Literatura infantojuvenil,

Parece impossível

Autora e ilustradora portuguesa conta, com ajuda de partículas coloridas e com olhos, a origem da vida na Terra

01jan2021 - 01h00 | Edição #41 jan.2021

Parece mesmo impossível. O papel desta revista, o cristal da tela, a luz que emana, a pele que toca, a água que permeia, os micróbios que flutuam, o ar, o céu, o gosto na boca, tudo que se imagina (e o que não se pode imaginar) veio do mesmo lugar e um dia coube no ínfimo espaço de um ponto. Um ponto onde cabiam todas as coisas, tão apertadas e tão quentes, que se expandiram muito rápido na maior explosão de todos os tempos, conhecida como Big Bang, e que, bilhões de anos depois, daria origem ao que somos hoje.

Essa é uma história de tudo, de um começo dos começos, de um “mistério dos mistérios” [sobre isso, recomendo ouvir o Vinte Mil Léguas, podcast da Quatro Cinco Um] e é também a história que nos conta a artista portuguesa Catarina Sobral em Impossível, seu primeiro livro informativo. Mas este não é um livro infantil de ciências tradicional. Você não vai encontrar gráficos e tabelas, informação hierarquizada, definições rigorosas de conceitos universais nem explicações exaustivas. Ao contrário, a autora, tantas vezes premiada por seus livros ilustrados cheios de humor, cores e traços fortes, experimentou contar essa história à sua maneira, a partir do encantamento, que sentimos ser genuíno e profundo, por uma ideia essencial que percorre toda a narrativa: somos feitos da mesma matéria que as estrelas.

Peça de teatro

O livro nasceu do desejo da artista de contar para as crianças o fantástico dessa saga, que ela conheceu em maiores detalhes no livro Astrofísica para apressados, do cientista e divulgador estadunidense Neil deGrasse Tyson. Mas demorou um pouco: primeiro, ela criou uma peça de teatro de animação, em que uma atriz contracenava com desenhos que Catarina animava e projetava ao vivo no palco, e só então veio o livro. Em uma entrevista publicada no Caderno 4 da Revista Emília, a autora me contou que um dos maiores desafios foi a transposição dos conceitos abstratos da astrofísica para as brincadeiras no palco e, depois, para o plano colorido e silencioso do papel. 

Assim, foram criados uma narradora e um narrador que nos contam sobre o início de tudo com a ajuda de convidadas ilustres, as partículas —coloridas e com olhos! —, que não falam, mas brilham em cena. Em diálogo, a menina e o menino descrevem, de um jeito simples e bem-humorado, da explosão inicial até o surgimento da vida na Terra, passando por galáxias, supercontinentes, dinossauros, tardígrados e distâncias gigantescas no espaço e no tempo. E para ajudar nas explicações, alguns recursos normalmente usados para apresentar conteúdos científicos são reinterpretados pela autora: “Tentei usar metáforas, como as linhas do tempo, o calendário cósmico do Carl Sagan, ou a árvore genealógica, o conceito de pó de estrelas, a ideia do crocodilo como medida de um segundo”.  Este último é o meu favorito: quer saber quanto tempo dura um segundo? É só dizer a palavra crocodilo.

Uma ideia percorre a narrativa: somos feitos da mesma matéria que as estrelas

Talvez muitas de nós, adultas, não estejamos familiarizadas com a ideia do pó de estrelas e a vastidão em que ela nos coloca (ou pode ser que estejamos apenas esquecidas), mas acredito que as crianças vivem essa imensidão e sentem uma curiosidade profunda pelo assunto — que o digam os muitos livros infantis por aí sobre Big Bang, planetas e evolução, e as muitas obras de arte, canções, filmes que contam ou ressoam esses temas fundantes. Para citar um, o cineasta alemão Werner Herzog acaba de lançar o documentário Fireball — Visitors from Darker Worlds, que trata justamente de meteoros e das relações de significado que estabelecemos com esses fragmentos de matéria que podem conter as partículas mais antigas do universo.

Ao falar sobre seus filmes, Herzog menciona a busca pelo que chama de uma “verdade extática”: um vislumbre, um devaneio, um assombro perante as coisas do mundo, algo que o mero fato não revela por si só e que precisa das linguagens e da arte para se mostrar. Sinto a Catarina Sobral perseguindo o mesmo em Impossível: “Basicamente foi essa, e apenas essa, a história que contei. De toda a história da evolução do universo, é sobretudo essa que eu estou contando no livro.” Agora é com as leitoras e leitores, que tragam suas ferramentas para cavar esta história na companhia das partículas com olhos.

Quem escreveu esse texto

Ana Paula Campos

Designer, é autora de Inventório, mestrado pela fau-uspsobre design e livros informativos para crianças.

Matéria publicada na edição impressa #41 jan.2021 em dezembro de 2020.