Literatura,

Extensas zonas de sombra

Romance de Javier Marías faz refletir sobre amar e acolher as penumbras de quem não podemos conhecer por inteiro

01maio2020 - 01h00 | Edição #33 mai.2020

Tom Nevinson sabe que nem sempre é vantajoso ter suas habilidades reconhecidas. Aluno da Universidade de Oxford (Inglaterra), ele é capaz de dominar novos idiomas com facilidade e precisão, reproduzindo sotaques e dicções como falante nativo. A fama que atrai é uma faca de dois gumes. Por conta dela, e graças a uma situação delicada em que se vê envolvido, é forçado a ingressar no MI6, braço militar do serviço secreto britânico. Filho de uma espanhola e um inglês, a personagem não só autoriza o uso implícito de toda uma tradição de livros de espionagem (Ian Fleming, Graham Greene, John le Carré) como, num movimento apropriado, estende a própria duplicidade ao enredo. É Tom, em um diálogo determinante para os rumos da narrativa, que expõe as diferenças entre a Inglaterra e a Espanha. No primeiro país, cheio de “subentendidos”, bastam “poucas e ambíguas palavras”. No segundo, onde todos os infiltrados lembram a polícia secreta franquista, “a gente tem que falar claramente, senão ninguém fica a par de nada”. Sem jamais entrar em conflito, as duas disposições se misturam ao longo de mais de quinhentas páginas.

De volta a Madri, onde cresceu, Tom se casa com a namorada de longa data, Berta Isla. Nos início, ela atribui as ausências frequentes do marido a um emprego na embaixada britânica. Só descobre que ele é um espião graças a um evento traumático. E a esta informação — a de que é um espião — nada mais é ou pode ser acrescentado. Se quiser continuar casada com o garoto gentil por quem se apaixonou na adolescência, deve aceitar as “extensíssimas zonas de sombra” das quais dependem o equilíbrio e a segurança da recém-formada família. Ela não está autorizada a revelar o segredo, fazer perguntas ou lamentar o silêncio daquele com quem divide a cama. Decide continuar casada. Das andanças de Tom o leitor conhece pouco mais do que Berta, o que é quase nada. É ela quem, numa espera ora angustiada, ora resignada, ora indiferente, narra a maior parte do livro. Uma interpretação possível de Berta Isla — consequência de uma provocação intencional de Marías — aponta para um romance anacrônico. “A história é cheia de mulheres que ficam e esperam, que olham para o horizonte todos os dias ao entardecer tentando divisar uma figura familiar”, diz Berta. A “figura familiar”, claro, é um homem. Por aí já se tem uma boa ideia das questões que algumas críticas podem levantar. A primeira sugere que a característica mais marcante de Berta é a passividade. A segunda, que ela não é a protagonista, mas uma personagem secundária. Proponho uma leitura diferente.

Desterrado do universo

Tom é recrutado por intermédio de Peter Wheeler, renomado hispanista e lusitanista de Oxford e um velho conhecido do leitor da trilogia Seu rosto amanhã (Companhia das Letras), também calcada na espionagem. Ao aceitar integrar o MI6 — e na situação dramática que se delineia, a recusa não é uma opção —, Tom deverá se tornar um daqueles “cuja existência nunca será revelada ou sempre será negada”. Para Wheeler, contudo, o segredo é a “forma suprema de intervenção no mundo”. Oculto, Tom será um dos poucos privilegiados com poder para mudar o rumo dos acontecimentos em vez de se deixar arrastar por eles. Wheeler usa a expressão “desterrado do universo” para se referir ao sujeito incapaz de agir, seja por alienação ou paralisia, seja por não ter a influência ou os meios necessários. Mesmo dissimulado na narrativa, o sentido literal de desterrado não é secundário. Quem não puder enxergar Tom como uma espécie de exilado abre mão de uma bonita leitura de Berta Isla.

Aquele que se oculta é apontado no livro como representante e testemunha de um tempo já encerrado ou prestes a se encerrar. Wheeler dá mostras de entender a mudança em curso: “Nada pesa sem mistério, sem brumas, e nos encaminhamos para uma realidade sem trevas, quase sem claros‑escuros. Tudo o que é conhecido está destinado a ser engolido e trivializado […] e portanto a carecer de verdadeira influência. O que é visível, o que é espetáculo de domínio público nunca muda nada”. Na contramão da era da transparência, que banaliza sobretudo o próprio afeto, é o oculto que detém potencialidades. Não raro a profundidade do campo de visão é garantida pelas zonas de sombra.

