Literatura,

Histórias para libertar

Contos de Lu Xun, o pai da literatura moderna chinesa, são reunidos na íntegra e publicados pela primeira vez no Brasil

28jul2022 - 18h26 | Edição #60

Considerado o pai da literatura moderna chinesa, Lu Xun (1881-1936) deixou uma obra repleta de simbolismos que exprimem sensações como desencanto e desorientação em uma China que se transformava de império em república. Seus contos são cobertos por uma névoa de loucura, ansiedade e ambição que, não raro, se confundem com histórias de horror situadas em uma China ainda arcaica e que Lu Xun tentava modernizar por meio da literatura. Seus personagens lutam por sobrevivência, sejam eles professores que aguardam salários atrasados ou famílias que dão aos filhos pão embebido em sangue humano para salvá-los.

Pela primeira vez, todos os seus contos são publicados no Brasil, na coletânea O diário de um louco: contos completos de Lu Xun, pela editora Carambaia. A importância da sua literatura é reconhecida há décadas. Embora a tradução do chinês para o português não seja uma tarefa simples, é pouco compreensível tal demora para o autor receber uma edição de fôlego no país. Porém, o livro que chega agora faz valer a pena o tempo de espera. Seja por causa do requinte da capa, que remete aos folhetins impressos em configuração vertical na China, seja pela cuidadosa tradução, acompanhada de notas de rodapé relevantes e precisas.

Quando ocorre tamanho intervalo entre a publicação de um livro já clássico e a sua tradução, espera-se que contemple a produção integral do autor. É precisamente o que ocorre na edição da Carambaia, que reuniu todos os contos de Lu Xun, publicados originalmente em três coletâneas compiladas pelo próprio escritor: O grito (1923), Hesitação (1926) e Histórias antigas recontadas (1936). No Brasil, foram publicados alguns contos do autor em 1957, com a grafia de Lu-Shin, pela editora Zumbi.

É válido ressaltar que Lu Xun ganhou uma edição bilíngue mandarim-português de suas memórias pela Editora da Unicamp, intitulada Flores matinais colhidas ao entardecer (2021). O principal mérito da edição da Unicamp é oferecer o texto também no idioma original, possibilitando o cotejo pelos estudiosos de mandarim. 

Canibalismo

O melhor conto da obra é justamente o que dá nome à coletânea. A maturidade da escrita e a habilidade de conduzir o leitor pelo raciocínio paranoico do protagonista de “O diário de um louco” surpreendem. Isso porque esse é o primeiro texto publicado por Lu Xun, em 1918. É comum que escritores aprimorem sua escrita ao longo do tempo, mas, desde a sua estreia, Lu Xun deixou um legado. No conto, o personagem tem certeza de que as pessoas de sua vila são canibais que querem comê-lo. Ao ser visitado por um médico, que recomenda que ele se alimente, o personagem tem certeza de que o médico quer engordá-lo apenas para comê-lo. “Como pretexto de medir meu pulso, ele veio ver se eu estava gordo ou magro, já esperando um pedaço de minha carne como pagamento”, diz.

A história começa com um narrador que conta, em primeira pessoa, que visitou dois irmãos, amigos que não via fazia muito tempo. O mais velho revela que seu irmão mais novo está doente e mostra seu diário. O narrador, então, opta por reproduzi-lo para o leitor, causando um efeito de real. O diário, além disso, ajuda a criar uma atmosfera de terror. O rapaz encontra em tudo — a boca de uma criança, um livro de tradições arcaicas, o olhar de um cachorro — vestígios de que as pessoas em seu entorno são canibais. Ele conclui que vive em uma terra com 4 mil anos de história de canibalismo e pede que salvem as novas gerações.

Como aponta Ho Yeh Chia, professora de língua e literatura chinesa na Universidade de São Paulo (usp), no posfácio da obra, Lu Xun expôs uma metáfora para a “antropofagia social” que devorava pessoas e personalidades. Dessa forma, o autor denunciava uma condição social na esperança de que as pessoas despertassem para a própria independência. Em inúmeros contos, os tipos humanos revelam a ambição por ascensão social e, consequentemente, prestígio. Ascensão que pode ser obtida por concurso para cargos no então império, no caso das pessoas letradas, ou por acúmulo de riqueza para os analfabetos. 

Os personagens são colocados por Lu Xun em situações que testam seus limites, como a fome e a derrota. O excesso de ambição e seu consequente desespero, porém, podem levar à morte, como no conto “Luz branca”. Nele, o personagem é reprovado novamente em um concurso e começa a recordar as histórias de um antigo tesouro enterrado sob sua casa. Ele faz uma nova tentativa de encontrá-lo. A luz da lua que ilumina o local, descrita pelo narrador em terceira pessoa, dá ao conto um clima fantasmagórico.

Em diversas passagens, Lu Xun faz referências aos pensadores chineses Lao Zi (’磾) e Confúcio (侹磾), fundadores do taoismo e confucionismo, respectivamente. O legado dos filósofos ainda hoje influencia a cultura e o pensamento chinês, especialmente o conceito de piedade filial. 

Tradições arcaicas como os “pés de lótus”, em que mulheres amarravam seus pés para deformá-los e mantê-los diminutos, um sinal de feminilidade, aparecem de forma crítica. O machismo que impunha dificuldade ao estudo das mulheres também é denunciado. Lu Xun foi um dos líderes do movimento Quatro de Maio, de 1919, que valorizava o conhecimento científico e a democracia.

Com uma postura política independente, Lu Xun nunca foi filiado ao Partido Comunista Chinês, embora fosse admirado por seus integrantes, entre eles Mao Tsé-Tung. Como explica Ho Yeh Chia, a imagem de Lu Xun foi usada pela Revolução Cultural, comparando-o a Lao Zi e Confúcio, por exemplo. Com a morte de Mao, em 1976, os símbolos do maoismo foram lentamente apagados, fazendo com que os textos de Lu Xun não ganhassem mais destaque. Para a professora, a mudança foi benéfica: “Sem o véu ideológico que lhe fora imposto pelo partido, sua imaginação vertiginosa, sua capacidade de construir metáforas fortes e inesperadas, sua ousadia, seu amor pelo indivíduo e pela liberdade humana apareceram em plena luz”.

Quem escreveu esse texto

Paula Sperb

É jornalista e crítica literária.

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.