Literatura japonesa,

O livro das delicadezas

Contos protagonizados por mulheres fazem rir e refletir sobre a desconcertante condição feminina

01nov2022 - 04h51 | Edição #63

Mulheres é um livro sobre as miudezas do cotidiano no Japão, na forma de quatorze contos protagonizados e narrados por mulheres, escritos no período em torno da Segunda Guerra Mundial. De modo geral curtas, organizadas em ordem cronológica, as histórias são perpassadas por temas sociais, como o forte controle masculino da sociedade patriarcal japonesa, a submissão feminina, as traições, a violência e a pobreza na guerra. Desse ambiente hostil emergem as mulheres — filhas, mães, esposas, irmãs, cunhadas e amantes — que com lucidez e sagacidade desconcertantes ora se adaptam de modo criativo às situações, ora protagonizam transformações, levando pela mão os homens desnorteados e bêbados que as circundam.

Osamu Dazai, conhecido no Brasil especialmente por seu livro de cunho autobiográfico, Declínio de um homem, oferece-nos em Mulheres mais um exemplo de uma prosa voltada às vidas emocional e psicológica dos personagens, reveladas em profundidade nos pequenos atos, diálogos e pensamentos. Também oferece um retrato da época em que o livro foi originalmente publicado no Japão, em 1942. Em sua versão brasileira, o livro ganhou contos extras, três deles escritos no pós-guerra.


Mulheres, de Osamu Dazai, é um livro sobre as miudezas do cotidiano no Japão

As personagens vivem de modo tradicional, em casas com divisórias de papel de arroz, vestidas em quimonos, servindo chá com arroz e outras comidas locais a seus maridos e familiares. À parte algumas menções a escritores estrangeiros, ao cristianismo (“O grilo” e “A esposa de Villon”) e às roupas ocidentais costuradas por uma personagem (“Pele e coração”), não há praticamente nenhuma referência à influência cultural do Ocidente que, sabemos, se iniciara muitas décadas antes, quando o Japão foi forçado pelos norte-americanos, em 1868, a abrir as suas fronteiras para estrangeiros depois de dois séculos de isolamento.

Se compararmos as personagens de Dazai às do cineasta Yasujirō Ozu, seu contemporâneo — cujos filmes mais conhecidos, produzidos nos anos 50, tematizam insistentemente o conflito entre valores tradicionais e estrangeiros (como os belos Bom dia e Era uma vez em Tóquio) —, constatamos que a força das transformações culturais só se fez sentir no pós-guerra, com a ocupação norte-americana do Japão. Dazai, assim como outros escritores do período, como Yasunari Kawabata e Ryūnosuke Akutagawa, tem o mérito de nos apresentar uma visão de mundo que logo iria se transformar radicalmente.

Lampejos de lucidez

Os lampejos de lucidez e poesia das protagonistas, em meio ao ambiente turbulento e hostil que as circunda, são enternecedores, e sobretudo inspiradores, nos duros dias que vivemos hoje. A narradora do primeiro conto do livro, “A luminária”, jovem de família pobre que passa a viver fechada em casa pela vergonha de ter sido pega ao roubar uma roupa de banho para o namorado, não deixa escapar a beleza de uma cena completamente ordinária:

Esta noite, meu pai disse que a luz da luminária da sala estava muito fraca e depressiva e a trocou por uma mais potente, de cinquenta watts. Meus pais e eu jantamos iluminados pela claridade da luminária. Minha mãe pousou a mão com os hashi sobre a testa e disse bastante animada: ‘Quanta luz, quanta luz!’ Pus mais arroz na tigela de meu pai. ‘No fundo, nossa alegria consiste em pequenas coisas, como trocar a lâmpada da sala’, pensei.

Assim também a jovem que vive com o irmão e a cunhada grávida no conto “História de uma noite de neve”, escrito em 1944, já em meio à guerra e às restrições para a obtenção de comida. Entristecida ao perder um jornal em que embrulhara lulas secas que pretendia dar à sua cunhada faminta, decide substituir o presente pela imagem da bela paisagem nevada, que ela contempla demoradamente na esperança de que fique impregnada em seu globo ocular e possa ser transmitida à cunhada, por meio da troca de olhares: “‘Mana, olhe dentro de meus olhos! O bebê em sua barriga será lindo’ — era o que eu pretendia dizer”.

As protagonistas revelam uma percepção complexa do mundo, que passa longe de uma moralidade rasteira

Mas não nos enganemos diante do que poderia soar como inocência ou mesmo, no caso de alguns contos, frivolidade. As protagonistas revelam uma percepção complexa do mundo, que passa longe de uma moralidade rasteira do tipo bem versus mal. Enquanto os maridos ou outros homens as tratam com descaso e batem a porta para voltar bêbados alguns dias depois, põem-se a refletir sobre a vida, o casamento, a morte e a fome.

