Literatura brasileira,

Uma casa muito engraçada

No novo romance de Natércia Pontes, um apartamento sujo e caótico abriga um pai acumulador e suas duas filhas

01abr2021 - 00h00 | Edição #44

O título Os tais caquinhos é parte da canção “Pra começar”, escrita por Antônio Cícero e interpretada pela coautora, Marina Lima. É com versos dessa música que Natércia Pontes, autora de Copacabana dreams (Cosac Naify, 2012), abre e fecha o seu novo romance, uma estranha história sobre as descobertas da adolescência, os escapes do sofrimento e uma pouco ortodoxa cumplicidade familiar. 

Com os versos de Cícero, a obra remete às fissuras nas atribuições dos papéis da configuração familiar tradicional: os pais como cuidadores responsáveis e os filhos ganhando proteção como recompensa por não serem ainda senhores das próprias decisões. Na narrativa da escritora cearense, o velho mundo reduzido a caquinhos cria uma dinâmica em que a autoridade e a tutela se esfacelam, e a consequência é uma desorientação generalizada. 

Logo nas primeiras páginas, o acúmulo salta aos olhos. O cenário principal, habitado por Lúcio e suas duas filhas, Berta e Abigail, a narradora, é um lugar caótico. O apartamento 402 é tomado por objetos desvirtuados das funções originais, coisas que não cheiram como deveriam cheirar e não estão onde foram pensadas convencionalmente para estar. O insólito acervo de bagunça e sujeira, paradoxalmente, compõe as metódicas manias do pai, que suplica à filha que não jogue as coisas fora, porque nelas ele diz guardar a vida inteira. 

“Tudo arrumado de uma maneira tortuosa, à deriva, embora seguisse uma linha quase harmônica, um caminho de formiga”, é como a narradora apresenta o ambiente infestado de baratas onde mora, mas também poderia sinalizar um traço de estilo do romance. Com blocos de texto sem parágrafo, iniciados sempre por inusitados títulos, e o uso sistemático da conjunção “e”, o enredo e a forma do texto se encontram nessa estética do amontoamento, a obsessiva conservação das coisas que formam uma vida. 

Alguns trechos fazem pensar que nem sempre a dinâmica do 402 foi tão desordenada. Antes de serem só os três, a esposa de Lúcio e duas irmãs menores da narradora habitaram aquele espaço. A referência apressada e repetitiva à partida da mulher com as duas crianças leva a crer que o excesso de bagunça e as manias do pai também fazem parte de uma manifestação torta de dor. 

Nesse livro aflitivo ainda há espaço para o riso, pelo modo como a narradora encara a vida

Refugiado em seus hábitos estranhos e estimulando o pensamento livre das filhas adolescentes, Lúcio se ausenta da gestão da vida das meninas. Resta a elas, então, usar roupas puídas, inventar iguarias culinárias que consistem apenas em água congelada e descobrir, sem muitos anteparos de proteção, o mundo que existe para além das paredes imundas do 402. Berta habilmente consegue um pouco de conforto e refeições adequadas na família postiça que arranja na casa de uma amiga da escola. Já a solitária Abigail fantasia o amor como salvação, lançando-se sem freios aos rapazes e à bebida — uma anestesia para “a sensação permanente de declínio, desamparo e morte”.

É uma autonomia precoce: sem muitos recursos, o encontro de Abigail com o mundo é cheio de brutalidade. A ausência de rotina sendo a regra e a presença excessiva de insalubridade provocam alguns calafrios de agonia ao longo da leitura. Entretanto, a vivacidade da protagonista e o humor que ela é capaz de investir no relato de seus dias fazem, por vezes, parecer um pouco supérfluo o apego às normas de assepsia e à ordem mais convencional. 

Silenciosa fidelidade

A omissão do pai indigna a narradora, mas é apresentada com complacência e não impossibilita a existência de um delicado vínculo entre os três. Em meio aos tropeços de Abigail, aos conflitos com a irmã e às esquisitices de Lúcio, surgem comentários breves e precisos sobre a sensação ímpar que é o pertencimento tácito, dispensando afirmações vistosas e eloquentes declarações: “Um sentimento bruto de família, uma cumplicidade gelatinosa que nos protegia como uma placenta. Estávamos juntos. Éramos juntos”. É silencioso e palpável, como o gesto da filha que assiste ao pai dormir para conferir que ele está respirando normalmente. 

O decorrer da narrativa tensiona a excentricidade dessa família com um desleixo que vai se aproximando da desmesura. Alguns eventos imprevistos colocam em xeque as defesas contra a insatisfação que vinham mais ou menos funcionando até então: as manias de Lúcio, as bebedeiras e os muitos parceiros sexuais de Abigail, o exílio de Berta numa família convencional. Acontecimentos que convocam as personagens ao cuidado, mas não um tipo burocratizado com aroma de lavanda. Longe de normatizar a estranheza dessas pessoas, é uma forma de zelo que gera um comprometimento capaz de fazer frente ao abandono provocado pela dor. 

Fragmentário como os caquinhos do título, o romance comporta uma verossimilhança humana, por representar cruamente os subterfúgios exigidos eventualmente pelas invertidas da vida, como Abigail, que dorme e sonha quando a existência fica áspera demais, ou Lúcio, que acumula — como se não descartar fosse um contraponto ao vazio. Na confecção desse romance aflitivo ainda há espaço para o riso, provocado pelo modo como a narradora encara a vida e escolhe as palavras para descrever o cenário congestionado: “Dentes de alho brotando na geladeira não são tão asquerosos quanto parecem, podem muito bem ser interpretados como a manifestação do emocionante mistério da continuidade da vida mesmo sob circunstâncias adversas”.

A canção “Pra começar” também conta com os seguintes versos: “Se tudo caiu/ Que tudo caia/ Pois tudo raia”. É um movimento análogo ao de Os tais caquinhos, levantar e recompor coisas quebradas, mesmo com rachaduras, até porque às vezes nem existe outra opção. E se a radicalidade do encontro com o sofrimento no amadurecimento tem peso anacrônico, um romance sobre a teimosia da vitalidade, em dias como os atuais, é particularmente bem-vindo.

Este texto foi feito com o apoio do Itaú Cultural.                          

Quem escreveu esse texto

Iara Machado Pinheiro

É crítica literária, doutoranda em letras pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.