Literatura japonesa,

Cápsula do tempo

Livro sobre as agruras dos japoneses no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial ganha edição em português

21dez2022 - 21h14 | Edição #65

Em 10 de março de 1948, a polícia de São Paulo foi mobilizada para uma caçada. O alvo era um livro publicado em 1947, em língua japonesa, e que já estava na segunda edição. A obra circulava entre os imigrantes e seus descendentes. Agentes do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops) realizaram buscas em livrarias especializadas em publicações japonesas. A missão era apreender cerca de 1,2 mil exemplares que ainda restavam de um total de 5 mil livros, tiragem expressiva até nos dias de hoje. “E, ao serem transportados para o depósito da polícia, muitos exemplares iam caindo, pisoteados, capas e folhas rasgadas”, registraria o autor. “Sem saber, aqueles insensíveis carregadores estavam pisoteando um precioso trabalho, fruto de quatro anos de contínua pesquisa e dedicação”.

O autor da obra, o educador e jornalista Koichi Kishimoto, estava preso pela segunda vez na sede do Deops, que hoje abriga o Memorial da Resistência em São Paulo, e havia sido longamente interrogado antes da apreensão. As suas memórias do cárcere estão no livro que seria proibido alguns anos mais tarde: “Na monótona rotina da prisão, o café da manhã era servido às 8 horas, e o jantar, às 17 horas. Ninguém tinha sono. O tempo demorava para passar e nada havia que ajudasse a preencher o tempo ocioso”. Assim como alguns conterrâneos companheiros de detenção, ele respondia por acusações difusas, tais como a “prática de atos nocivos aos interesses nacionais”. O livro estava no centro do processo, com o agravante de que Kishimoto dirigia um internato e escola de língua japonesa, o Liceu Aurora. Qualquer manifestação cultural e social em língua japonesa estava proibida desde 1942, quando Brasil e Japão romperam relações diplomáticas por estarem em lados opostos na Segunda Guerra Mundial. Nas palavras de Koichi Kishimoto, havia “prisão para quem simplesmente conversava em japonês nas ruas, censura e apreensão de livros japoneses e até de cartas que continham qualquer palavra escrita em japonês; enfim, para o imigrante japonês era extremamente perigoso sair de casa”. E mesmo ficar em casa podia ser perigoso: a primeira prisão de Kishimoto foi por falar japonês com a família, em casa.

Japoneses eram vistos como espiões em potencial. O Estado fechou escolas, proibiu a circulação de periódicos, apreendeu equipamentos de rádio para evitar transmissões em japonês, deportou e deslocou internamente pessoas, obrigando-as a deixar o litoral e a vender imóveis e bens em poucos dias. “A bandeira japonesa e a insígnia imperial do crisântemo tiveram que ser recolhidas, e os 250 mil imigrantes japoneses ficaram completamente isolados e abandonados no Brasil, sem a proteção e os benefícios da pátria de origem”, narra o escritor.

Koichi Kishimoto passou anos assombrado por um processo judicial que o limitava em suas atividades profissionais e liberdade de expressão. O prontuário 10.590 do Deops, hoje no Arquivo Público do Estado de São Paulo, registra que o escritor, em seu livro, citado com o título original, Nanbei no Sen’ya ni Koritsu Shite, ataca o Brasil, “promovendo assim, uma campanha racial e de isolacionismo entre japoneses”. A sentença, lavrada em 21 de maio de 1957 — nove anos depois da apreensão dos exemplares pelas ruas de São Paulo —, condenou Kishimoto à “perda da cidadania brasileira e ao cancelamento de sua naturalização”.


Setenta e cinco anos depois, a obra ganha sua primeira tradução para o português e oferece a chance de entender por que Isolados em um território em guerra na América do Sul causou tanto incômodo

Publicar em japonês não era o único pecado de Kishimoto aos olhos do governo, já que o livro foi o único escrito em japonês de que se tem registro a sofrer censura pelo Deops. Setenta e cinco anos depois, a obra ganha sua primeira tradução para o português e oferece a chance de entender por que Isolados em um território em guerra na América do Sul causou tanto incômodo.

Neto do autor, Alexandre Kishimoto preparou as notas da edição. Ele contou à Quatro Cinco Um que o livro não só gerou desconforto público, mas também amarguras privadas. “Levou a muito sofrimento psíquico na minha família. Foi muito difícil para a minha avó, especialmente, e para os filhos mais velhos dos meus avós”, explicou. “Eles têm a lembrança de tudo o que aconteceu a partir da publicação, foi um processo muito arriscado, do início ao fim”.

Memórias

Kishimoto estava na primeira detenção quando começou a escrever. Os manuscritos eram camuflados em cantos da cela e transportados para fora com a ajuda da esposa dele, Hagino. Fundamental para a existência da obra, ela cuidava da casa e da administração do Liceu Aurora. Durante as visitas, entrava com comida e saía com folhas de relatos e memórias. Não apenas se arriscou, como protegeu os originais nas três vezes em que agentes da repressão promoveram batidas em busca de material subversivo. Kishimoto conta que na primeira vez ela enfiou os papéis em um buraco na parede e tapou com barro. Outra vez, escondeu-os sob a própria roupa, enquanto os homens procuravam pela casa. Na última, pôs a papelada embaixo da coberta de um dos filhos, que estava doente.

