Literatura brasileira, Literatura infantojuvenil,

Molequices de Drummond

Reedições de livros infantojuvenis do poeta nos convocam a pensar e a viver a meninice um tanto anárquica dos anos 20

01out2022 - 04h51 | Edição #62

  
Ilustração de Mayara Lista [Divulgação]

Eu, que morei um par de anos em Belo Horizonte, nunca deixo de lembrar das histórias de Carlos Drummond de Andrade passando correndo por cima dos arcos do Viaduto de Santa Tereza (já viram a altura? é coisa de doido varrido!), ou de Drummond e Pedro Nava incendiando sem querer uma casa das meninas Vivacqua, meio que por pura farra. É um Drummond moleque, que na minha cabeça sempre aparece já com a calva do velho Drummond, com aquele seu jeito de se sentar olhando como que para o nada.

Neste ano a Record está publicando, talvez como um marco a mais das molequices drummondianas, duas reedições de obras infantojuvenis que mostram como a sua escrita tinha potência para tocar muita gente, como pode ainda hoje ter, independentemente da verdadeira marca de sucesso que se tornou o nome Carlos Drummond de Andrade. Ambos vêm com capas novas de Leandro Iccarino e ilustrações de Mayara Lista, em um empenho certeiro de, com um só gesto, guardar a historicidade do poeta e aproximá-lo de jogos do gosto contemporâneo. São tempos cruzados em reorganizar, reeditar, republicar livros que podem muito bem ser de hoje e para hoje.

Drummond pode ser lido por várias idades porque guarda em sua escrita um frescor tensionado

Os dois livros foram originalmente publicados em 1997. Enquanto Criança dagora é fogo chega, depois de 25 anos, à sua segunda edição; A cor de cada um já está na 15a. Apresentam-se despretensiosamente como livros de Drummond para o público infantojuvenil, mas isso tem lá seu quê de meia verdade, como parece ser quase tudo em torno de Drummond, que assim só mais interessa.

Público

De fato, os textos têm um prazer da linguagem, uma força de vida, um caráter indisciplinado e festivo, mesmo nos momentos de melancolia e solidão, que nos convocam a pensar e viver a meninice meio anárquica dos anos 20 (1900? 2000? tanto faz). Mas todos os textos reunidos nos dois livros são poemas e contos tirados de várias obras do autor, que não tinham especificamente um público-alvo infantojuvenil.

Daí que a mentira seja bem verdade: Drummond pode muito bem ser lido por várias idades, porque guarda em sua escrita esse frescor tensionado. É este que pode escrever, com toda a verdade: “E há em todas as consciências um cartaz amarelo: ‘Neste país é proibido sonhar’”. O escritor sabia muito bem que sonhar é imperativo, sobretudo em tempos sombrios.

  

A cor de cada um é dividido em três partes, que guardam uma coerência formal e temática. A primeira, “Mil novecentos e pouco”, como bem anuncia o nome, nos leva a imagens de um tempo em que o próprio Drummond, nascido em 1902, ainda seria criança ou adolescente. “Roendo o tempo”, a segunda parte, tem cenas variadas, como a do pavão, preso dentro do colégio, ele próprio um símbolo do enclausuramento das crianças. Por fim, a terceira parte, igualmente chamada “A cor de cada um”, reúne prosas drummondianas que são pequenas pérolas de poesia, às vezes ao sabor de um conto juvenil, outras com cara de quase crônica, ou ainda estranhas fábulas que nos deixam com uma pulga, ou pulgas aos punhados, atrás da orelha.

Criança dagora é fogo reúne dez textos em prosa que circulam concentradamente em cenas infantis das mais variadas; também híbrido na abordagem, porém em textos mais longos — o que dá um tempo bastante diverso a cada livro, uma espécie de cara singular, apesar dos pontos em comum. Isso não quer dizer que algo seja pacificado ou facilitado, para agradar a uma suposta ideia do que é um público infantojuvenil. E talvez aí resida o maior trunfo do livro: ele aceita crianças e jovens de todas as idades, porque confia nos pequenos como leitores argutos, que pensam e desdobram os textos em outras vidas.

Inquietação

Diante de um tempo tão cindido em disputas políticas que rasgam famílias ao meio, alguns versos parecem mesmo feitos para nós, agora agorinha, como na briga entre primos do poema “Rejeição”: “Pode pois uma família/ ser assim tão complicada/ que nós dois nos detestamos/ por sermos do mesmo sangue?/ Nossas paredes internas/ são forradas de aversão?”.

Isso tudo sem nos dar uma resolução fácil. Pelo contrário, o poeta se pergunta, na difícil arte de se colocar no lugar do outro: “Meu Deus, serei o meu primo,/ e a mesma coisa sentimos/ como se a sentisse o outro?”. Sim, uma pergunta que ecoa no pé das páginas. Essa inquietação traquina, somada a um pensamento que nunca parece satisfeito com um dado pronto, o tempo inteiro conduzida em uma linguagem que faz, sim, um deleite de doce fresco e é talvez a matéria mais fina que se possa esperar como um lugar de sonhos. Parece ainda uma utopia das boas lembrar, como diz o destino no conto “Na estrada”:Vai brincar, pois para isso nasceste”.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Guilherme Gontijo Flores

Poeta, tradutor e ensaísta, escreveu Brasa enganosa (Patuá), l’azur blasé (Kotter/Ateliê) e carvão : : capim (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.