Literatura,

Em busca dos signos de Proust

No centenário da morte do escritor francês, novos livros analisam a estética e a semiótica em sua obra-prima

18nov2022 - 16h20 | Edição #63

Em maio de 1921, Marcel Proust achou por bem desafiar suas enfermidades e sair do famoso quarto forrado de cortiça no número 44 da Rue Hamelin, no 16º distrito parisiense. Foi nesse cômodo que o autor passou seus últimos anos com a saúde claudicante enquanto escrevia e revisava o quinto volume de Em busca do tempo perdido, tarefa a que dedicava todas as forças, já prevendo seu iminente fim, e da qual se ausentava quase nunca àquela altura. Naquele período, no entanto, chegava à cidade uma exposição de arte holandesa que, dentre outras obras aclamadas, trazia um quadro que Proust vira quase duas décadas antes em Haia: a Vista de Delft, de Vermeer. Com a ajuda do amigo e crítico de arte Jean-Louis Vaudoyer, que convocou especialmente para auxiliá-lo na missão, sentiu tonturas e mal-estar já nos degraus de seu prédio, o que o fez suspender a marcha por alguns segundos, mas não cancelar o plano. Com Vaudoyer apoiando-o pelo braço para que não caísse entre as galerias do museu Jeu de Paume, caminhou entre os mestres holandeses até que chegasse diante da paisagem de 98 cm x 118 cm que, em ocasião anterior, já descrevera como “a mais bonita do mundo”.

Com Proust ao mesmo tempo frágil e extasiado, envolvido em uma situação que poderia lembrar um “último pedido”, não seria exagero pensar que a cena terminaria com o escritor tendo um ataque e, diante da beleza total, morrendo. Não morreria até o fim do ano seguinte, mas resolveu matar um dos personagens mais importantes da Recherche, o escritor Bergotte, exatamente dessa forma. A passagem, em que o homem já doente desaba sem vida no meio da mesma exposição, é uma das mais celebradas nos sete volumes que compõem a obra, não só pelo estilo e ideias empregados, mas especialmente pelo detalhe que ocasiona o súbito falecimento. É para ver um “pequeno pedaço de muro amarelo”, encontrado na porção mais à direita do quadro, que Bergotte resolve se arriscar saindo de casa. Diante da tela, antes de ser vencido pelas tonturas e cair morto, encontra tempo de dizer, ao admirar o detalhe colorido: “Assim é que eu deveria ter escrito”.

Na ‘Recherche’, o que está em jogo é o desenvolvimento de uma vocação literária sempre postergada

A importância desse trecho não é seminal apenas para Proust, que desejou editá-lo na madrugada anterior à sua morte, mas para todos os críticos que desejaram compreender a Recherche por uma chave que juntasse, sobretudo, estética e metafísica. É esse o caso de Proust e as artes, de Roberto Machado, que sai pela Todavia; e Proust e os signos, de Gilles Deleuze, reeditado com nova tradução, também de Machado, pela Editora 34. Ambos chegam próximo do centenário de morte de Proust, em novembro deste ano, efeméride que também conta com o lançamento, em nova tradução, dos dois volumes iniciais do romance pela Companhia das Letras. Nesses livros de crítica literária, por sua vez, o enorme percurso feito pelo protagonista desde a infância até seus dias de maturidade é investigado pelo mesmo prisma que anima o célebre fim de Bergotte. Um tipo de postura estética dominante e total que engloba vida e morte, atitude para a qual todos os esforços mentais e físicos devem apontar e que é responsável por oferecer a única saída para investigar sentimentos que seremos sempre incapazes de formular com exatidão. Sentimentos esses que definiriam a própria essência da realidade e sua relação com a memória e o passar do tempo.

Romance de formação

Pela forma como o protagonista, Marcel, acessa as mais diversas experiências sensíveis, primeiramente com enorme confusão de sentidos e por último com lucidez adquirida, Machado abre seu pensamento dizendo que a Recherche é um romance de formação. A categoria não raramente é evitada para categorizar o livro de Proust, sobretudo pela cronologia nem sempre linear e pela falta de uma percepção cristalina sobre o desenvolvimento do protagonista, ao contrário dos exemplos mais conhecidos do gênero. O que explica a classificação para o autor, no entanto, é um romance em que a formação é de outra natureza, ou de percepção estética, onde o que está em jogo é o desenvolvimento de uma vocação literária sempre postergada por Marcel.

