Literatura infantojuvenil,

O elefante e a monstra

Poemas de Drummond e Hilda Hilst ganham versões lustradas para crianças

26abr2021 - 19h41 | Edição #45

Duas apostas da Companhia das Letrinhas lançam ao público infantil obras de poetas pilares da nossa lírica. Eu sou a Monstra é o primeiro e único livro que Hilda Hilst (1930-2004) escreveu para crianças — ou, como ela dizia, “crionças”. De Carlos Drummond de Andrade (1902-87), O elefante, agora em álbum ilustrado, é originalmente o poema número trinta do célebre A rosa do povo (1945).

Um elefante e uma monstra. Dois personagens que projetam modos tão diferentes de olhar o mundo e fazer poesia. Diferentes, mas inconformistas: falam-nos da necessidade de nos reinventarmos e do sentimento de desencaixe no mundo. Onde Drummond lamenta, sério e melancólico, Hilda dá risada. 

Apesar do desacordo de idades (quase trinta anos os separam), Hilda e Drummond se conheciam e se admiravam. Quando o mineiro lhe enviou um poema por carta — o último verso: “o beijo é na boca e junto” —, ele tinha cinquenta anos. Ela, 22. Nada parecida com a mulher que puxaria os cabelos para trás, enrugaria a fronte e se exilaria em uma chácara nos arredores da então provinciana Campinas.

Lirismo em grande porte

Elefante total, em volta e abundante, com o cansaço que ameaça tornar a cauda farrapo. É paina, cidade, noite. Longo poema de quem caminha e não é visto. Como não o perceber? A tromba abre-alas carrega todo o peso da Rosa, da Segunda Guerra Mundial, de um Brasil com pressa de capitalismo. 

Saímos do lirismo e do tom melancólico de ‘O elefante’ para entrar em ‘Eu sou a Monstra’, que ri e fala alto

Mas nem tudo é ferida e solidão. Somos nós a companhia do elefante. Nós somos a criança que segura o lápis na última página do livro, onde a ilustradora argentina Raquel Cané dá espaço a esse leitor em estreia. O elefante, então, extrapola a metalinguagem: torna-se um estar no mundo das descobertas, da amizade rara que sabe juntar animais, vento e troncos. 

Ilustração de Ixchel Estrada

Em que pesem toda a beleza visual e a delicadeza das formas, o livro apega-se demais ao simétrico e à repetição. Os versos ficam nas páginas ímpares, com cores de fundo que acentuam os desenhos das páginas pares. Sempre um elefante, sempre de perfil. A brincadeira consiste em criar cada silhueta do animal a partir de imagens distintas: bússolas, pirulitos, guarda-chuvas. 

Lá vai esse bicho insubordinado que não chega a se desfazer; quer manter-se a todo custo figura e sentido. Em parte, é o que se espera da poesia. Até que, “exausto de pesquisa, caiu-lhe o vasto engenho”. Não tem problema: “Amanhã recomeço”. 

Collage e rosa-choque

Saímos do lirismo, das nuances na paleta de cores e do tom melancólico para entrar em um livro que ri e fala em voz alta. Para Hilda, incompreendida pelo público e ignorada pelo mercado editorial, o riso de “monstra” tornou-se uma posição de combate. Hilda explosiva, Hilda rosa-choque, Hilda de todas as rimas e amores imperfeitos. Aqui, eis Hilda a juntar “sucata” e “astronauta”. 

A collage, os estampados e os desenhos da artista mexicana Ixchel Estrada nos lançam em um universo surrealista e dão sobrevida ao poema. As cores não se comportam e borram páginas vizinhas. Figuras picassianas circulam, levitam, dissociam-se. Ora, acaso existem monstros certinhos? É a terceira impressão em livro do poema, agora pensado para o público infantil. Ele havia aparecido como um anexo quase ilegível dentro da obra completa de Hilda, da Companhia das Letras; depois, em 2018, em edição artesanal da Quelônio, com os desenhos da própria poeta impressos em tipografia.

Eu sou a Monstra foi escrito em um papel avulso para a única “crionça” que conviveu com Hilda: Daniel Fuentes, filho do jornalista espanhol Jose Luis Mora Fuentes, amigo de longa data da escritora e com quem conviveu na Casa do Sol. Após a morte de ambos, Daniel se tornaria o grande responsável pela projeção internacional da obra hilstiana (sobretudo com traduções para o inglês, língua para a qual Hilda sempre torceu o nariz).

A monstra de Hilda não se disfarça. É o que quer ser. Corvo, lombriga, roseira. Liberdade extraordinária da poesia, de poeta, de mulher sem concessões. Bajula os dedos. Dedos? “Os dedos seguram canetas”. Lá vai a monstra. 

E o que seria da Monstra 
Se não fosse poeta 
Para brincar de medo 
De magia, de loucura 
E de dedo. 

Para o leitor adulto de Hilda, é impossível não esticar de leve o lábio em um sorriso pouco óbvio.

Este texto foi feito com o apoio do Itaú Social.

Quem escreveu esse texto

Marana Borges

Prepara o lançamento de seu romance Mobiliário para uma fuga em março pela Dublinense.

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.