanto, se aproxima dos 31 anos, a chamada “idade morrível viável” no romance. Mas, mesmo depois de tanto tempo, seu encanto e sua relevância permanecem. A Índia ainda precisa ouvir seus marginalizados — intocáveis, mulheres, muçulmanos, pessoas de baixa renda, adivasis (povos originários), entre outros. Ao longo dos anos, Roy tem denunciado as desigualdades e motivado as pequenas coisas a lutarem por seus direitos.
O Deus das pequenas coisas se encerra com as seguintes palavras:
Ela se virou para dizer mais uma vez:
— Naaley. Amanhã.
Concluir com a palavra “amanhã” um romance marcado por traumas, pela incapacidade de escapar do passado e por duras críticas à sociedade indiana é uma escolha significativa. Trata-se da afirmação da esperança, ainda que discreta, de que o futuro pode trazer mudanças.
Em 2026, o livro ainda ensina a acreditar. Timidamente. Cautelosamente. Em uma “idade morrível viável”, sem renunciar à esperança de um amanhã.
Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “O real tamanho do pequeno”
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