Se a tarefa de descobrir na escrita uma forma de sentir o mundo e a si mesmo é algo que só vem nas últimas páginas do sétimo volume e um tanto por acaso, num tropeço nas pedras do calçamento e no aspecto de um livro na prateleira, isso só acontece após um longo e errático aprendizado que, até o último momento, Marcel não tem ideia do que significa. Não se trata exatamente de sentar e escrever, o que o protagonista raramente faz, mas entender de que serviram tantos anos frequentando salões badalados, buscando prestígio social, amando mulheres improváveis, viajando para balneários com a avó e contemplando antigas paisagens. Significa, ainda, investigar como exprimir esse tempo perdido em sua totalidade, como recuperá-lo por uma via inédita, recôndita e verdadeira sem fazer dele uma mera lembrança, mas uma nova experiência.

Para Machado, essa busca de natureza estética “está intrinsecamente ligada a uma metafísica, ou a uma ontologia, pois considera que a verdadeira arte deve dar conta da realidade”. A diferença é que Proust, para além de apresentar essa reflexão de natureza filosófica durante o romance, o faz “artisticamente, isto é, privilegiando as sensações e os sentimentos, ou, como ele diz ao falar da literatura de Bergotte, através de imagens”. Essas “imagens” se desenrolam nas cenas mais lembradas da narrativa, quando diversos gatilhos misturam memória (voluntária e involuntária), metáforas, contemplação, imaginação e sonho para se apoderarem de Marcel, fazendo-o refletir sobre a substância desses momentos, sua forma de funcionar e se desdobrar no correr da vida.

Essas situações de efusividade emocional recebem o nome de “impressões de sentidos”. Com furor analítico, Machado afirma ter identificado trinta delas e apresenta uma lista de várias divididas por volume, inaugurada pela mais conhecida de todas, a da madeleine molhada no chá. O problema reside em que apenas sentir as “impressões dos sentidos” nunca é suficiente para Marcel, já que suas tentativas de penetrar fundo na natureza delas são sempre frustradas. Isso acontece, por exemplo, quando o então jovem protagonista contempla a paisagem de Montjouvain e, arrebatado, exclama brandindo o guarda-chuva: “Zut, zut, zut, zut”. A espécie de grito ou gemido, nos diz o crítico, é “um fracasso na tentativa de transformar uma impressão em expressão, uma sensação em linguagem”. Faz-se necessário um aprendizado, uma forma de adentrar esse mundo brumoso e apreendê-lo mentalmente. E esse aprendizado é estético.

Para além de apresentar uma reflexão filosófica, Proust o faz artisticamente, através de imagens

São sobretudo três os personagens que incorporam a aproximação estética na Recherche, temas também divididos em capítulos no livro de Machado. Além do escritor Bergotte, o trio também se forma com o pintor Elstir e o compositor Vinteuil, cujo trecho de uma sonata é motivo recorrente em todo o romance. Com exceção de um único exemplo envolvendo este último, nenhum deles está na listagem de cenas em que explode o assombro provocado pelas “impressões dos sentidos”. A relação não é por acaso, mas acontece porque a dinâmica do trio não exatamente se encontra com a ocorrência dos momentos de efusividade. Antes, ela está em grande parte ligada ao aprendizado errático de Marcel, à descoberta de que só a forma artística é capaz de envolver o prazer fugidio das impressões mais violentas. É ouvindo a frase de Vinteuil que o herói consegue vislumbrar uma espécie de “profundidade essencial”; é nos quadros de Elstir que é possível contemplar uma imagem “metamorfoseada” em metáforas, como o “pequeno pedaço de muro amarelo” de Vermeer. E é na literatura que as duas se juntam, ou que metáforas se dão a considerar as essências da realidade. Literatura essa de que Marcel só se dá conta no fim do livro e que Proust está fazendo desde a primeira página.

Grande parte desses aspectos que Machado destaca em Proust e as artes recebe o nome de “signo” por Deleuze em Proust e os signos. O livro dividido em duas partes, a segunda só adicionada em 1970 após a publicação da primeira, em 1964, é um verdadeiro tour de force semiótico sobre o romance e chega a conclusões parecidas com as de Machado por vias diferentes e alargadas, contemplando áreas onde o brasileiro nem sempre se aventura. Um dos nomes mais associados ao pós-estruturalismo, Deleuze diz já nas primeiras páginas que “a obra de Proust é baseada não na exposição da memória, mas no aprendizado dos signos”. Em outras palavras, não se trata exatamente das lembranças involuntárias que a madeleine desperta e pelas quais subjuga Marcel, unindo passado e presente em uma nova percepção de mundo.

