Literatura,

O mundo irracional dos adultos

Autobiografia de Wole Soyinka, primeiro escritor negro africano a ganhar o Nobel, relembra memórias de sua infância

01mar2021 - 00h14 | Edição #43

Wole Soyinka foi o primeiro autor da África negra a ser premiado com um Nobel de literatura — e ele continua sendo o único nessa categoria. A norte-americana Toni Morrison e Derek Walcott, nascido em Santa Lucia, no Caribe, foram os outros autores negros a receber essa homenagem. Já dos agraciados com o prêmio vindos do continente africano, temos o egípcio Naguib Mahfouz e os sul-africanos brancos Nadine Gordimer e John Coetzee. Ironicamente, no ano em que foi indicado, Soyinka fazia campanha para o poeta e ativista anticolonalista caribenho Aimé Césaire.

Em 1986, quando a campanha anti-apartheid ganhava mais fôlego internacionalmente, ele usou o discurso da cerimônia de entrega do Nobel para pedir o fim do sistema racista de governo da África do Sul e a liberdade de Nelson Mandela. Como o dramaturgo, poeta, ensaísta e ficcionista afirma com frequência: “Um escritor nunca é apenas um contador de histórias”. Ainda hoje, aos 86 anos, da sua residência em Abeokuta, capital de Ogun, no sudoeste da Nigéria, Soyinka continua disposto a dar a sua opinião sobre as coisas que acontecem em seu país e no mundo. Em 2016, quando Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, o autor nigeriano publicamente recusou seu visto de residência e devolveu seu green card. Atualmente, quando viaja para dar aulas e palestras no país, entra como um visiting alien, que ele considera muito mais apropriado. 

Soyinka educou-se não apenas na Nigéria, mas na Inglaterra e nos Estados Unidos. Nos anos 1950, pisou pela primeira vez em um palco, ao lado de seu primo, o então saxofonista Fela Kuti. Sua peça A dance of the forest (A dança da floresta), de 1960, ganhou um concurso para ser apresentada nas festividades de comemoração da independência da Nigéria naquele ano. Sempre “ativo” no diálogo público, teve que sair de seu país diversas vezes. Durante a guerra civil de Biafra, foi preso por 22 meses quando apelou por um cessar-fogo. Em sua solitária escreveu The Man Died: Prison Notes of Wole Soyinka (O homem morreu: notas da prisão de Wole Soyinka) em rolos de papel higiênico. Seu exílio mais longo, nos anos 1990, é chamado pelo próprio Soyinka de um “sabático político”. Sobre seus textos serem “subversivos”, ele diz que “muitas pessoas não entendem essa palavra; eu apenas digo a verdade”. “Não consigo ver outra responsabilidade de um escritor senão a de expandir os horizontes de sua comunidade, da humanidade.”

De 1997 a 2000, Soyinka foi presidente do International Parliament of Writers (Parlamento Internacional de Escritores), fundado em 1993 para apoiar e proteger autores vítimas de perseguição por suas ideias. “Depois de lutar contra a posição que a história e a colonização nos deram e ultrapassá-la, como escritores, temos de lutar contra nossos ogros internos, a mentalidade colonial, e superar tudo de novo, mais uma vez, e assim começar a contar as histórias que queremos contar.”

‘Aké: os anos de infância’ traz para o leitor uma visão de quase ironia sobre a maturidade e a sabedoria que deveriam pertencer à vida adulta

O prêmio Nobel e a visibilidade internacional deram a ele a possibilidade de investir em um retiro para escritores, transformado na Wole Soyinka Foundation, um lugar “dedicado à erradicação das barreiras para a autoexpressão”. Sua fundação dá especial atenção à “ressurreição” das formas tradicionais de arte, como a ópera popular yorubá, a cerâmica e o batik (técnica artesanal de tingimento de tecido). O autor vê, por fim, um retrocesso nas lutas globais antirracista, pela liberdade e pela democracia.

Registro da história

Soyinka não consegue calar-se diante das injustiças da história. Sua autobiografia Aké: os anos de infância, publicada há quarenta anos (e lançada agora no Brasil pela Kapulana), é fruto dessa sua necessidade de registrar a “história”, para que não nos esqueçamos, para que avancemos do presente para o futuro. A ideia inicial de Soyinka era a de capturar por meio da biografia de seu tio, o reverendo Kuti, com quem já tinha acordado uma colaboração, a atmosfera do rompimento anticolonial, o debate intelectual e o contexto pré-independência vivido pela Nigéria. Seu tio partiu mais cedo do que o esperado, vítima de um câncer, mas sobraram as memórias do autor. Aké conta esse período de transição sob o ponto de vista de uma criança.

A narrativa traz a leveza necessária para absorver toda a complexidade e a dureza desse universo de um jeito quase simples, certamente natural. O território de Aké focaliza os primeiros onze anos de sua vida familiar, escolar e “cidadã”. Soyinka faz parte de uma família de classe média; seu pai era professor e diretor da escola britânica frequentada pelo escritor, enquanto sua mãe era uma ativista da família dos Ramson-Kuti. No volume, os personagens reais ganham apelidos que caem como fantasias ou lentes de aumento para os detalhes da narrativa que o autor não quer esconder. Os mais famosos são o de sua mãe, a “Cristã Impetuosa” (ou “Wild Christian”, no original), e “Ensaio”, para seu pai. “Ensaio” porque “Essay” é como soa a pronúncia de suas iniciais, “S.A.”, em inglês — ou como soaram para a criança daquele momento.

O autor nos fala da herança da tradição yorubá, vinda principalmente de seu avô, que para a criança da sua memória competia com a realidade descrita pelo protestantismo. A primeira ganhava na sua imaginação pois “era mais poética, mais colorida, mais misteriosa”. Conta do mundo complexo da educação colonial, dos sonhos de independência, da cristandade anglicana que convive com as tradições e deidades yorubás, do racismo embrenhado na possibilidade de o uniforme escolar ter ou não ter bolsos, das possibilidades dos livros e da vida na natureza, da convivência com a família e dos debates entre seu pai e seu tio, o reverendo anticolonial por excelência.O humor tão fino, afiado e certeiro de sua obra ganha tons infantis nessa autobiografia. “Alguns nacionalistas jovens e radicais estavam sendo presos por insubordinação, e insubordinação se tornou o equivalente a exigir que o homem branco nos deixasse a nós mesmos”, conta o narrador sobre a atmosfera que crescia na direção da independência colonial. Aké traz para o leitor uma visão de quase ironia sobre a maturidade e a sabedoria que deveriam pertencer à vida adulta — o “mundo irracional de adultos e suas exigências”, como Soyinka define, sem medo, na parte final do livro.

Quem escreveu esse texto

Izabela Moi

É diretora executiva da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.