Literatura,

A ioga e a fofoca

Em ruptura com seu projeto literário e disputa com a ex-mulher, Emmanuel Carrère mescla testemunhos, reflexões, boatos e reportagem

01fev2023 - 04h51 | Edição #66

Quando publicou Ioga na França, em agosto de 2020, Emmanuel Carrère estava recém-separado de sua segunda esposa, Hélène Devynck — o divórcio acontecera em março. Hélène, que já havia aparecido como personagem em vários dos livros anteriores de Carrère, então estabelece em contrato que qualquer uso de sua vida na ficção do ex-marido deveria ter seu consentimento. Dias depois, quando fica sabendo da iminente publicação de Ioga e recebe o manuscrito, exige que cortes sejam feitos, não apenas das partes em que aparece, mas também da filha do casal como personagem. Carrère inicialmente resiste, depois publica uma versão em que acata muitas das mudanças, mas esta não agrada Hélène, que cogita uma ação judicial — que termina por não acontecer. “A má-fé venceu”, declarou ela em entrevista ao The New York Times.


Ioga, de Emmanuel Carrère

O escândalo parece ter tido um efeito duplo: alavancou as vendas, tornando-o um best-seller, mas tirou as chances de Carrère de avançar nas seleções de prêmios literários, especialmente o Médicis e o Goncourt. Para além dessas questões contextuais específicas, é inegável que o escândalo — quando passa a ser de conhecimento dos leitores — contagia de forma irremediável aquilo que Ioga apresenta como literatura, como reflexão narrativa sobre a subjetividade (suas fragilidades e patologias) e como entretenimento. É no espaço discursivo disputado pela fofoca, pela invasão de privacidade e pela reportagem que a “escrita de si” de Carrère viceja.

Em Ioga, como em outros de seus livros — Um romance russo (2007), Outras vidas que não a minha (2009) e Limonov (2011) —, Carrère costura a própria vida a fatos externos e eventos históricos, apresentando um projeto abortado como centro irradiador da fabulação: “Preciso começar por algum lugar o relato desses quatro anos, durante os quais tentei escrever um livrinho simpático e perspicaz sobre a ioga, enfrentei coisas tão pouco simpáticas e perspicazes quanto o terrorismo jihadista e a crise dos refugiados, mergulhei a tal ponto numa depressão melancólica que precisei ser internado por quatro meses no hospital Sainte-Anne e, por fim, perdi meu editor”.

Esse projeto abortado — um livrinho sobre ioga, despretensioso —, no entanto, está sempre presente, com frequência levado à superfície do relato. Representa um momento prévio, agora inacessível, no qual a vida era simples; um momento quimérico que se encontra no passado: “Tenho certeza de que, quando Deus está a fim de espairecer e dar uma boa gargalhada, ele olha para mim, sentado no meu zafu, acompanhando o fio da minha respiração, escaneando o interior das minhas narinas e ao mesmo tempo pensando no meu livrinho simpático e perspicaz sobre a ioga. No formato dele, seus capítulos, seus intertítulos”.

Carrère alia o ‘voyeurismo’ — o de Deus, o seu e o do leitor — ao desejo de esmiuçar as próprias manias e neuroses

Carrère alia o voyeurismo — o de Deus, o seu e o do leitor — ao desejo de esmiuçar obsessivamente as próprias manias e neuroses: “Desde que me tornei adulto, vejo a mim mesmo como alguém um pouco mais neurótico que a média, o que tornou a minha vida um pouco mais infeliz que a média, mas não me impediu de viver períodos de remissão, dos quais o mais longo, quase dez anos, é este cujo fim conto aqui”. O que agrega densidade estética à sua escrita é a consciência que tem dos caminhos que traça, das armadilhas narcísicas que absorve e transmite ao leitor; por isso o fascínio com a ioga e a meditação, ferramentas ambivalentes de exploração do “eu”.

Metamorfose

Carrère é também o primeiro a notar que seu projeto literário chegou a um ponto de ruptura, de metamorfose. A internação, o divórcio, o contrato pós-nupcial são todos sintomas de uma fissura que atinge a raiz de seu procedimento: “Não posso dizer deste livro o que com orgulho disse de muitos outros: ‘Tudo aqui é verdade’. Ao escrevê-lo, preciso deturpar um pouco, deslocar um pouco, apagar um pouco, principalmente apagar, porque sobre mim posso dizer o que eu quiser, inclusive as verdades menos lisonjeiras, mas sobre os outros, não”.

Nos melhores momentos do livro, a ioga surge como metáfora daquilo que pode vir a ser diferente: experimentar outros afetos, ter outras opiniões, escrever com a mão trocada, viver outra vida que não a sua — é a mesma função da oração católica em O reino (2014), que relata sua conversão nos anos 90. Também nesse ponto, Carrère acessa um desejo que alcança grande parte de seu público: o que é possível fazer para escapar das amarras da vida? Que recursos estão disponíveis para a transcendência?

Na elaboração narrativa, a ioga e a meditação atuam “no espaço infinito no interior de si”, ajudando a “escavar túneis, construir barragens, abrir vias de circulação, impelir algo a nascer”. Como a escrita, a ioga é um exercício de ampliação, de oxigenação da existência. Essa relação fica evidente na cena em que seu amigo e editor, Paul Otchakovsky-Laurens, descobre que ele escrevia usando apenas um dedo: “Você quer dizer que escreveu todos os seus livros, para não falar dos artigos e roteiros, com um dedo só?”. A incredulidade é jocosa, a descrição dá conta da ternura e da intimidade condensadas na revelação abrupta. Paul, falecido em um acidente de carro em janeiro de 2018, deixa como presente ao amigo uma sugestão que o leva à metamorfose, mais uma vez: “Sabe, se você aprender a datilografar, você não só vai escrever mais rápido, você vai escrever de outro jeito”.

Esse “outro jeito”, contudo, está reservado ao futuro, para outras obras do narrador, caso existam. Ioga marca um ponto de ruptura também no modo como é construído: uma colcha de retalhos, com fragmentos que nem sempre estão finamente costurados uns aos outros (talvez um testemunho da interferência de Hélène?) e uma exacerbação do procedimento de autocitação (Carrère faz várias menções a seus livros anteriores, reutilizando trechos). “Juntar tudo do começo ao fim é o primeiro trabalho que se faz ao montar um filme”, escreve. “Ninguém em sã consciência acredita que disso vai sair alguma coisa assistível — nem legível, no caso de um livro. E depois, uma vez superada a vontade de desistir de tudo, você começa, você junta, justapõe, corta, acrescenta, inverte, testa… Pouco a pouco essa espécie de magma começa a se parecer com alguma coisa, muitas vezes com alguma coisa que você não tinha previsto.” A forma do livro — sua tensa estrutura interna — replica seu tema profundo: identidade e memória são apenas elementos de uma colcha de retalhos, confeccionada ao longo da vida em uma espécie de exercício cotidiano, cujo desenho final será sempre inacessível ao tecelão. 

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).

Matéria publicada na edição impressa #66 em dezembro de 2022.