Literatura em língua francesa,

Estar ao lado dos mortos

Autor senegalês cria romance fragmentário para mostrar os destinos individuais do genocídio de Ruanda

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

“Depois de uma história como aquela, seja como for, todo mundo está um pouco morto.” É o que conclui o professor de história Cornelius Uvimana, que retorna à sua Ruanda natal em 1998, depois de 25 anos vivendo no exílio, quatro anos após o genocídio perpetrado em 1994. Com o intuito de montar uma peça de teatro sobre os massacres ocorridos na cidade de Murambi (onde morreram entre 40 mil e 50 mil tutsis que estavam refugiados na Escola Técnica e cujos corpos foram enterrados em valas comuns sobre as quais foi construída uma quadra para que tropas francesas pudessem jogar vôlei), ele acredita que toda a sua família está morta, com exceção de seu tio, o respeitado Siméon. Filho de pai hutu e mãe tutsi, Cornelius descobre segredos devastadores sobre seu pai.

A trajetória do protagonista reflete o caminho de Boubacar Boris Diop, autor senegalês que viajou para Ruanda em 1998, junto com outros escritores africanos de língua francesa, a convite do Fest’Africa — festival de literatura e artes da África e da diáspora negra criado em 1992, na França — para realizar a residência “Ruanda: escrever por dever de memória”. Desconhecendo as complexidades que levaram ao genocídio que matou 800 mil pessoas entre abril e julho de 1994, Diop foi desconstruindo a ideia de que os massacres ocorreram a partir de “conflitos étnicos” entre hutus e tutsis, como divulgado pela imprensa internacional, ao conversar diretamente com sobreviventes dos massacres, assim como com seus carrascos. Por meio desses relatos individuais, o autor criou o romance Murambi: o livro das ossadas, publicado originalmente em 2000 e considerado um dos melhores livros africanos do século 20 em votação promovida pela Feira Internacional do Livro do Zimbábue. Murambi é o seu primeiro livro traduzido no Brasil, que chega agora pela editora Carambaia.

Diop é um dos escritores mais respeitados do continente africano, tendo recebido em 2000 o Grande Prêmio Literário da África Negra pelo conjunto da obra e sendo conhecido por seu ativismo político em defesa da descolonização não só política, mas intelectual. Tanto que, além de escrever em francês, passou a publicar romances em wolof, um dos idiomas locais do Senegal, como Doomi Golo (2016) e Bàmmeelu Kocc Barma (2017).

Apesar de o fio condutor ser a história do retorno de Cornelius a Ruanda, para tentar compreender o que aconteceu em seu país, o romance é formado por várias vozes, divididas em capítulos com os nomes dos personagens. É a partir desses relatos individuais que conseguimos ter uma visão mais ampla do genocídio, cujas raízes estão nas colonizações alemã e belga, que deram proeminência aos tutsis como governantes em detrimento do resto da população, formada por hutus e tuás, e depois na interferência francesa, que ficou ao lado dos hutus desde a declaração da República em 1959, quando a monarquia tutsi foi derrubada. Desde então, os tutsis se tornaram alvo de massacres pela maioria hutu, que culminaram com o genocídio em 1994, após a morte do presidente Juvénal Habyarimana em um acidente de avião. 

O autor não poupa críticas ao papel da França no último genocídio do século 20

No texto do posfácio, o autor explica que escolheu a estrutura fragmentária do romance para mostrar os vários destinos individuais durante o genocídio. Desde Jessica — espiã da Frente Patriótica de Ruanda (FPR), grupo armado tutsi organizado no exílio e que foi responsável por dar um fim ao genocídio —, passando por Faustin Gasana — um dos integrantes da Interahamwe, a milícia hutu que assassinava tutsis e hutus “traidores” a golpes de facões e machados. E chegando ao coronel Étienne Perrin, militar francês cuja missão é evacuar os perpetuadores hutus dos massacres como parte da Operação Turquesa, organizada pelo governo francês, verdadeiro cúmplice no genocídio. Os relatos mostram as várias facetas não só do extermínio, mas também dos anos seguintes ao massacre, em que vítimas e carrascos podiam continuar a ser vizinhos ou se cruzar nas ruas. 

O governo da FPR tenta, desde então, construir uma nação que seja apenas “ruandesa”, onde não existam mais hutus, tutsis e tuás. 

Na presidência desde março de 2000, Paul Kagame, um dos líderes da FPR que interromperam os massacres, tem conseguido manter a paz dentro do país desde então e levado Ruanda a se tornar uma das economias que mais crescem no continente africano, tendo sido apelidada de “Cingapura da África”. No entanto, seu governo é alvo de denúncias contra os direitos humanos por prender e assassinar opositores políticos e até pelo não reconhecimento oficial da morte de tuás no genocídio. Sua política externa também é bastante criticada, por ser considerada intervencionista e responsável pela perpetuação de conflitos e massacres em países vizinhos, como a República Democrática do Congo e o Burundi. Kagame vem ainda se aproximando cada vez mais de países anglo-saxões enquanto se afasta da esfera de influência francesa.

Monstros

Diop não poupa críticas ao papel da França no último genocídio do século 20. O autor destaca no posfácio a “negrofobia” da classe política e da imprensa internacional e como o racismo continua a ser a política colonial francesa, exemplificada na fala do então presidente francês François Mitterand em 1994 (“Naquele país um genocídio não é muito importante”). Em maio deste ano, em visita a Ruanda, o presidente francês Emmanuel Macron rejeitou qualquer tipo de culpa ou cumplicidade francesa no genocídio, mas admitiu que a França tem “uma dívida” em relação às vítimas. 

Como Cornelius e Diop, que não testemunharam diretamente os crimes, o leitor não tem acesso às atrocidades, que são narradas por pessoas que realmente viveram o horror na pele. Uma das cenas mais marcantes é o relato de como Gérard, que acompanha Cornelius nas visitas que faz à Escola Técnica (onde até hoje estão expostas as ossadas das vítimas), conseguiu sobreviver ao massacre de Murambi. O dever da memória é, portanto, “opor um projeto de vida ao projeto de aniquilamento dos genocidas, e o romancista tem o que dizer a respeito”, como escreve Diop no posfácio. É o que também descobre Cornelius no fim do livro: “Todo cronista pode pelo menos aprender  coisa essencial à arte — a chamar os monstros por seu nome”, e, por isso, escolhe estar ao lado dos mortos.

Este texto foi realizado com o apoio da Embaixada da França no Brasil.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.