Literatura,

Até que o goró acabe

Em romance autobiográfico e coletânea de poemas, poeta que passou pelo célebre Chelsea Hotel é traduzida pela primeira vez no Brasil

01maio2019 - 01h00 | Edição #22 mai.2019

Em 1966, Andy Warhol e Paul Morrissey fizeram do Chelsea Hotel a principal locação de Chelsea Girls. Quando a cantora Nico — que surge no filme como ela mesma — lançou seu primeiro álbum solo no ano seguinte, chamou-o de Chelsea Girl. Na sexta faixa, “Chelsea Girls”, figuras, situações e elementos marcantes da mitologia do lugar, alguns deles retratados no longa de Warhol e Morrissey, dão origem a estrofes sobre drogas, privação, colapsos e desesperança. A letra é um desfile de quartos, garotas e dramas. Versos como “o futuro dela morreu no passado de alguém”, aliados à voz gutural de Nico, continuam tão eficazes como há cinquenta anos quando se trata de provocar uma tristeza dilacerante.

É improvável que alguém desconheça a, digamos, aura em torno do Chelsea Hotel, o lar nova-iorquino de um sem-número de figuras notáveis ligadas à arte, à música, ao cinema e à literatura. Não é exagero dizer que algumas das vanguardas mais importantes do século passado estão, direta ou indiretamente, vinculadas ao Chelsea. 

Publicado pela primeira vez em 1994, o romance autobiográfico de Eileen Myles reivindica para si a mesma aura — condensada, porém, na imagem idealizada do artista. Myles insiste em declarar que é uma poeta, o que a distingue das pessoas comuns, que não teriam o talento ou a persistência para insistir em um pacote completo de práticas e atitudes. Está claro que ela vê na escrita também um estilo de vida. Chelsea Girls entrega, portanto, certa dose de romantismo de um tipo específico. Sem plano ou rotina, ela vive um dia após o outro. Mesmo sem dinheiro, Myles consegue beber. Com dinheiro, bebe ainda mais. Uma forma de resumir Chelsea Girls, reducionista mas não equivocada, seria: ou alguém quer muito beber, ou está bebendo ou está bêbado, o que vale também para as passagens que resgatam as memórias de sua infância e adolescência. Há só um capítulo em que o Chelsea Hotel é uma presença real. De resto, ele é uma atmosfera.

Ao contrário da canção lúgubre de Nico, há certo alívio cômico — ou apenas leveza — entre os trechos mais graves de Chelsea Girls. É a personalidade bonachona de Myles que se destaca, emergindo como uma voz construída com as doses certas de cálculo e espontaneidade. A narrativa é atravessada por uma afetação que parece natural à personalidade de Myles, ou por uma genuína artificialidade.  

Por aqui, Myles ajuda a suprir uma lacuna dificilmente vista ou levada em conta. Sei que dispor a literatura em nichos reduz a complexidade da escrita a um detalhe que pode ser arbitrário, mas é um fato que Chelsea Girls se junta à escassa pilha que nós, lésbicas, temos à disposição no Brasil. E isso a despeito do aumento da presença de autoras mulheres que acompanhou o resgate e a admissão de novas vozes.

Os capítulos de Chelsea Girls, ocasionalmente tratado como uma coletânea de contos, são escritos em diferentes estilos. Em comum, há a linguagem despretensiosa e com pontuação sui generis, que não estaria deslocada numa conversa informal. É nesse aspecto que a prosa da autora se assemelha à poesia. O apelo constante a metáforas e alusões — quando não a manobras óbvias de evasão e tergiversação — na descrição de episódios mais dramáticos é outro denominador comum. Aliado à autoironia onipresente, o recurso faz com que, sem negar ou disfarçar a brutalidade de certos acontecimentos, Myles evite se deter nas próprias emoções. 

Lésbica, Myles lançou candidatura independente à presidência dos EUA em 1992, como protesto

A ausência de autopiedade é desconcertante. Os dois momentos mais extremos do livro são narrados com o mesmo desembaraço que beira a indiferença. Em um deles, retomado em três ou quatro capítulos, Myles retorna à infância para narrar o prolongado alcoolismo e a morte do pai. Em seguida — depois de revelar que, na adolescência, acreditava que todo sexo era forçado — relata a ocasião em que foi vítima de um estupro coletivo. A indiferença é só aparente, e uma série de detalhes que poderiam passar por distanciados dá conta da extensão da dor. 

Sem ordem cronológica, a obra é  fértil em ganchos e contrastes. A infância em Arlington é intercalada com a ida ao festival de Woodstock. “Chelsea Girls”, o último capítulo, funciona como um epílogo. É só então que Myles descreve, sem se aprofundar, a época em que foi uma espécie de secretária do poeta James Schuyler, morador do Chelsea. É um capítulo representativo da vida de Myles, e funciona bem como encerramento. 

Poesia

O talento de Myles se revela mais intensamente na poesia, igualmente autobiográfica. Não há dúvida de que ela é, acima de tudo, poeta. Por qual árvore espero é a melhor porta de entrada para o trabalho da autora. 

O ideal é ler os dois livros de forma simultânea. É com a leitura de Chelsea Girls, por exemplo, que se entende melhor o poema “Pasta de amendoim”: a falta de metas, a opção sem volta pela escrita. “Não tenho/ nenhum desejo de saber/ aonde isso, nada disso/ está me levando”, escreve Myles. E em seguida, em “Caderno 1981”, confessa que a poesia é “ousar não ter muito a perder”.

No irônico “Um poema norte-americano”, ela incorpora o sobrenome Kennedy para debochar da própria posição marginal dentro de uma nação conservadora: não apenas sua sexualidade e afetividade não são a da maioria, como ela mantém intacto o ideal de viver como uma poeta. “Pensei,/ Bem, vou ser poeta./ O que poderia ser mais/ tolo e obscuro./ Virei lésbica.” E continua: “Todas as mulheres da minha/ família têm cara/ de sapatão, mas é de fato/ atentar contra a pátria/ quando você se torna uma”. Vale lembrar que Eileen Myles lançou uma candidatura independente à presidência dos Estados Unidos em 1992, como protesto. Foi em homenagem a ela, aliás, que a artista Zoe Leonard escreveu “I want a president…”. 

No fundo, os dois livros exitam em revelar o que a autora tem de melhor: a linguagem afiada, o humor autodepreciativo, o olhar que alia o deslumbramento infantil à exaustão de quem já viveu muitas décadas. Uma coragem desapaixonada, de falta de perspectiva associada a todos os sonhos já perdidos ou abandonados. Não é à toa que batizou o romance autobiográfico de Chelsea Girls.  

Quem escreveu esse texto

Camila von Holdefer

Crítica literária, é colaboradora do IMS e da Folha de S.Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #22 mai.2019 em abril de 2019.