Literatura,

Assim caminham as outras humanidades

Romance do prêmio Nobel Kazuo Ishiguro, sobre robô criada para ser ‘amiga artificial’ de crianças, questiona o significado de ser humano

01maio2021 - 02h42 | Edição #45

Klara e o Sol foi inicialmente concebido para crianças de cinco ou seis anos. Klara, a robô ou Amiga Artificial (AA), seria como uma boneca ou um urso de pelúcia. Entretanto, ao ler o manuscrito, a filha do autor, o prêmio Nobel Kazuo Ishiguro, que também é escritora, dissuadiu-o da ideia: a trama deixaria as crianças traumatizadas. O estilo quase infantil da narrativa, entretanto, foi mantido, mas longe de transformar o livro em um trabalho menor, revela-se perfeito para contar a sua história e para nos revelar o mundo de Klara. 

Como quase todos os romances de Ishiguro, publicados no Brasil pela Companhia das Letras, o livro é narrado em primeira pessoa. Entretanto, à diferença daqueles mais conhecidos, como Não me abandone jamais (2005) e Os vestígios do dia (1989), não se trata de um livro de memórias, em que o protagonista examina o passado para refletir sobre a situação presente. Klara se situa todo o tempo no presente, embora se torne nostálgica do passado no final de sua existência. 

Como AA, Klara foi projetada para fazer companhia a crianças e adolescentes que, no que parece ser um futuro próximo em alguma região dos Estados Unidos, se encontram cada vez mais solitárias, estudando em casa com professores particulares com os quais se relacionam através do computador. Entendemos que o mundo que habitam é em quase tudo semelhante àquele que conhecemos, a não ser pelo fato da presença desses robôs-companhia, que andam pelas ruas com as suas crianças, e pela rápida insinuação da existência de procedimentos genéticos aplicados às crianças para aumentar a sua inteligência, mesmo com risco de morte, tornando-as parte de uma outra casta, a dos “elevados”. 

Não se trata de um mundo distópico, como encontramos em livros de ficção científica, mas de um mundo levemente deslocado, de uma estranheza sutil, revelada por Klara e pelas personagens humanas que a cercam. Elas nos lembram que estamos diante de um robô toda vez que nos esquecemos disso e nos identificamos com Klara. É nesse jogo constante de perspectivas, dos chamados humanos e de Klara, que a trama se desenvolve. 

Desde a sua breve existência na loja de robôs, onde Klara espia a rua através da vitrine, até o momento em que é adotada por uma adolescente doente, Josie, Klara se dedica a aprender o mundo e o pensamento dos humanos — embora seja muito mais sabida do que eles em vários tópicos, como em inferir a idade das pessoas, por exemplo —, especialmente os de Josie, de modo a captar os seus gestos e jeito de falar, assim como os seus sentimentos. Com isso torna-se capaz não só de lhe fazer companhia, mas de se colocar em seu lugar, aperfeiçoando o que tentava fazer em relação aos motoristas de táxi briguentos que via da vitrine da loja. Sem conhecer o choro, por exemplo, Klara aguça os ouvidos ao perceber sons estranhos que saem do edredom de Josie: “Um barulho cantarolado vinha lá de dentro, como se ela estivesse tentando se lembrar de uma música e não quisesse perturbar o resto da casa”. 

Não se trata de um mundo distópico, mas de um mundo levemente deslocado, de uma estranheza sutil 

Embora não coma, não sinta cheiros e passe a noite em pé em um canto do quarto, Klara vai revelando uma capacidade de empatia e amor da qual os adultos que circulam apressados são desprovidos. Certo dia, a “Mãe”, como Klara se refere à mãe de Josie, lhe diz: “Às vezes não ter sentimentos deve ser bom. Eu te invejo”. Ao que Klara responde: “Acredito que tenho muitos sentimentos. Quanto mais eu observo, mais sentimentos ficam disponíveis para mim”. Somente Josie, desde o início, reconhece a humanidade de Klara. Os adultos oscilam entre tratá-la como pessoa e como máquina, o que se revela na observação da vizinha: “A gente nunca sabe como deve cumprimentar uma visita como você. Afinal de contas, dá para chamar você de visita? Ou é melhor tratar você como um aspirador de pó?”

Mundo dos outros

Não se trata, entretanto, de uma saga gradativa em busca de uma humanidade plena, a ser reconhecida ao final. Não é isso que os personagens de Ishiguro procuram ou almejam. Eles querem fazer aquilo para o qual foram feitos. O que fazem, ao longo das tramas que protagonizam, é acrescentar nuances ao seu mundo, complexificá-lo, sem fazê-lo coincidir com o mundo dos outros, o nosso. Ishiguro não está preocupado com finais felizes ou soluções redondas para os dilemas de seus personagens e talvez por isso a filha do autor tenha sugerido a inadequação do novo romance aos leitores infantis. 