Por outro lado, não é apenas na madeleine, ou no signo propriamente dito, que reside a chave para apreender o sentido dessa experiência, como se o objeto puro contivesse a explicação. Isso testemunha Marcel ao dar mais mordidas no bolinho como tentativa de compreender melhor o que sentia, só atingindo uma sensação cada vez mais fraca do que a percebida na primeira delas. É preciso, de outra forma, explorar ou “aprender” o sentido provocado pela madeleine e suas memórias involuntárias, ressonância que o autor também identifica na arte.

Segmentações

Se a Recherche é comparada a uma “catedral” por Proust, Deleuze constrói um edifício com as várias segmentações de signo, sentido e tempo que elenca e relaciona na elaboração de seu pensamento sobre o romance, no qual sempre encontra forma de adicionar mais um andar. São quatro os “mundos de signos” que o autor vê na obra e usa para desenvolver seu raciocínio: o do “mundanismo”, ou da vida social cultivada por Marcel, representado nos códigos dos salões, mundo esse que diz ser vazio; o do “amor” e ciúme provocados pelas mulheres amadas pelo herói, que se expressa na constante desconfiança da mentira implícita no parceiro; o das “impressões sensíveis”, que diz respeito às mesmas “impressões de sentidos” de Machado e está ligado a um aspecto material, como a madeleine ou a paisagem de Montjouvain; e o da “arte”, que contém as essências da realidade verdadeira, onde é possível dar conta das sensações experimentadas e para o qual todos os outros “mundos de signos” apontam, forma de representar o aprendizado de Marcel.

O romance de Proust é resumido por uma fórmula inspirada de Deleuze: ‘Não há logos, só há hieróglifos’

Pela visada metafísica em relação às artes, que Proust relaciona com a busca da verdade e da essência da realidade, Deleuze credita ao escritor uma visão que ressoa as formas ideais de Platão e as mônadas de Leibniz. Ao contrário dos filósofos, que se baseiam em um logos anterior como ponto de partida para suas ideias, no entanto, Proust faz sua investigação com os sentidos e as impressões antes de lhes adicionar qualquer sistematização baseada na inteligência. Na narrativa do romance se faz necessário, antes de tudo, sentir “o efeito violento de um signo” para que o pensamento seja animado a persegui-lo e a inteligência seja arrebatada a decifrar o que provoca uma madeleine. Nesse sentido, uma obra de arte é mais valiosa que uma obra filosófica porque “o que está envolvido no signo é mais profundo que todas as significações explícitas”, de modo que “mais importante que o pensamento é aquilo que faz pensar”. Todo esse raciocínio presente no romance é resumido por uma fórmula inspirada de Deleuze: “Não há logos, só há hieróglifos”. É mérito de Deleuze e Machado, ainda que este se repita algumas vezes e gere alguma fadiga, aprofundar essas questões por vias que não se perdem na teorização abstrata em demasia nem exigem exatamente um conhecimento prévio de conceitos filosóficos.

Sair de casa doente, contemplar um quadro no museu, perceber nele um “pequeno pedaço de muro amarelo”, desejar que sua obra fosse como esse detalhe, desabar morto no chão. O final espetacular de Bergotte traz justamente essa violência do signo artístico em toda a sua amplidão e potência, a parte específica para a qual apontam todos os outros signos, as “impressões dos sentidos” e o tempo passado. É esse pequeno pedaço onde mora a verdade que, só quando seu aprendizado se completa, Marcel consegue entrever também na vida que levou, nas pessoas que conheceu, nas cidades que viu, nos sonhos que teve e nas memórias que o guiaram, no passado e no presente. Não parece exagero pensar que Proust teria gostado de considerar sua obra pela mesma chave quando foi cambaleante ver a Vista de Delft em 1921, ou na madrugada de 18 de novembro do ano seguinte, quando quis pincelar o trecho de Bergotte antes de falecer pouco depois, no fim da tarde. Seja pelos episódios de autor e personagem, ou ainda pelos estudos de Machado e Deleuze, essas narrativas e considerações refletem a perene busca estética da qual a própria escrita da Recherche é o objeto final.

Quem escreveu esse texto

Victor Calcagno

É jornalista.

Matéria publicada na edição impressa #63 em outubro de 2022.