Tendo arranjado o encontro em uma livraria, Wheeler instrui Tom a folhear um livro de T. S. Eliot para que seus recrutadores o identifiquem — talvez recomendando o poeta como guia. Ele lê versos soltos de “Little Gidding”, o último dos quartetos. Diferentemente dos livros anteriores de Marías, em que autores como Shakespeare e Balzac propiciam situações e personagens que dão relevo e complexidade à trama, Eliot é aqui uma espécie de mentor espiritual. “E toda ação é um passo rumo ao cepo, ao fogo, à garganta do mar ou a uma pedra ilegível…”, lê Tom. Bertram Tupra, outro conhecido do leitor da trilogia Seu rosto amanhã, é um dos recrutadores. Personagem estranho e vagamente ameaçador, ele sabe que o jovem acuado que tem diante de si vai acabar cedendo. Tupra compara espiões a narradores em terceira pessoa. Nenhum dos dois é detectável, diz, o que não pressupõe neutralidade. Ambos revelam e omitem detalhes manipulando o leitor. Basta ver o que faz Marías em Berta Isla, uma vez que os trechos centrados em Tom são narrados em terceira pessoa.

Berta não pode revelar o segredo, fazer perguntas ou lamentar o silêncio daquele com quem divide a camace

Se no livro a negatividade da alteridade é reforçada até quase a caricatura, numa radicalização do que ocorre em qualquer relação, é porque o ato de narrar passa ao primeiro plano. Como nota Berta, “muitas vicissitudes só são suportadas para serem contadas mais tarde”, consolo do qual Tom é privado. Ao fim de longos períodos de ausência, lá está a presença muda do marido. Como nada lhe é relatado, Berta preenche o vazio com conjeturas. Mais do que ninguém, ela compreende que “o que diz respeito ao outro sempre pertence a esse terreno, o da imaginação”. É como se Berta Isla reunisse as qualidades dos melhores livros de Marías. Ainda que o eco da trilogia seja o mais óbvio, os segredos fatídicos de Assim começa o mal e os dilemas amorosos de Os enamoramentos (ambos da Companhia das Letras) também estão presentes. Além disso, bem ao estilo do autor, Berta Isla se estende muito além do punhado de eventos nos quais se concentra. Não são tanto os desdobramentos concretos que interessam, mas sua eficácia especulativa — as possibilidades e perspectivas que constrói ao fazer uma personagem recordar e prever, suspeitar e julgar.

Berta sabe que a sobrevivência e o êxito de Tom dependem de sua capacidade de executar ações vis, embora desconheça seu contexto. Apenas o aceita, com “sua penumbra, sua opacidade, sua nebulosa”. Uma pergunta, tanto crucial quanto enganosa, se impõe: Berta amou Tom por inteiro ou pela metade? Amou aquele que pôde enxergar e de quem pôde se aproximar, ou seja, somente uma parte? (E por acaso há um Tom verdadeiro, enquanto as outras identidades não são nada além de máscaras?) Ou amou sem limites ao acolher uma zona tão extensa de sombra? (Guardadas as proporções, não é sempre assim?) “Conheço você desde a adolescência. Desde então te amei com determinação. Mas depois, no longo depois que já arrasto e me aguarda, quão pouco soube de você.” A palavra-chave é determinação. O amor em Berta Isla é uma decisão, uma escolha renovada, uma ação consciente e repetida.

O declínio, sobretudo na Espanha, do costume de adotar o sobrenome do marido não explica por que o título do livro não é Berta Isla de Nevinson, nome que adota ao se casar. Não basta dizer que Berta não é definida pelo marido. É mais do que isso. Depois de tudo, Tom é que é definido por Berta. “Você é a única coisa que me permite às vezes me lembrar direito de quem sou”, diz a ela. Partem de Berta quase todas as ações que estruturam o romance — embora seja preciso entender “ação” nos moldes de Marías,  aqui descritos. É Berta quem enxerga, escolhe e fica, quem tece e costura as partes soltas da vida de Tom. Mas ela não é como Penélope, que espera Ulisses. Berta Isla, ilha, escolha que assinala sua individualidade e seu isolamento, é a própria Ítaca. A um passo de se tornar um desterrado no sentido mais completo, só há uma salvação para Tom. O “antigo Tom Nevinson”, que certo dia ele precisa reencontrar, é “o namorado de Berta Isla e o marido de Berta Isla”. E não, não é um desterrado quem ainda tem sua Ítaca. 

Quem escreveu esse texto

Camila von Holdefer

Crítica literária, é colaboradora do IMS e da Folha de S.Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #33 mai.2020 em abril de 2020.