Klara, assim como os protagonistas de outros livros de Ishiguro, atravessa muitas vezes, para lá e para cá, a linha imaginária que traçamos entre os humanos e os outros. Assim, embora se torne cada vez mais plena de sentimentos, volta e meia a sua constituição artificial vem à tona. Revela-nos, por exemplo, que a sua visão se expressa em cubos ou caixas, pelos quais se distribuem as paisagens ou as pessoas, que se veem divididas em olhos, bocas, narizes, corpos: “Percebi que o rosto da Mãe preenchia sozinho seis caixas, seus olhos apertados repetindo em três delas, cada vez de um ângulo diferente”.  

Na primeira vez em que vê uma cachoeira, ela constata: “Era maior e mais revolta do que aquela que eu vira na revista, preenchendo sozinha oito caixas”. Em uma bela descrição do pôr do sol, cada cubo se enche de diferentes cores, do mais amarelado ao mais escuro: “Vi que o céu tinha se subdividido em segmentos de forma irregular. Alguns dos segmentos tinham um brilho alaranjado ou rosa, enquanto outros mostravam pedaços do céu noturno, e num canto ou borda era possível ver partes da lua”.

O Sol, como revela o título, é também um personagem central, pois é dele que vem a energia que move Klara. Ela não o vê como um astro, mas, ao modo de alguns povos nativos, como uma pessoa-espírito, com poderes especiais e aberto a conversas e negociações. Klara passa os dias em busca de seus raios e, em um momento especial de crise, tenta convencer Sol a ajudá-la em sua missão de proteger Josie. Sol, assim como Klara, é um tipo de gente: tem gostos, idiossincrasias, sentimentos e uma casa onde vai dormir. 

Trata-se, portanto, de uma reflexão poderosa sobre o significado da humanidade e a pergunta central que o perpassa é: que é ser humano? Em Não me abandone jamais, livro que o próprio Ishiguro aproxima de Klara e o Sol, Kathy, a narradora, é um dos clones criados desde criança para que, quando adulta, possa se transformar em doadora de órgãos para a outra humanidade, aquela das pessoas ditas “normais”. Aparentemente estamos diante de simples adolescentes, que brigam, amam, estudam e se concentram na produção de objetos de arte. O seu mundo se restringe ao universo da escola-internato e ao que lhes é ensinado por seus guardiãesprofessores. Seus diálogos e ações soam corriqueiros, mas uma estranheza nos percorre todo o tempo, não porque sabemos que são clones, mas porque, em meio à normalidade adolescente, revelam, sobretudo em suas conversas entre si e com os guardiães, que vivem em um mundo à parte, recortado por uma moralidade que nos é totalmente estranha.

Essa vida em um mundo-bolha não deixa de lembrar um filme do qual sempre gostei, justamente por colocar em questão os limites da humanidade, em uma trama de aparência tão infantil como aquela de Klara e o Sol: O show de Truman. Nele, Truman (Jim Carrey) é criado desde bebê em um universo televisivo, em um reality do tipo Big Brother, e tudo o que sabe, o modo como nomeia as coisas e os sentimentos, lhe é ensinado pelos atores com os quais contracena sem saber. Um projeto de laboratório, tal como um clone ou um robô, embora aqui o artificial não seja representado pela pessoa, mas pelo mundo que a cerca. Uma espécie de inversão das tramas de Ishiguro e de exacerbação da noção de mundos paralelos.

Mas não nos limitemos à estranheza evidente de clones e robôs. Ishiguro nos mostra que as fronteiras daquilo que chamamos humanidade podem ser ainda mais sutis: pessoas sem memória do passado remoto ou recente, que habitam o mundo anglo-saxão da era do rei Arthur, como o casal idoso Axl e Beatrice, em O gigante enterrado (2015), são humanas? E um homem, como o mordomo Stevens, protagonista de Os vestígios do dia, que viveu fechado em mansões por toda a vida, sem conhecer nada além da pequena província onde vive, e é incapaz de expressar os seus sentimentos? Stevens é o inverso simétrico de Axl e Beatrice, que sentem amor e afeto plenamente, mas não sabem o porquê, pois não têm passado. O mordomo, ao contrário, transborda em memórias, mas é tão incapaz de lidar com os seus sentimentos que acaba por se confundir com a paisagem do país em que vive e que admira: “É a própria ausência de drama ou espetaculosidade óbvios que distingue a beleza de nossa terra”.  Daí a superioridade dos mordomos ingleses: “Os continentais são incapazes para o ofício, porque sua linhagem não convém à contenção emocional de que só a raça inglesa é capaz”.