É especialmente encantadora a complexidade da personagem de “A estudante”, um dos primeiros sucessos literários de Dazai. Baseado em diários escritos por meses a fio e enviados por uma jovem ao escritor, trata das reflexões, no decorrer de um dia, de uma menina que não quer crescer. Em meio ao sofrimento diante do seu corpo em transformação, ela revela sua inadequação à moral normativa: “Quem age de acordo com o que aprendeu na sala de aula será feito de tolo. Será chamado de excêntrico. Não terá sucesso, será sempre pobre. Existe alguém que não minta? Se existir, será eternamente um perdedor”. Como quem não quer nada, faz uma observação tão original que chega a ser desconcertante: “As coisas nas quais as pessoas pensam quando estão sentadas são completamente diferentes de quando estão em pé”.

O livro é cheio de detalhes desse tipo, que nos fazem rir e pensar ao mesmo tempo. A narradora de um dos contos mais interessantes do livro, “Pele e coração”, que se define como “uma senhorinha de 28 anos!”, assusta-se ao acordar com uma erupção de pele logo abaixo do seio. Já com o corpo todo tomado, é levada pelo marido (um “velho” de 35 anos) ao hospital, onde passa a refletir sobre o seu horror a coisas rugosas em geral, oferecendo uma lista que faz valer, por si só, a leitura do conto:

Não entendo como os outros conseguem comer ovas de salmão. Conchas de ostras. Cascas de abóbora. Caminhos de cascalho. Folhas carcomidas por insetos. Cristas de aves. Gergelim. Tecidos com manchas de tinta. Tentáculos de polvo. Folhas de chá usadas. Camarões. Colmeias de abelha. Morangos. Formigas. Sementes de lótus. Moscas. Escamas. Detesto tudo isso […]. Já tive vontade de vomitar vendo fotos ampliadas da Lua.

Papéis femininos

A visão da sociedade japonesa sobre o papel das mulheres é expressa por algumas personagens. “A estudante”, que oferece visões agudas do mundo em que vive, ao mesmo tempo diz concordar com as revistas que definem as mulheres como sem “profundidade” ou “capacidade de reflexão”. O pai da protagonista do conto “Chiyojo”, ao defender a filha das pressões externas para que se torne escritora, conclui: “O talento literário de uma mulher não tem valor. É um alvoroço momentâneo despertado pela curiosidade que, depois, arruína uma vida inteira […]. A melhor coisa para uma mulher é casar e se tornar uma boa mãe”. Em “Sem que ninguém saiba”, a narradora estranha o interesse de sua amiga por livros ditos eruditos, crítica expressa pelo irmão mais velho da amiga quando esta foge com o namorado: “Ah! Ela desapareceu. Que tola! Da literatura não podia esperar nada de bom mesmo”.

As personagens, entretanto, oferecem-nos todo o tempo contrapontos à frivolidade que lhes é atribuída. A narradora de “O grilo” escreve uma carta ao marido dizendo querer se separar, pois o sucesso dele como pintor depois de anos de uma vida modesta, mas feliz, a jogou em um mundo de pessoas abastadas e falsas:

Quanto mais pobres nos tornávamos, mais era tomada por um estranho sentimento de felicidade […]. Quando não tínhamos mais dinheiro nenhum, ficava contente de ter a oportunidade de pôr toda a minha perseverança à prova […]. Agora, isso perdeu a graça. Quando penso que posso comprar o que quiser, perco toda a inspiração.

E conclui: “Com certeza, neste mundo, você é que está certo, não eu. Embora eu não saiba onde ou de que forma possa estar errada.”

Pequenas transgressões

Sem nenhum tom panfletário ou moralista, as mulheres vão dizendo ao que vieram e transgridem por meio de pequenos gestos, pensamentos, descobertas. A narradora de “As tenras folhas das cerejeiras e o assobio misterioso” ouve da irmã, à beira da morte, a confissão do pesar pelo tempo perdido, o arrependimento por uma obediência cega às regras morais:

Seria melhor ter me envolvido com um homem de verdade. Desejava que meu corpo fosse abraçado com força. Até hoje, nunca tive um namorado ou cheguei a conversar com algum rapaz fora de casa. Acho que você também, não é verdade? Mana, isso foi um erro! Fomos sensatas demais.

A protagonista do conto “A esposa de Villon”, na penúria do pós-guerra, consegue descobrir seu lado alegre e obsceno ao trabalhar como garçonete em um bar clandestino. Ao conversar com o marido ladrão e promíscuo, que se queixa de ser chamado de monstro na cidade, ela revela o seu pragmatismo: “Que mal há em ser um monstro? Se estivermos vivos, isso já é o suficiente”. E reflete:

Para cada gota de felicidade, sempre há um balde de infortúnios. Quem consegue passar um dia, aliás, nem isso, quem consegue passar a metade de um dia livre de preocupações em trezentos e sessenta e cinco dias é uma pessoa feliz.

