Literatura em língua francesa,

O intérprete dos mitos

A obra máxima de Lévi-Strauss oferece o esquema de compreensão da experiência humana no que ela tem de mais profundo e necessário

01abr2021 - 00h00 | Edição #44

Grandes livros nem sempre são reconhecidos enquanto tais. Em 1964, quando O cru e o cozido foi publicado, Lévi-Strauss era tido pelos colegas como um dos grandes antropólogos do século. O pensamento selvagem (1962) rendera-lhe a consideração dos filósofos, dos fenomenólogos aos estruturalistas. Mas ninguém poderia prever que O cru e o cozido viria a formar parte de uma série maior, as Mitológicas, a obra máxima de Lévi-Strauss. Contudo, no momento de sua publicação, podiam ser vistas como algo diferente, a execução prática de um programa que não é bem antropológico (digamos, “linguístico-estrutural”) de análise dos mitos, à maneira dos estudos de Georges Dumézil e Émile Benveniste sobre religiões e línguas indo-europeias ou dos de Jean-Pierre Vernant e Marcel Detienne sobre a Grécia Antiga. Instalando-se na companhia desses colegas, Lévi-Strauss aplica com virtuosismo um método de pesquisa bem francês, que alia com êxito assombroso o rigor teórico e a profundidade conceitual à perícia analítica.

Em vista disso, não admira que Edmund Leach não inclua as Mitológicas no rol de obras de Lévi-Strauss dignas de menção, exceto pela “abertura de O cru e o cozido”. Como entender que Leach, autor de uma introdução às ideias de Lévi-Strauss, não veja a armação das Mitológicas e não reconheça a continuidade entre esse projeto e o programa de pesquisa delineado em O pensamento selvagem? É que, a partir de 1964, o acerto de contas de Lévi-
-Strauss com a antropologia se inflete na escolha por um novo caminho, que deixa a antiga disciplina para trás e busca uma forma inédita de saber, que tem mais afinidade com o dos mitologistas de Paris do que com o de Radcliffe-Brown ou Evans-Pritchard.

Partindo da asserção central de O pensamento selvagem segundo a qual uma mesma lógica governa por toda parte as representações e instituições humanas, nas Mitológicas Lévi-Strauss leva esse princípio às últimas consequências, encontrando, nos mitos, a expressão de um sistema que é no fundo a expressão simbólica da organização neuronal do cérebro humano. Portanto, o que temos em O cru e o cozido é uma nova antropologia, que prosperou no solo fértil da pesquisa sobre os ameríndios. O próprio Lévi-Strauss teria dito algo no sentido de que seus melhores discípulos não foram franceses, mas brasileiros, e podemos pensar aqui em Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro.

Esses desdobramentos tão fecundos não surpreendem diante da envergadura da reflexão de O pensamento selvagem e O cru e o cozido. Menos notada é a estratégia de Lévi-Strauss para se afastar da antiga disciplina e inaugurar a nova. Para entender esse ponto, temos de voltar a 1962: numa conferência dedicada a “Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências do homem”, o autor declara guerra a certa filosofia de extração cartesiana, dualista, que separa o homem da natureza e concede a ele um privilégio ontológico que não lhe cabe. Em O totemismo hoje, o mesmo Rousseau retorna, ao lado de Bergson, chamando nossa atenção para as relações entre organização social e hierarquização natural. Por fim, em O pensamento selvagem, a antropologia estrutural abate Sartre, culpado por culto indevido à “história”. Lévi-Strauss se distanciava assim não só dos cânones da antropologia da época, mas também da herança filosófica na qual havia se formado.

O que vemos na apresentação de O cru e o cozido é o resultado dessa demarcação de território, de um domínio que Lévi-Strauss reclama para si junto à filosofia, e que, uma vez conquistado, será governado por uma nova legislação, a da antropologia estrutural como ciência dos mitos.

Filosofia em nova roupagem

Não nos enganemos: é uma situação agonística, de disputa aberta, pois a antropologia estrutural é tão filosófica que vale mais que muitas doutrinas em roupagens mais tradicionais. Tudo isso pode sugerir ao leitor incauto que se trata de uma obra difícil. De fato, seria ridículo pretender que O cru e o cozido seja um livro acessível. Mas nem por ser difícil ele é árido. Isso vale para o original francês, redigido naquele estilo elevado que lhe rendeu um assento na Académie Française, e também para a tradução para o português de Beatriz Perrone-Moisés, que maneja com igual elegância e precisão a língua francesa e o nosso idioma.