Ishiguro nos mostra que as fronteiras daquilo que chamamos humanidade podem ser ainda mais sutis

A ideia de substituição é também central nas tramas de Ishiguro. O mordomo Stevens passa a ocupar o lugar de seu pai; Kathy, a clone, prepara os seus órgãos para servirem de substitutos aos órgãos envelhecidos dos humanos, e Klara é uma companheira substituta. Embora se tenha aludido ao filme Toy Story para falar de Klara e o Sol, o livro me remete a um outro filme, voltado a um público adulto e tão diferente de Toy Story quanto possível. Trata-se de Air Doll (Boneca inflável), do diretor japonês Kore-Eda. Nele, Nozomi, comprada por um homem frustrado no amor, sem saber por quê, vê-se subitamente dotada de movimentos e pensamentos, que acaba por atribuir à presença inesperada de uma alma: “E sem saber como, a alma se instalou no meu interior”. 

Assim como acontece com Klara, a sua energia vital parece vir do Sol: Nozomi costuma banhar-se nua à luz da manhã. Passa secretamente os seus dias perambulando pela cidade para, à noite, fingir ser boneca novamente, quando o dono-marido retorna do trabalho e se vale dela como companhia e parceira sexual.  Nozomi é o nome de sua antiga noiva, a quem a boneca serve de substituta. Mas saber disso não a incomoda e as suas palavras poderiam facilmente ser pronunciadas por Klara, suprimindo-se daí qualquer alusão sexual: “Não me importo em fazer o papel de substituta para alguém”.

Nozomi é criada para ser uma vagina substituta, implicando uma segmentação de seu corpo, do mesmo modo que os clones são celeiros de órgãos a ser doados separadamente. Descobrindo-se humana, Nozomi vai observando o mundo, nomeando as coisas, classificando as ações e palavras daqueles com quem passa a conviver, e assim permite ao espectador, como faz Ishiguro com os seus personagens, experimentar um mundo paralelo, gradativamente inventado e reinventado à medida que a trama se desenvolve. Uma cena tocante do filme é aquela em que Nozomi visita a fábrica na qual foi criada. Diante de uma pilha de bonecas descartadas após uma existência exterior, o criador, um rapaz de rabo de cavalo, diz: “Posso ver na cara delas se foram amadas. Isso significa que também têm alma”. 

A capacidade de amar perpassa vários dos livros de Ishiguro. Em Não me abandone jamais, um boato corre entre os clones de que os casais que se amam de verdade podem conseguir um “adiamento”, ou seja, um prazo maior antes de começarem as doações que vão necessariamente levá-los à morte. Em O gigante enterrado, o casal de idosos desmemoriados esforça-se por pensar em meios de provar que se amam para serem habilitados a atravessar juntos para uma ilha, conduzidos por um barqueiro que os submeterá a essa prova. Como provar o amor se não se tem memória do passado? Também em Klara e o Sol, o amor de Josie e Rick, o seu vizinho adolescente e companheiro diário, surge para Klara como uma possível moeda de troca para a negociação com Sol visando à cura de Josie.

Perspectiva indígena

Após dois meses de leitura ou releitura de quase todos os livros de Ishiguro e trinta anos trabalhando como antropóloga entre um povo indígena amazônico, sinto-me impactada com a semelhança do tratamento da questão da humanidade em universos tão distintos. Em ambos, a humanidade não é algo dado geneticamente e garantido desde o nascimento, mas uma posição, um modo de estar no mundo e cujas variações dependem da especificidade dos corpos. O que se tem ao final não são perspectivas distintas sobre um mesmo mundo, mas mundos diferentes, universos paralelos que se cruzam sem se misturar. 

Na Amazônia, esses mundos são habitados por animais que se sabem humanos e agem como tais, embora a sua humanidade não possa ser apreendida pela visão das pessoas comuns. Em Ishiguro, esses “outros que humanos” são o Sol, robôs, clones, pessoas desmemoriadas e mordomos empertigados. Ao nos permitir acessar os seus pontos de vista, transforma-nos em espécies de xamãs, aqueles que têm olhos estranhos, que podem ver o que os demais não podem: a humanidade dos Outros.

Quem escreveu esse texto

Aparecida Vilaça

Professora de antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora Ficções amazônicas (Todavia, 2022).

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.