Literatura,

Como é feia essa menina

Após um hiato de cinco anos, Elena Ferrante causa comoção entre os leitores com lançamento de novo romance

29nov2019 - 00h00 | Edição #29 dez.19/jan.20

Elena Ferrante é o pseudônimo que, há quase três décadas, vem assinando algumas das obras mais comentadas da atualidade. A autora acaba de publicar um novo livro de ficção, o romance La vita bugiarda degli adulti [A vida mentirosa dos adultos], que chega às livrarias italianas cinco anos depois do último volume da tetralogia napolitana — formada pelos títulos A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida, publicados no Brasil pela Biblioteca Azul (selo da Globo Livros), todos com tradução de Maurício Santana Dias.

A obra acabou se tornando um fenômeno mundial, que deu origem a um movimento chamado de “febre Ferrante”. Com mais de 12 milhões de exemplares vendidos em cerca de cinquenta países, a tetralogia também inspirou a série My Brilliant Friend, exibida pela HBO. A comoção, que ultrapassa os marcadores de sucesso habituais do mercado editorial, também tomou a crítica — a começar pela resenha elogiosa de James Wood, crítico literário e professor de literatura em Harvard, publicada na revista New Yorker em 2013. Wood, que se dedica ao estudo do realismo, admira na obra de Ferrante aquilo que chama de “honestidade” da escrita.

Há outro elemento que pode ter contribuído para o entusiasmo. A escolha do pseudônimo acabou garantindo à obra destaque nos principais veículos internacionais, ainda mais quando um jornalista italiano, Claudio Gatti, promoveu uma investigação digna de enredo policial, conectando Ferrante à tradutora Anita Raja, nascida em Nápoles, em 1953. Filha de pai napolitano e mãe alemã, Raja é casada com o escritor Domenico Starnone, que também já foi apontado como a “verdadeira identidade” de Ferrante.

Anita Raja não negou nem confirmou os rumores, e conseguiu se manter longe dos holofotes. Leitores e críticos saíram em defesa de Ferrante, que argumenta a favor da autossuficiência do leitor em relação ao texto literário, em oposição à presença midiática do autor. Muito se especulou sobre o impacto que a revelação de Gatti teria na escrita de Ferrante, se ela voltaria a publicar ou não. La vita bugiarda degli adulti chega como resposta. O pseudônimo permanece na identificação de autoria e, para todos os fins, a autora segue operando do mesmo modo: não compareceu ao lançamento e continuará concedendo entrevistas apenas por escrito, sempre por intermédio de seus editores.

“Ferrante Night”

O romance foi recebido com muita expectativa: um manto vermelho cobria os livros na vitrine da Feltrinelli, uma das principais redes de livrarias da Itália, enquanto um cronômetro marcava o tempo para o lançamento. A partir da meia-noite do dia 7 de novembro, o livro passou a ser vendido, o que motivou uma série de eventos no país, que a editora chamou de “Ferrante Night”. Quando o assunto é literatura, poucas vezes temos feitos como esse.

Dias antes, os principais veículos do país publicaram, simultaneamente, resenhas do romance. O esquema montado também impressionou jornalistas: os resenhistas receberam uma senha que dava acesso ao livro, que estava criptografado, e a indicação de que a estimativa de leitura seria de aproximadamente cinco ou seis horas. Assim, passaram a noite em claro para publicar suas impressões sobre o livro na manhã seguinte.

Como nos outros romances, La vita bugiarda degli adulti é narrado em primeira pessoa por uma mulher, Giovanna, que rememora um período específico de muitas transformações em sua vida: a adolescência, mais precisamente dos doze aos dezesseis anos. Nessa época, a separação dos pais a envolve numa teia complexa, que coloca em xeque o arranjo familiar, bem como o mundo que conhecia até então.

“Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia.” A frase que inicia o romance indica que a intertextualidade, característica recorrente da obra de Ferrante, está presente desde as primeiras linhas. A observação do pai de Giovanna faz alusão a um trecho de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, em que Emma Bovary comenta: “É estranho como é feia essa criança”. A constatação parece dizer mais do distanciamento que Emma sente, da falta de sentido que a atravessa, do que propriamente da aparência física da filha.

No ensaio “Como é feia essa menina” (que faz parte do livro Frantumaglia: caminhos de uma escritora, publicado pela Intrínseca), Ferrante escreve sobre o impacto que a leitura do romance de Flaubert teve sobre ela, destacando essa passagem específica. Ao retomar a fala na abertura do novo romance, faz uma espécie de homenagem ao autor e também à sua formação como leitora e como escritora.

Apesar da rejeição paterna e de todo o emaranhado que se segue à separação dos pais, Giovanna anuncia, logo na primeira página, que sobreviveu: “Eu escapei, e continuo escapando, dentro destas linhas que têm o intuito de me dar uma história, mas, no entanto, são nada, nada meu, nada que tenha realmente começado ou sido concluído: somente um nó emaranhado, e ninguém, nem mesmo ela que neste momento está escrevendo, sabe se contém o fio certo para uma história ou é meramente uma confusão ríspida de sofrimento, sem redenção”.

A passagem poderia ter sido narrada por Elena Greco, da tetralogia napolitana; por Leda, de A filha perdida; por Olga, de Dias de abandono; ou por Delia, de Um amor incômodo. Para os leitores de Ferrante, esse tom de voz é um velho conhecido. Também é familiar a analogia entre a escrita literária e a tecelagem: a narradora gostaria de encontrar um “fio certo” para contar a história. Esse confronto entre a desordem dos afetos e das experiências vividas e o artifício organizador da narrativa é uma das reflexões mais ricas da obra de Ferrante.

Do mesmo barro

A familiaridade dos temas, dos ambientes e mesmo das vozes que encontramos em seus livros não soa como uma deficiência da autora. Ao contrário, o que impressiona é que, a partir do mesmo barro, Ferrante tem construído histórias no mínimo inquietantes, algumas memoráveis, enquanto investiga questões psíquicas, culturais e sociais relacionadas à ideia de identidade e a um mal-estar próprio de nosso tempo.

A perspectiva de uma adolescente, ainda que recuperada a partir da vida adulta, lembra a posição da narradora da tetralogia. Em A amiga genial, temos um arco temporal de seis décadas, enquanto aqui de apenas alguns anos. Quanto a outras diferenças, Giovanna, ao contrário das narradoras de antes, vive na parte rica de Nápoles e, em alguns aspectos, tem uma relação diferente com o entorno, embora a ambivalência em relação à cidade permaneça como um elemento constitutivo da obra.

La vita bugiarda degli adulti dividiu as críticas: algumas afirmam que encontramos uma mera repetição dos elementos anteriores, que Ferrante estaria fazendo um pastiche de si mesma. Em outras, a autora tem sido elogiada por revisitar, com habilidade, temas caros ao seu projeto literário. A comparação entre o romance de agora e a tetralogia napolitana, sua obra-prima, ofusca o lançamento.

Enquanto antes, a ambição narrativa entrelaçou a vida pessoal das personagens à história recente da Itália e à história da literatura ocidental, agora temos uma história privada, que continua tensionando questões sociais e culturais, mas com outra magnitude. Dificilmente La vita bugiarda degli adulti terá o mesmo apelo que a história de Elena e Lila, mas, ainda assim, é uma obra acima da média, que merece ser apreciada por seus próprios méritos.

Quem escreveu esse texto

Fabiane Secches

É psicanalista e pesquisadora de literatura na Universidade de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #29 dez.19/jan.20 em novembro de 2019.