Literatura brasileira,
A vida diante do espelho
Vestígios do Alzheimer movem autoficção de autora mineira, que dribla apagamentos ao iluminar memória da avó e de mulheres do século 20
13out2025 • Atualizado em: 10out2025Os vínculos estabelecidos entre infância e velhice são uma constante na literatura. Em nossa história recente, cabe apontar a escrita da argentina Silvina Ocampo, que dedicou longos anos de sua produção ficcional a abordar o tema. Seus últimos textos, amiúde mais irregulares na forma, foram escritos no fim da década de 80, quando já havia sido diagnosticada com Alzheimer. Em uma dessas publicações, afirmou que “iria correndo por todas as idades, e não se reconheceria em nenhum espelho, ainda que tentasse encontrar a si mesma”.
Nos relatos que formam Coisas presentes demais, de Flávia Péret, esse mesmo esforço é empreendido. A diferença é que agora a neta é quem busca encontrar a avó, cujo único medo era envelhecer, a despeito da beleza aterradora que a acompanhou por décadas. A tônica para construir essa colcha de recordações, capaz de lançar o leitor em uma espiral de espantos, está nas inquietações da narradora, que procura traduzir a natureza singular da matriarca. Aos 89 anos, durante a pandemia de Covid-19, ela é internada pelos filhos em uma casa de repouso em Belo Horizonte.
Apresentada sem nome próprio, de modo que o substantivo comum “avó” ganha contornos de vocativo, a personagem vive seu processo pessoal de metamorfose diante de um par de olhos atentos. Enigmática e exuberante, ela é a responsável por marcar a infância das netas com um apreço pelos costumes que dá espaço, anos mais tarde, a uma nova forma cheia de fragilidades e desconjunturas estéticas. Nas palavras de Péret, sua protagonista se faz inclassificável antes de ser apenas uma vítima dessa “doença que durante muito tempo teve a palavra ‘mal’ no nome”.
Péret contextualiza a vida antes e durante a doença, num lapidar que não poupa a natureza complexa da avó
Em um percurso igualmente contrário e guarnecido pelo tempo, a autora acaba enxergando também a si mesma em reflexos que estremecem diante dos contrastes. De maneira sutil, trabalha para desvelar uma carga afetiva que é de igual modo autofágica: “Não me parece que estou narrando a perda da memória da avó, mas sim as minhas próprias memórias, exaltadas, iluminadas como se estivessem num palco, frente ao progressivo desaparecimento das dela”, diz em um dos trechos.
Fruto dos múltiplos exercícios criativos que vem desenvolvendo nos últimos anos, Coisas presentes demais permite que Péret brinque logo no título com a relação dicotômica estabelecida entre “permanência” e “ausência”, conceitos que põe em interação a fim de abrir caminho para a montagem de seu próprio “atlas de Mnemosyne”. É como se a voz de quem escreve navegasse por um mosaico pessoal, capaz de entregar ao leitor a chave para um léxico familiar que se decompõe à vista de todos.
Mapa
Permeado por assimetrias, sejam afetivas, comportamentais ou políticas, este exemplar da autoficção contemporânea nos deixa com a pulga atrás da orelha sobre o que é verdade e o que se inventa. Excepcional em sua ausência de linearidade, a organização do livro funciona como uma mímese da enfermidade. Em seus pouco mais de 120 capítulos, todos curtos, a avó se aproxima da rabugice de personagens como os da italiana Natalia Ginzburg. O jeito fragmentado e terno do relato é caro a outros dois cânones da literatura: o argentino Julio Cortázar e a francesa Sophie Calle, ambos apegados a um senso imagético. Como parte de um diário centrado no passado e no presente, a escuridão memorial que leva a avó a esquecer objetos e até o sal da massa de pão de queijo deixa de ser apenas sinal de uma lucidez em queda livre. Ao recordá-la por caminhos tão vivos, Péret toma posição frente à ruína.
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Às lembranças, que partem da infância em Mariana (MG) e seguem em direção à vida na capital, anexam-se informações técnicas sobre a doença e a marginalidade dos asilos. Para embasar angústias sintomáticas da vida adulta e não da infância, quase sempre recordada com alguma inocência, a autora recorre aos pensamentos de Drauzio Varella, Roland Barthes, Carl Gustav Jung, Sylvia Molloy e Daniela Ferriani. Acompanhamos com curiosidade seus pensamentos, elaborações típicas de quem busca dar sentido à nova realidade de um ente querido. Um gesto tão íntimo quanto universal.
À deriva, Péret contextualiza como era a vida antes e durante o Alzheimer, em um lapidar que não poupa a natureza complexa dessa avó, feita de associações com a feiura humana e o deslumbramento — algo que só alguém tão articulado com a disrupção poderia ostentar. Ao colocar em evidência obsessões por espelhos e a aparência, os sonhos, mas também uma vida de limitações, a escritora transcende o limiar das relações familiares suscitando uma discussão sobre a condição da avó como mulher no século 20.
Soma-se às posturas autoritárias e às críticas ácidas a recusa em pertencer ao ideal de esposa e mãe afetuosa. “A avó detestava comida requentada, eletrodomésticos comprados à prestação, penhorar joias, andar de ônibus, carros velhos, lembrancinhas baratas, carteira sem dinheiro, parecer uma pessoa pobre”, enumera Péret. Em seguida, com a mesma escolha peculiar de palavras, faz o inventário de uma infância feliz, particular daqueles que tiveram o privilégio de viver sonhando no interior: “A avó adora verdura refogada, champagne, falar mal das filhas, carro quatro portas, brincos dourados, leite morno com canela, Carnaval, novela das oito, netas arrumadinhas, sonhar que é rica”.
Ao propor um caminho que medeia diálogos da escrita memorial com o ensaio, o livro lança luz sobre eventos que mais aproximam do que distanciam suas personagens, sejam distorcidos ou não de sua realidade. Essa amálgama de referências rechaça a possibilidade de se fazer uma leitura maniqueísta da avó, ora insensível com os filhos e as netas, ora luminosa, graças aos posicionamentos que desafiaram expectativas.
Enquanto em seu livro anterior, Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças (Guayabo, 2020), a autora construiu narrativas que tinham como pano de fundo a cidade de Buenos Aires, a trama de Coisas presentes demais aponta para um exercício além. Ao terminar de ler a história da avó, ou o que foi possível reconstruir dela, tem-se a impressão de que essa “diva”, consciente do feminismo antes de a palavra se tornar febre, pede que seu histórico seja lido como um mapa.
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