Literatura infantojuvenil,

Reescrita do mundo

Antologia de autoras indígenas firma a cultura dos povos originários na realidade que constitui e pensa o país

01nov2023 - 00h00 | Edição #75

Originárias: uma antologia feminina de literatura indígena, organizada por Trudruá Dorrico e Mauricio Negro, está catalogada como literatura infantil/infantojuvenil, mas sugiro nos afastarmos desta classificação para falar sobre o livro. Não por não se tratar de uma bela obra destinada a jovens e crianças, com participação de nomes como Glicéria Tumpinambá, Eliane Potiguara e Naine Terena, e acompanhada das ilustrações especiais de Mauricio Negro. Originárias é tudo isso.


O título Originárias remete à origem, a povos que já estavam aqui antes da chegada dos europeus

Mas não é esse o aspecto que eu gostaria de ressaltar. Gostaria de apontar para o trajeto que trouxe esse livro até aqui, pois sua mera materialidade é, antes de tudo, um ato de resistência. Literatura feita por mulheres indígenas não é pouco, não é fácil. Então, sugiro que nossa leitura tenha esse acontecimento como pano de fundo, pois se essas vozes chegaram até aqui é porque há uma história que as precede, apesar de todo o sangue e destruição que funda o nosso país, uma história de luta de quem vem resistindo há mais de quinhentos anos, nesta longa noite dos quinhentos anos. Assim, o livro nos conta, em primeiro lugar, essa narrativa. 

Mas de que História se trata? Volto ao título: Originárias, que remete à origem, a povos que já estavam aqui antes da chegada dos europeus, a uma ancestralidade que se recusa a desaparecer, que pisa forte na terra por onde caminha, se faz peixe, pedra, montanha, marcando o caminho nas palavras que não cessam de se dizer.


Ilustração de Mauricio Negro [Divulgação]

Originárias, essa palavra que nos lembra ou deveria lembrar o que é este país, o que havia no Brasil antes do Brasil, território indígena, Abya Yala. Então, trata-se de uma antologia que já começa assim, dizendo a que veio. Trudruá Dorrico, no prefácio, as apresenta: “Elas são originárias porque representam a continuidade dos primeiros povos que pisaram esse nosso chão”. Continuidade, aquilo que insiste, que não se extingue, porque retomada é também retomada da palavra.

Mas, novamente, de que História se trata? O livro, após cada conto, nos oferece um breve glossário e algumas informações importantes sobre a etnia em questão. Minha atenção se fixa nos números oficiais da população indígena: 2.527 do povo tabajara, 6.000 Iny karajá, 21.362 habitantes macuxi, 45.620 Kaingang. Esses números tão reduzidos também contam uma história, a de um genocídio. 

As autoras sabem que é possível reescrever o passado e reorganizar o futuro, permitindo outros futuros

Por outro lado, sabemos que a população indígena é muito maior, e está aumentando porque aumenta o número de pessoas que se reconhece dessa maneira. A história não é algo estático. Elas sabem, as escritoras desta antologia, que é possível reescrever o passado e reorganizar o futuro, permitindo o surgimento de outros futuros, antes impossíveis. Para que a cultura indígena deixe de ser folclore, lenda morta, mito exótico, e se torne em todos os sentidos parte da realidade que constitui e pensa o país.

Novas formas de ler

Nos diz Glicéria Tupinambá: “Partilho aqui a memória do meu povo, da cultura tupinambá, que acredita que montanhas e serras são as moradas dos encantados”. E talvez seja essa a maior força desta antologia, a capacidade de reescrever o mundo. Para isso, precisamos inventar novas formas de ler, essa é a nossa tarefa enquanto público leitor (de qualquer idade). E fecho com as palavras de Márcia Mura:

Partilho tudo isso para evidenciar que não temos lendas. Temos nosso próprio modo de compreender, narrar e interpretar o mundo, do qual os encantados participam e que, apesar da colonização, é configurado antes pela percepção indígena ancestral. Os encantados estão entre nós!

Sim, os encantados estão entre nós.

Quem escreveu esse texto

Carola Saavedra

Escritora e tradutora brasileira nascida no Chile, autora de Com armas sonolentas: Um romance de formação (2018) O manto da noite (2022), publicados pela Companhia das Letras.

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.