Literatura,

Narrativas de um genocídio

Scholastique Mukasonga, que perdeu 27 integrantes de sua família no genocídio em Ruanda, narra as origens do massacre

09nov2018 - 14h21 | Edição #3 jul.2017

Não assuma que já leu tudo sobre o genocídio de 1994 em Ruanda. Tragédias como essa produzem uma profusão de narrativas que se acumulam e se multiplicam, tornando-se uma bibliografia quase impossível de dominar. Mas Scholastique Mukasonga não pode ficar de fora. A escritora, que perdeu 27 membros de sua família naquele ano, escapou.

Principalmente, sua obra reforça a ideia de que a construção dessa narrativa que leva o país a viver um assassinato em massa, quando a maioria hutu do país matou quase 1 milhão de tutsis, e mutilou e expulsou outros milhões de sobreviventes para países vizinhos, começou décadas antes. 

Mukasonga, seu prenome “real” (Scholastique é o nome “cristão”), não deixa que nenhum de seus livros fujam ao compromisso da memória, a essa responsabilidade de contar a história inteira. Que o mal não chega por acaso. Que o mal é construído e costurado no cotidiano.

A editora Nós lança agora dois de seus livros. A mulher dos pés descalços, obra autobiográfica, é uma homenagem a sua mãe, Stefania, e ganhou o prêmio Seligmann contra o racismo. Nossa Senhora do Nilo é seu primeiro romance (de ficção parece não ter quase nada), vencedor dos prêmios Ahmadou Kourouma e o Renaudot.

“Quando eu morrer, quando vocês perceberem que eu morri, cubram o meu corpo.” É esse o pedido que Stefania faz a suas três filhas, que Mukasonga vai atender: recobre o corpo da mãe de palavras e frases, como diz já nas primeiras páginas de A mulher de pés descalços. O livro é o relato de um cotidiano vivido sob a ameaça constante da violência com a qual os tutsis conviviam desde que foram exilados em seu próprio país no início dos anos 60, quando o movimento de independência transformou a monarquia em república e promoveu os hutus ao poder. “Durante muito tempo, os desterrados esperaram o dia de voltar para casa, para ‘Ruanda’, como diziam. Mas depois das represálias sangrentas dos primeiros meses de 1963, eles perderam as ilusões.” 

Os tutsis, “os deportados de Nymata”, são deslocados de suas terras nas montanhas, separados de seu gado e empurrados para semi-campos de refugiados no interior. Muitos dos que conseguiram fugir na época instalaram-se no vizinho Burundi, também povoado pelos tutsis. Quem não conseguiu se evadir passou décadas sonhando em sair. Ou em sobreviver.

“Minha mãe tem somente uma ideia na cabeça, o mesmo projeto para todos os dias, uma única razão de viver: salvar os filhos.” Mukasonga faz dessas memórias uma etnografia lírica à qual nós, leitores, não estamos habituados. É que ela escreve, mas a partir do ponto de vista do etnografado. Como quando ela descreve a casa tradicional que sua mãe construiu atrás daquela cujo modelo veio dos colonizadores belgas, pois ela não servia: “As vigas eram muito retas […]. Desorientada, ela [Stefania] buscava em vão uma curva para se aconchegar, uma curva feita para pôr as costas”.

A plantação, a farmácia, os relacionamentos, a família, a cultura, as lendas. Enquanto reconta o cotidiano, ela não deixa de fora a interferência da colonização e a violência étnica. “Os brancos pretendiam saber melhor do que nós quem éramos e de onde vínhamos. Eles nos apalparam, nos pesaram, nos mediram. As conclusões a que chegaram foram categóricas: nossos crânios eram caucasianos, nossos perfis, semíticos, nossa estatura, nilótica. Eles conheciam até mesmo nosso ancestral, estava na Bíblia e se chamava Cã. Nós éramos os quase brancos, apesar de algumas mestiçagens repugnantes, um pouco judeus, um pouco arianos. Os cientistas (a quem devíamos ser gratos) tinham feito até uma raça sob medida para nós: nós éramos os Camitas!” 

É nesse ambiente artificial inventado pelos colonizadores, os colégios católicos de Ruanda, que Mukasonga monta o cenário de sua ficção

No ambiente artificial criado pelos colonizadores, os colégios católicos de Ruanda, Mukasonga monta o cenário de sua primeira “ficção”. Nossa Senhora do Nilo se passa num liceu para meninas: “Nossa Senhora do Nilo é o melhor liceu que existe. E o maior também. As professoras brancas gostam de dizer, orgulhosas: ele tem 2.500 metros. A irmã Lydwine, professora de geografia, corrige: 2.493”.  

As mesmas duas ameaças cotidianas pairam também sobre as internas. As meninas tutsis são “as cotistas”. “A cota funciona assim: de vinte alunas, duas são tutsis. Por causa delas, tenho amigas que são ruandesas de verdade, do povo majoritário, do povo da enxada, que não conseguiram vaga na escola secundária.” Assim, imaginamos que o romance se passe pouco depois da independência, em 1962, quando o país tornou-se uma república e os hutus tomaram o poder das mãos da monarquia tutsi. 

No colégio, as meninas ouvem falar de Robin Hood, Ivanhoé, Ricardo Coração de Leão. “Para a África, não havia história, pois os africanos não sabiam ler nem escrever antes de os missionários trazerem as escolas para cá. Além disso, foram os europeus que descobriram a África e a colocaram na história. E, se houve reis em Ruanda, seria melhor esquecê-los, pois hoje em dia vivíamos em uma República.”

A escola católica tem uma moral “civilizada” que se infiltrava pouco a pouco no modo de viver ruandês. Menstruação, gravidez, aborto. “Naquela época os brancos e missionários ficavam do lado dos tutsis. Assim, ter uma Virgem negra com um nariz tutsi era bom para eles.”

As contradições entre os valores tradicionais e os “civilizados” chegam até aos gorilas das montanhas. “Em Ruanda, a única coisa interessante são os gorilas. Todos os ruandeses devem estar a serviço dos gorilas, devem ser empregados dos gorilas, se preocupar só com os gorilas, viver para eles. Existe até uma mulher branca que vive com eles. […] Ela recebe muito dinheiro para os gorilas.”  

Mukasonga, que migrou para o Burundi em 1973 e vive na França desde 1992, diz que “em Ruanda há muitas coisas que não devem ser ditas”. Talvez por isso ela tenha escolhido escrever. Para cobrir o corpo de sua mãe. Para que a história não seja esquecida. E para que um futuro possa ser imaginado. “Talvez um dia haja uma Ruanda sem hutus nem tutsis.” 

Quem escreveu esse texto

Izabela Moi

É diretora executiva da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

Matéria publicada na edição impressa #3 jul.2017 em junho de 2018.