Encontro de Leituras, Literatura,
As travessias do luto
Djaimilia Pereira de Almeida reescreve o livro inacabado do pai morto e a história de si mesma
14jul2025 • Atualizado em: 01ago2025Por décadas, o jornalista português Joaquim Pereira de Almeida comentou com pessoas próximas sobre o best-seller que estaria escrevendo. Quando ele morreu, sua filha, a escritora Djaimilia Pereira de Almeida, foi em busca das tais páginas e descobriu que elas só existiram na cabeça do pai.
O livro do meu pai, novo livro de Djaimilia, difere de vários trabalhos anteriores da escritora. Nele, a questão colonial, ou, antes, as histórias íntimas que se desenrolam nas ruínas do império português, não é um tópico central nem um pano de fundo, apesar de também estar lá. É sobretudo um livro sobre a perda do pai, o luto, a memória e tudo que a morte do patriarca significa para o entendimento que a própria autora tem de si e de sua história familiar.
O romance (se é que é possível classificá-lo assim) está dividido em quatro partes. Na primeira, lemos a história do livro de Joaquim, que se tornou a história não escrita da “vida mais vasta alguma vez vivida”. “Meu pai, meu estranho”, escreve Djaimilia logo na primeira página. Diante dessa dupla ausência, pai e livro se mostram um mistério quase intransponível. No luto, Djaimilia encontra um caminho: escrever o romance inacabado de Joaquim, escrever seu pai.
Sinto o meu pai em viagem, não o julgo bem chegado ao destino, mas a caminho de algum lugar que não sei onde é. Quase um ano após sua morte, o meu pai é o pressentir desse movimento, espírito não em repouso, mas em viagem.
Essa viagem se revela rapidamente uma viagem não apenas entre vida e morte, passado vivido e futuro interrompido, mas uma travessia cheia de idas e vindas entre Joaquim e Mila, narradora que a autora retoma de Esse cabelo (Todavia, 2022). A imaginação do pai se mistura a um questionamento sobre a própria filha e sobre a relação dos dois.
Depois de conhecer a “história de tudo” de Joaquim, é o momento de ler a loucura da filha, que por três meses perdeu a lucidez, recuperando-a “sem ter feito nada por isso”. A esta altura, o leitor mais assíduo de Djaimilia já terá identificado alguns de seus personagens e até frases de romances anteriores. Com a primazia própria aos melhores escritores, Djaimilia reúne gêneros, mistura vozes e agora dá pistas de onde vieram algumas de suas ficções. “Alguns leitores reconhecerão momentos deste livro: era aqui que pertenciam”, somos avisados nos créditos finais do livro.
A escritora reúne gêneros, mistura vozes e dá pistas de onde vieram algumas de suas ficções
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A segunda parte de O livro do meu pai trata de outro tema caro à obra da autora: a doença. Várias de suas personagens sofrem com algum tipo de enfermidade que as deixa imobilizadas ou que as faz perder em algum grau a consciência. Em Esse cabelo, Maria da Luz, a avó da protagonista, vive entre o quarto e a sala de casa, imobilizada depois de sofrer uma trombose. Em Luanda, Lisboa, Paraíso (Companhia das Letras, 2019), Glória, a mulher do parteiro Cartola de Sousa, se vê acamada depois de dar à luz o filho caçula do casal. Já em Maremoto, inédito no Brasil, a moradora de rua Fatinha é descrita como uma personagem profundamente triste, uma mulher “que se esqueceu de morrer” e tem dentro de si outra pessoa.
A doença funciona como uma sombra que dá contornos fantasmáticos a várias personagens femininas de Djaimilia. De certo modo, vemos esta operação se repetir em O livro do meu pai. Depois de sua perda de lucidez, Mila se torna uma mulher cindida em duas.
Sendo ela eu, tendo parte de mim sido engolida pelo silêncio, não sei sequer como posso chegar a dizer que a estranho. É como se dentro de uma pessoa nova estivesse uma outra, à beira de morrer.
Juntar os cacos
A travessia entre pai e filha abre espaço para a entrada de outro personagem na terceira parte do livro: Fidel, o filho adotivo dos avós de Mila que viveu com sua família materna em Angola, durante os anos 70, e de quem ela sabe muito pouco. O processo de reconstrução da história de Fidel se torna um reconstruir da própria Mila e de sua família:
Talvez o apelo de juntar os cacos da vida de Fidel e voltar a colá-los seja um impulso para apanhar do chão o que resta de mim e colar o que se partiu.
Os questionamentos sobre o passado de Fidel e sua chegada à família se misturam ao livro não escrito do pai e à doença de Mila, e aglutinam novas vozes e imagens: em páginas destacadas em itálico, lemos o relato da mãe da narradora sobre aquele que se considerava uma espécie de irmão mais velho de Mila, ainda que esta nunca tenha tido muito contato com ele.
A busca de Mila pela origem de Fidel (e de sua própria) se assemelha a um esforço já ensaiado em Esse cabelo, livro de estreia de Djaimilia. Talvez o livro do pai seja também o livro da autora, que contém todos seus livros anteriores, em fragmentos. Um livro-colagem de livros, de origens e de histórias: uma montagem — nada exprime melhor o processo da memória.
Embalado neste ir e vir do luto, o leitor chega à parte final, onde a autora questiona, uma derradeira vez, quem seria seu pai. Chega à conclusão de que nunca conheceu Joaquim verdadeiramente, apesar de seus inúmeros passeios e conversas e de se reconhecer cada vez mais nele. Mas será que alguém conhece de fato o próprio pai?
Djaimilia faz uma última incursão entre os mundos ocultos de Joaquim e se pergunta se a família terá sido a barreira entre ele e o livro. Se teria, de alguma maneira, representado um estorvo para o pai. Sem uma resposta certa para suas interrogações, acaba por aceitar que o pai é o livro inacabado e, como ele, está destinado a ficar no meio, a morrer cedo demais a ponto de não ter tempo de nascer (o livro) ou conhecer a velhice (o pai).
Joaquim começa o livro em viagem e é sua filha quem lhe dá um destino ao encerrar seu romance inacabado.
A voz de pai foi-se com as chamas. Sei que continuar me obriga a fechar seu livro e este livro. […] Podia escrever para sempre este livro, mas seria o mesmo que deixar o meu pai morrer para sempre. Para que ele ressuscite, é preciso que a sua voz cesse. É preciso que cesse o meu egoísmo de querer ouvi-lo para sempre.
As travessias do luto acabam quando Djaimilia decide dar um lugar novo a Joaquim, desembarcá-lo de vez nas páginas escritas, tirando-o do plano da memória pessoal, do mundo das ideias, e colocando-o eternamente em um livro que é talvez a mais poética das obras da escritora.
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