O livro foi escrito em 1943, no calor da hora. Os capítulos, curtos, são episódicos e muitas vezes informais, com a marca dos relatos que passam de boca em boca. Na intenção de denunciar as violações, histórias semelhantes se sucedem umas às outras.

Costurando percepções históricas com relatos pessoais, dimensiona as consequências da guerra

No prefácio à primeira edição, de 1947, o autor explicita o caráter testemunhal do livro: costurar suas percepções históricas com relatos pessoais foi a forma que encontrou de dimensionar as consequências da guerra para os japoneses no Brasil.

O senhor I., de 38 anos, por exemplo, vinha de Tóquio. De formação militar, sofreu uma sequência de infortúnios depois de mostrar aos vizinhos brasileiros uma foto em que aparecia ao lado de oficiais do exército japonês. Minoru Nakayama, jovem de 21 anos, foi vítima de um homem que dizia ser natural da Itália, outro país do Eixo, e tentou prendê-lo em flagrante induzindo-o a manifestar ideias nacionalistas. A Tinturaria Akiyama, na rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, foi palco da prisão de quatro pessoas, levadas por detetives truculentos que as flagraram ouvindo notícias em japonês pelo rádio.

O livro narra as dificuldades para fazer negócios com empresas inglesas e norte-americanas, em razão do boicote dos Aliados aos imigrantes: “É impressionante o poder de atuação dos capitais anglo-americanos no Brasil. Detendo praticamente o monopólio do transporte ferroviário, da geração de energia elétrica, das indústrias de transformação e de instituições financeiras, eles também exercem, nos bastidores, forte influência nos assuntos políticos do país”.

Cisão

As memórias de Kishimoto ajudam a entender a disputa em torno de um período fundamental na história da comunidade japonesa no Brasil após a Segunda Guerra Mundial, quando houve uma violenta cisão entre dois grupos. O jornalista não defendeu, como o acusaram à época, que os imigrantes abandonassem a vida brasileira e retornassem ao Japão. Em seus depoimentos, pelo contrário, ele argumenta que a residência permanente em território brasileiro é o futuro que se desenha no horizonte. Mas tampouco esconde o nacionalismo ao descrever episódios de repressão.

O fim da guerra aprofundou a polarização entre os nikkei. A rendição do Japão — formalizada em cerimônia a bordo do encouraçado USS Missouri em 2 de setembro de 1945, menos de um mês depois do lançamento de duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki — não era um consenso na comunidade japonesa no Brasil. Parte dos japoneses aderiu à teoria da conspiração segundo a qual a rendição seria falsa; na verdade, o Japão teria vencido a guerra. “Uma organização chamada Shindo Renmei, que havia sido formada durante a Guerra, foi a principal disseminadora da falsa versão da vitória do Japão na Guerra”, explica Jorge Okubaro na apresentação. Documentos sugerem que a organização chegou a ter 80 mil filiados em 1946.

As memórias retratam a formação militar japonesa, inclusive do próprio Kishimoto, que nasceu em 1898, em Shibata, província de Niigata, e serviu na Rússia e na China antes de vir parar no Brasil. A educação militarista era baseada em valores como o culto ao Imperador, considerado infalível — portanto invencível.

A adesão massiva a uma versão fantasiosa da história foi fruto de uma repressão social e cultural

Os imigrantes que apoiavam a teoria da conspiração da Shindo Renmei passaram a ser chamados de vitoristas, ou kachigumi. Os que estavam conscientes da realidade da rendição e da derrota do Japão e do Eixo eram os derrotistas, ou makegumi. A organização “não apenas criou uma séria divisão na comunidade, como levou a crimes de morte. Entre 7 de março de 1946 e 10 de janeiro de 1947, 23 pessoas foram assassinadas e 86 foram feridas. A maioria das vítimas (66 entre 109) era de pessoas esclarecidas, ou makegumi. A polícia atribuiu os crimes à Shindo Renmei e essa é a versão predominante até hoje”, conta Okubaro.

A história ganhou atenção ao ser contada pelo jornalista Fernando Morais em Corações sujos, que mais tarde baseou o filme de mesmo nome dirigido por Vicente Amorim. Escrito do ponto de vista de quem está dentro da comunidade nipo-brasileira, o livro de Kishimoto acrescenta camadas de compreensão sobre os motores da radicalização do grupo vitorista.

As denúncias abertas contra as autoridades brasileiras, que parte da comunidade evitava em busca de assimilação, contribuíram para que o livro fosse recebido como as confissões de um kachigumi. Mas ele se encaixaria com fragilidade em qualquer uma das facções. “Kishimoto se inclinava à tese da fixação permanente, e compreendia muito bem a realidade da derrota, uma postura intelectual bem própria da facção dos conscientes”, explica o jornalista Masayuki Fukasawa, que assina outro texto de apresentação.