O cru e o cozido pode ser lido como um livro autônomo. Apesar de se abrir para os tomos posteriores da série, sua conclusão se sustenta por si mesma. Por onde começar? Pelo prefácio da tradutora, que decifra para o leitor o objetivo da obra e o prepara para a esplêndida “abertura”. Perrone-Moisés mostra que a tarefa de traduzir as Mitológicas é indissociável do pressuposto mais caro à obra: mostrar que “a grande sintaxe” do “espírito humano” é feita de “regras estruturantes que estão aquém e além das línguas” que a exprimem. Tudo se passa como se os mitos, situados em suspensão entre a experiência concreta e a lógica das relações arraigada na mente, oferecessem a chave para a determinação de um sistema de relações que, não fosse por eles, permaneceria inaudito. Em suma, as Mitológicas oferecem nada menos que o esquema de compreensão da experiência humana no que ela tem de mais invariável e necessário.

O mito reconta uma história que não é bem humana, mas que se torna a história dessa espécie

Nessa “viagem pela terra redonda da mitologia”, Lévi-Strauss parte de “reflexões da matéria do mundo em que vivem os humanos, nas categorias empíricas que abrem O cru e o cozido” e chega “ao nada, poeira silenciosa de estrelas a que somos lançados no final de O homem nu”. Com olhar distanciado e profunda empatia, ele acompanha os “humanos”, quase como se não fosse um deles, à medida que vão se aproximando de um mundo que a qualquer momento deixará de ser o seu. Os mitos que constituem essa trajetória ensinam uma lição preciosa, ainda mais numa época como a nossa, em que a extinção de espécies e de populações se encontra na ordem do dia.

Lévi-Strauss explica que, no intuito de demonstrar “a existência de uma lógica das qualidades sensíveis, que elucide seus procedimentos e manifeste suas leis”, pareceu-lhe interessante tomar como “fio condutor um mito dos índios Bororo do Brasil”, que serve como “mito de referência” no qual se encontra como que condensada “a transformação mais ou menos elaborada de outros mitos”. Prepara-nos assim para as vertiginosas páginas seguintes, nas quais se desenhará uma morfologia dos mitos com suas relações de isomorfismo. Investigação em espiral que, se não esgota os mitos de uma população, oferece os princípios universais de sua inteligibilidade.

Para Lévi-Strauss, essa sistematização da experiência é perpassada por uma tensão: “O pensamento mítico só aceita a natureza com a condição de poder repeti-la. Ao mesmo tempo, ele se restringe a conservar dela apenas as propriedades formais graças às quais a natureza pode significar a si mesma e que, por conseguinte, têm vocação de metáfora”. Desde os primórdios da antropologia, o pensamento mítico fez figura de produto passivo que acomoda de maneira  imperfeita imposições que lhe são feitas pela “realidade”. Lévi-Strauss sabe que nada é tão simples e oferece em O cru e o cozido uma genealogia das figuras conceituais inventariadas em O pensamento selvagem. Com uma diferença importante. Agora, é o próprio pensamento mítico que interpreta a natureza, submete-a a uma grade a um só tempo alheia a ela e em profunda afinidade com seus procedimentos. Reconta, de modo próprio, uma história que não é bem humana, mas que, nessa nova narrativa, se torna a história dessa espécie. Precavendo-se contra a força destruidora das circunstâncias, o mito se encerra a si mesmo numa armadura conceitual que o antropólogo traja confortavelmente.

Esse saber inédito, que se apresenta em roupagem transcendental, versa mais sobre as condições de possibilidade dos fenômenos do que sobre a forma particular deles, cuja compreensão, se tomada em sua pura contingência, ameaçaria mergulhar o estudioso numa zona de indeterminação da qual não há nem pode haver saída possível. A especulação antropológica desenha, através dos mitos que falam através dela e que lhe dão voz, o espaço de sua própria “nebulosa” e reconhece sua afinidade profunda com o objeto que lhe interessa e do qual é indissociável: “Assim, este livro sobre os mitos é, a seu modo, um mito. Supondo-se que possua uma unidade, esta só aparecerá aquém e além do texto. Na melhor das hipóteses, será estabelecida no espírito do leitor.”

Este texto foi feito com o apoio da Embaixada da França.

Quem escreveu esse texto

Pedro Paulo Pimenta

É autor de A trama da natureza: organismo e finalidade na época da Ilustração (Editora Unesp).

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.