Literatura,

Força frente à opressão

O embate contra regimes totalitários se destaca em livro de memórias da Nobel de literatura Herta Müller

01ago2020 - 01h00 | Edição #36 ago.2020

Herta Müller é dona de uma prosa singular, marcada pelo eterno embate do indivíduo contra a opressão, representada pelo leviatã que foi a Romênia sob o domínio do ditador Nicolau Ceausescu (1965–89). Sua literatura é determinada pela ideia de deslocamento permanente: seja da língua — pertencente à minoria alemã da região do Banat, Müller teve como língua materna o alemão e só começou a aprender o romeno aos quinze anos —; seja do gênero, como mulher em um país e regime profundamente patriarcais; seja como imigrante, por não se sentir pertencente nem ao campo, onde foi criada, nem à Romênia totalitária de sua juventude.

Minha pátria era um caroço de maçã se inscreve entre as biografias nascidas a partir de entrevistas. Conduzidas pela filósofa e editora Angelika Klammer, as questões que delineiam o livro estabelecem uma linha temporal muito clara da vida de Müller, de sua infância à concessão do Prêmio Nobel de literatura em 2009. Klammer se mostra conhecedora da obra de Müller e quase sempre a aborda com intervenções sutis, na medida para que deem vazão ao fluxo de memórias e imaginação e sempre tentando estabelecer um elo entre sua vida e sua escrita. 

É assim que conhecemos a infância de Müller em meio aos milheirais das fazendas socialistas, entre plantas e animais, contrastando com o peso das instituições e a privação de liberdade permanente. Os primeiros anos no interior da Romênia foram matéria-prima para a coletânea de contos Depressões, seu primeiro livro, que saiu desfigurado pela censura da editora Kriterion, de Bucareste. Dois anos depois, chegou à Alemanha, após ser editado de forma sigilosa quando Müller se hospedou com uma editora alemã em uma estação de esqui sem neve nos Cárpatos romenos, chamando a atenção do serviço secreto. Foi esse livro que primeiro lhe rendeu reconhecimento, com prêmios na Alemanha e na Áustria, além de despertar o interesse da crítica por sua literatura.

A partir da conversa com Klammer vemos a gênese de muitos de seus romances: a pele de raposa que lhe serve de tapete e que será mutilada pelo serviço secreto, que revista seu apartamento durante sua ausência (A raposa já era o caçador); as permanentes sessões de humilhação durante os interrogatórios oficiais e o trabalho sufocante em uma fábrica (O compromisso); a intensa amizade com Jenny, que se revela uma espiã a serviço da ditadura de Ceausescu (Fera d’alma); as marcas que a fome e a prisão deixaram em sua mãe, deportada para um gulag ucraniano onde viveu por cinco anos (Tudo o que tenho levo comigo). 

Absurdos

Podemos também compreender sua obra permeada pela marca dos absurdos das metáforas, que, contextualizadas com a história de seu país, não têm nada de absurdo. Um exemplo emblemático é a quantidade de carimbos exigidos para poder viajar, dentre eles o do “Departamento de Chaminés”, mesmo morando em um apartamento no quinto andar, sem chaminé; outro é o fato de, quando conseguiu emigrar para a antiga Alemanha Ocidental, durante meses ter sido interrogada pelo BND (serviço secreto alemão), que suspeitava que fosse uma agente do Estado romeno.

“Escrever é uma necessidade interior contra uma resistência interior. Sempre escrevo para mim e contra mim mesma. Sempre espero para redigir, até que se torne inevitável. Adio, pois sei que, quando começar, isso toma posse de mim de uma forma que me dá medo. Quando estou escrevendo, isso me engole por inteiro”, escreve Müller. Minha pátria era um caroço de maçã é um testemunho contundente sobre a força humana frente à opressão em qualquer tempo. Um tema mais atual do que nunca.

Quem escreveu esse texto

Itamar Vieira Junior

Recebeu o Prêmio LeYa pelo romance Torto arado (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #36 ago.2020 em maio de 2020.