O silêncio a que a comunidade era submetida e a falta de informação alimentavam a versão vitorista. Os comunicados oficiais eram vistos com desconfiança, assim como as manchetes de jornais, tidos como aliados do governo. Espalhar em japonês a versão consciente da derrota, para que os fatos alcançassem mais imigrantes, não era uma opção, já que as comunicações no idioma estavam proibidas.

O livro não foi escrito para justificar o comportamento nacionalista, mas indica que a adesão massiva a uma versão fantasiosa da história foi fruto, em grande medida, da repressão social e cultural imposta aos nikkei.

Curiosidade

A primeira tiragem, de 2 mil exemplares, esgotou em dez dias. A segunda, alvo da caçada do Deops, teve 5 mil, dos quais 3,8 mil foram vendidos em menos de três meses. Havia uma curiosidade em torno dos escritos daquele homem de difícil rotulação, e também dos argumentos que ele apresentava no intenso debate sobre o desfecho da guerra.

Na terceira edição, de 1962, sempre em japonês, um prefácio assinado por Koichi Kishimoto e incluído na tradução exalta a intenção de contribuir para que se saiba mais sobre a história dos japoneses que fizeram vida no Brasil: “Escrevi o livro registrando a realidade vivenciada pelos imigrantes durante a Guerra, com o objetivo de legar aos nossos descendentes o inabalável espírito de luta dos antepassados. Por isso descrevi os fatos tal como eles aconteceram, sem nada omitir, pois era a única forma de registrar a autêntica história da comunidade nikkei”.

O educador e jornalista reconhecia o valor do texto escrito. Quando comandava o Liceu Aurora, em Pinheiros, ainda na década de 1930, Kishimoto publicava o Gyosei Gakuen Kaihō, boletim semestral que começou com dezoito páginas destinadas aos pais dos estudantes e virou uma revista bimensal para leitores em geral.

Na década de 60, enquanto atuava na revista Kōya no Hoshi, feita na capital mas especialmente lida entre os imigrantes do interior paulista, fez reportagens em diferentes regiões do Brasil e da América do Sul majoritariamente sobre a vida dos nipo-brasileiros.

O legado de seu povo, conforme escreveu em Isolados “não deve ser transmitido apenas oralmente, nem jamais tratado como narrativa lendária. Cabe a nós a importante missão de legar aos jovens, por meio de registros históricos e textos literários, os aspectos reais dos acontecimentos abordados, com o máximo de rigor e profundidade”.

A repercussão acalorada e a grande procura entre os imigrantes não garantiram a permanência da obra na bibliografia corrente sobre a história da imigração japonesa no Brasil. O texto enfrentaria um apagamento contundente nas décadas seguintes. Há vinte anos, desde a primeira edição no Japão (2002), a família tentava fazer traduzir e publicar Isolados em um território em guerra na América do Sul. Kishmoto morreu em junho de 1977 sem ver seu livro vertido para o português.

‘Cabe a nós a importante missão de legar aos jovens os aspectos reais dos acontecimentos’

Filhos e netos foram às editoras. “Não havia os textos de apresentação ainda, acho que faltavam informações para que as editoras entendessem a importância da obra”, explica Alexandre. O idioma foi um obstáculo. “Quando a minha família começou a tentar, havia menos tradutores do japonês. Além de ser difícil atualizar e adaptar um livro da década de 40”, diz. “E o teor é muito sensível, há uma dificuldade de compreensão da mentalidade de quem escreveu a obra.” O livro enfim saiu em português em 2022, no centenário da chegada de Koichi ao Brasil.

O neto Alexandre vê os escritos do avô como cápsulas do tempo, em especial o livro publicado tardiamente no idioma dos brasileiros. “Nessa cápsula, estão experiências traumáticas, um conteúdo que não pode ser debatido com a serenidade que poderia ter sido”, avalia. “Mas que se faz extremamente relevante agora e não se restringe a uma questão de interesse dos nipo-brasileiros, interessa a toda a sociedade brasileira”.

Antropólogo e documentarista, Alexandre vê conexões profundas entre o livro e o momento atual do Brasil. Para ele, as denúncias do avô das violações de direitos civis são uma repetição do padrão que o país experimentou em toda a sua história, mas que, muitas vezes, têm outros grupos como alvo. “Conhecer essas memórias é uma tomada de consciência. Uma oportunidade para que nós da comunidade nipo-brasileira entendamos que já fomos uma minoria, já estivemos do lado oprimido. Eu considero muito importante que as novas gerações saibam disso e que, assim, não compactuem quando virem outros grupos da sociedade brasileira sendo oprimidos ou tendo seus direitos violados”, diz. Afinal, a América do Sul, ou ao menos o Brasil, ainda têm muito território em guerra.

Essa editoria tem apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Gabriela Mayer

Jornalista e crítica literária, criou o podcast Põe na Estante.

Matéria publicada na edição impressa #65 em outubro de 2022.