Em “À espera”, uma moça solteira aflita diante da guerra passa os seus dias sentada na estação de trem, refletindo enquanto espera algo que possa mudar a sua vida. O leitor, certo de que a espera se refere a um futuro marido, é surpreendido com sua observação:

Então, pelo que espero, afinal de contas? Um marido? Não. Um namorado? Também não. Um amigo? Ora! Dinheiro? Faça-me o favor! Um fantasma? Credo! Algo mais adorável, brilhante, maravilhoso. O que é, não sei. Talvez seja parecido com a primavera. Não, não é isso! Folhas verdes. Maio. A água cristalina que corre pelas plantações de trigo. Não, ainda não é nada disso. Mas sigo à espera. Com o peito palpitante, espero.

Espelhamentos

Os contos escritos no pós-guerra são uma atração à parte, pois oferecem, pela voz das narradoras, contrapontos poéticos em meio às descrições detalhadas do dia a dia de dificuldades, bombardeios, fome e penúria. “8 de dezembro” é o diário de uma dona de casa relatando o dia em que o Japão entrou oficialmente na guerra. A narradora alterna notícias de rádio sobre o avanço das tropas com a constatação de que as fraldas que secavam do lado de fora estavam congeladas, enquanto “a camélia florescia esplendorosa”. Seu percurso pelas ruas na tentativa de comprar alguma comida — em que especifica o preço de cada item —, enquanto o marido se embriaga em algum lugar, acaba com o encanto pela contemplação da filha bebê:

Ah, pôr Sonoko dentro da água morna era meu momento preferido! […]. Nenhum quimono se comparava à graça de seu corpinho desnudo. Lamentei ter que vesti-la ao sair do banho. Gostaria de ter ficado abraçando seu corpo por mais tempo.

Menos poéticos, “Madame hospitalidade”, narrado por uma empregada, fala de uma dona de casa que sofre de uma bondade compulsiva e não consegue dizer não aos amigos do marido desaparecido na guerra, que invadem sua casa e consomem seu dinheiro. “Osan”, do mesmo período, traz o tema do duplo suicídio (também tematizado em Declínio de um homem), claramente inspirado na vida de Dazai, que, depois de quatro tentativas, algumas em companhia de mulheres, se suicida com a amante em junho de 1948, às vésperas de completar 39 anos.

A edição conta com dois posfácios da tradutora, Karen Kazue Kawana, um resumindo e situando temporalmente os contos e outro com a biografia de Dazai. Embora fique evidente o espelhamento entre a vida do autor e a de seus personagens, especialmente os masculinos, na maioria escritores bêbados e viciados, como ele, Dazai parece enviar uma clara mensagem — talvez para despistar o leitor, ou provocá-lo — sobre o caráter ficcional da escrita. Em “A humilhação” uma jovem leitora decepciona-se ao constatar que o autor sobre cuja obra se debruçara com paixão não guarda semelhança alguma com os protagonistas masculinos de seus livros, decadentes, pobres, doentes, e conclui: “Os escritores são desprezíveis! Que escória! Escrevem apenas mentiras […]. São abomináveis, vivem fazendo de conta que são outra pessoa. Não são esses os verdadeiros farsantes?”.

Se não podemos determinar quão fiéis são essas personagens às mulheres da época, é interessante ver o lado desajustado, amoral e revolucionário das japonesas refletido e ampliado nas obras de escritoras contemporâneas, como Hiromi Kawakami, Yoko Ogawa, Banana Yoshimoto, Natsuo Kirino e Mieko Kawakami. Seus personagens recusam a imposição do casamento e optam pelo celibato, rejeitam a maternidade e as relações familiares, cometem atos criminosos, prostituem-se.

As mulheres dizem ao que vieram e transgridem por meio de pequenos gestos, pensamentos, descobertas

Sayaka Murata talvez seja aquela que expresse esse desajuste de modo mais radical. Em Querida konbini, a protagonista, por não conseguir ajustar-se às regras sociais, escolhe um trabalho mecânico em uma loja de conveniências (konbini), que lhe oferece um manual claro de conduta. Em seu livro mais recente traduzido para o português, Terráqueos, esse desajuste é levado ao extremo na pele de uma jovem que se descobre extraterrestre. Em uma entrevista, ao comentar sobre uma de suas autoras prediletas, Rieko Matsuura, autora de Dog’s Body (Corpo de cachorro, ainda sem tradução para o português), Murata afirma: “Desde criança eu sempre lutei para me tornar um ser humano adequado, de modo que o termo ‘desordem de identidade de espécie’ veio como um grande alívio para mim. Quando a protagonista se transforma em um cachorro, eu senti que também me havia sido permitido continuar a viver como não humana, o que me deixou realmente feliz”.

Embora não se possa comparar a radicalidade de tal perspectiva com aquelas das personagens de Mulheres, é irresistível citar a observação de uma delas, a jovem que passava o dia a olhar o desembarque dos trens em “À espera”: “Afinal, por quem espero sentada aqui todos os dias? Que tipo de pessoa? Não, pode ser que o que espero não seja uma pessoa. Não gosto das pessoas. Na verdade, tenho medo delas”.

Este texto foi realizado com o apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Aparecida Vilaça

Professora de antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora Ficções amazônicas (Todavia, 2022).

Matéria publicada na edição impressa #63 em outubro de 2022.