A poeta, escritora e jornalista baiana Calila das Mercês (Renato Parada/Divulgação)

Literatura brasileira,

Tecido de movências

Calila das Mercês reinventa a linguagem em Nódoa, parte de um projeto estético que se materializa com base em movimentos e deslocamentos

14out2026

Se o esperado é que um livro se inicie pelo começo, a parte que abre Nódoa se intitula “meio” — e isso diz muito não apenas sobre o romance em particular, mas sobre a própria escrita de Calila das Mercês. Para se chegar ao meio, afinal, é preciso ter partido de algum lugar e, além disso, ter se deslocado até um outro espaço. E aqui está o que me parece fundamental: a compreensão de que é intrínseca ao projeto estético da autora a noção de movimento.

Uma leitura atenta de Planta oração (Nós, 2022), seu livro anterior, de poemas-contos, já o demonstrava, ao menos para quem se atentasse aos deslocamentos da palavra no território-floresta, determinantes dos trânsitos narrativos e das experimentações poético-morfológicas. Nesse sentido, se há uma continuidade perceptível entre os dois títulos, diz respeito tanto às vidas e aos espaços que Mercês traz para o texto — distantes do capital e das capitais — como aos recursos formais mobilizados para cumprir essa tarefa.

Livro de mulheres, livro sobre mulheres, Nódoa é tecido de movências: geográficas (desde Cajueiro), geracionais (desde os anos 1960), movências entre a vida e a morte (verdadeira ou não). Enquanto escrevo, percebo que procuro menos dizer algo sobre a obra (quero dizer: tecer ajuizamentos críticos ou algo que o valha) do que acompanhar os seus movimentos, sem ceder à tentação de capturá-los. Porque o que ali sempre permanece inapreensível, embora de nenhum modo esteja oculto — o que atravessa a narrativa, pois todo o tempo a amarra —, é a ideia de “nó”, contida em “nódoa”.

Ainda que, no arranjo do romance, o nó não apareça desde o início (como disse, o ponto de partida é o meio), é com um nó que se principia a parte designada “começo”. Um nó perto do nariz, feito em uma mortalha, propicia uma suposta ressurreição:

Ainda estou besta que quase fui enterrada viva. Se não fosse o nó numa hora daquela, onde eu estaria?

Há muitos nós, entretanto, em Nódoa; ou, para dizer de outro modo, talvez tudo na narrativa seja feito de nós — e todas as vidas sejam nós.

A autora escreve sobre corpos e subjetividades que lutam pelo direito de desejar e de existir

Lurdinha, uma das principais vozes narradoras, afirma, resgatando sua relação com o pai: “Eu era o nó dele com mamãe. Eu era o nó dele com todo mundo”. Não obstante, isso poderia ser dito sobre todos os personagens. Outra voz narradora, Regina, recorda o aprendizado dos nós (“Nó pra juntar qualquer coisa era o d’água, o de pescador, nó direito e nó de boca de saco, pra nenhum bicho comer na saca de açúcar e de milho…”), para afinal concluir:

Mas o nó que me salvou mesmo foi Dona América que ensinou toda a gente lá de casa fazer, não tinha nome, não, era até fácil, parecia com nosso povo do tanto que era simples, um nó-nó, sabe?

E nas palavras de Lurdinha encontramos uma expressão crucial para o entendimento da obra:

A história é sobre o nó que tem no nosso mundo, o nó do ar e do mundo todo.

Assim se confirma a suspeita: Nódoa trata do nó que é um mundo, ainda que não visível a todos. Um mundo que ao mesmo tempo é tudo aquilo que nessas palavras se oculta, porque Nódoa é nó do ar, é dó, é dor, é doar.

Reduzir a proposta estética a um mero jogo de palavras, entretanto, implica recair em um equívoco fundamental. Primordialmente, porque Mercês escreve sobre vidas concretas, sobre corpos e subjetividades que lutam pelo direito de desejar e existir. A “ressurreição” da mulher “morta”, nesse sentido, pode ser pensada como uma alegoria: quantas pessoas são dadas como mortas, todos os dias, meramente porque sua existência é considerada desimportante? Pessoas que, ainda assim, continuam a existir, por teimosia? Quanto de violência há no gesto de nomear arbitrariamente alguém cuja história é ignorada, apenas porque um nome qualquer é mais conveniente do que um número (e o que significa, por outro lado, recusar essa nomeação imposta e reafirmar a própria origem)?

O que Calila das Mercês faz não é, afinal, um jogo de palavras; é uma elaborada reinvenção da linguagem, dimensão essencial de um projeto estético que se materializa a partir de incessantes movimentos e deslocamentos. Desse modo, a própria noção de nódoa ganha sentido no território textual em que se increve. Se eventualmente isso ocorre de forma explícita — “a nódoa do corpo que fica por dentro”; “a nódoa de caju que trai os gemidos” —, perpassa toda a narrativa, amarrando as existências que nela se abrigam.

Enodoados são os corpos que se enlaçam na dissidência; os que partem pelo mundo e partilham palavras. E é disso, da nódoa que singulariza cada vida, que a autora extrai o substrato de sua escrita. (Nódoa, noda, nódia? Como grafar vidas se desviam?).

Regresso

Às pessoas que tentaram sair e retornar para casa. Às que nunca puderam retornar para casa. Às que acreditam que a casa é onde se está. Às que retornam para casa todos os dias. Às que retornaram, mas nunca chegaram.

Se desde a dedicatória Nódoa evoca o anseio pelo regresso, que, metaforicamente ou não, marca a trajetória das mulheres presentes em suas páginas, é possível pensar em como, na literatura de Mercês, a palavra opera como uma espécie de morada. Quando tudo é movência, trânsito e impermanência, o que fica? Penso no que persiste: na imagem do “caderno mundinha”, que ela nos oferta em fragmentos. “MAR = SONHO”, lemos nas anotações de maio de 1960; “UM DIA CAJUEIRO VAI SABER DE TUDO DO NOSSO MUNDO”, lemos no registro do verão de 1966.

Nem todas as pessoas retornam — do mar tão cheio de vazios; da morte, falsa ou real —, mas persistem as letras. A partir delas, é possível recriar o alfabeto e fabular as histórias. Se Mundinha escreveu que “vida é lida”, a autora sabe que escrita é lida. Graças às letras, Cajueiro pôde saber de tudo do mundo; graças às letras de Mercês, podemos conhecer as histórias dessas mulheres, como nós: porque as palavras nos amarram a elas.

Quem escreveu esse texto

Henrique Marques Samyn

É autor de Anastácia e a máscara (Malê).

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