Literatura infantojuvenil,

Almirante Negro em azul profundo

Líder da Revolta da Chibata, João Cândido criou na prisão bordados com desenhos delicados

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

O adeus do marujo é um dos livros mais lindos que já foram publicados no Brasil. Cada uma de suas ilustrações é uma obra-prima, uma elegia ao marujo João Cândido, que ficou para a história como o Almirante Negro, o mestre-sala dos mares. Um herói que nasceu em 1880, filho de um homem forro e uma mulher escravizada, em uma estância do Rio Grande do Sul, mas nasceu livre pois já vigia a Lei do Ventre Livre. Ingressou na Marinha em 1895, em uma das várias escolas de aprendizes espalhadas pelo litoral brasileiro, e fez carreira na instituição, tendo visitado diversos países. Marujo sagaz e experiente, em 1910, ele e seus companheiros tomaram os principais navios de guerra na Baía de Guanabara, em protesto contra os castigos físicos e a precariedade do serviço na Marinha.

Apesar de a faceta mais conhecida ser a de líder da Revolta da Chibata, o que mais tem chamado a atenção sobre a sua história nas últimas décadas são as toalhas de linho que bordou enquanto ficou preso. Delicadíssimos desenhos que há séculos fazem parte da iconografia marítima, mais conhecidos do grande público nas tatuagens: coração sangrando, andorinha levando mensagem, iniciais, datas, âncora, mãos se cumprimentando, a frase “O adeus do marujo”, que está sempre se despedindo…

Não é mera coincidência que ele, assim como outros marinheiros e o extraordinário Arthur Bispo do Rosário, um dos maiores artistas da história do Brasil, são bordadores. Os trabalhadores do mar, afinal, tinham de saber cuidar da própria roupa, das velas e outros tecidos do navio.

Bomfim faz brilhar numa história de sofrimento os lampejos de beleza que as histórias de luta têm

Os bordados de João Cândido foram expostos recentemente, na Bienal de São Paulo de 2019. Ali a artista e autora Flávia Bomfim os conheceu e neles se inspirou para criar uma sequência de delicadezas que ilustram a história. Ela escolheu várias fotos relacionadas ao mundo de João Cândido além de seus retratos moço e velho como pano de fundo — as imagens foram impressas em tecidos. A escolha da cianotipia não poderia ser melhor: trata-se de uma técnica de impressão fotográfica que, com a ajuda de uma solução fotossensível, tinge de azul as superfícies que entram em contato com a luz. O resultado é um azul profundo, também chamado azul da Prússia.

Sobre estes foram bordados variados desenhos relacionados ao mundo marítimo, criando uma narrativa iconográfica de um lirismo sem fim. A artista consegue fazer brilhar em uma história de sofrimento os lampejos de beleza que as histórias de luta têm. Em uma das imagens, as cicatrizes nas costas de um homem brutalmente chicoteado — na realidade, um escravizado estadunidense fotografado no século 19 — são o segundo plano para os continentes americano e africano, bordados com fios vermelhos (sangue). Ao mesmo tempo que pontos delimitam as terras, fios soltos pendem das margens e escorrem pelas costas do retratado, cobrindo suas feridas. A união desses dois continentes por um motivo trágico — o tráfico negreiro — enegreceu o que viria a ser chamado de Brasil, que se valeu da escravidão para se tornar o país que somos. Mas a população negra escolheu outras histórias para si, principalmente a da luta pela liberdade, como a de João Cândido. A autora homenageia o herói bordando sobre seus retratos passarinhos, arabescos, um farol, flores, estrelas, barquinhos e, na capa do livro, dos seus olhos saem raios amarelos fazendo jus a sua qualidade de visionário.

Simbolismos

A Revolta da Chibata, nome que Edmar Morel deu à Revolta dos Marinheiros de 1910, traz o peso do castigo físico, que não acabou nem mesmo depois do fim da escravidão. No Dia da Consciência Negra de 2008, o presidente Lula, sem representantes das Forças Armadas, fez uma homenagem a João Cândido, inaugurando uma estátua na Praça xv, no centro do Rio de Janeiro, onde o marujo, depois de expulso da Marinha, vendeu peixe. Poucos trabalhadores se tornaram heróis no Brasil, e também por isso a história de João Cândido tem de ser contada às novas gerações.

Poucos trabalhadores se tornaram heróis no Brasil e também por isso essa história tem de ser contada

O lirismo do livro, inspirado nos singelos bordados do Almirante Negro, é o que sobressai. Não é um livro só para crianças, mas de arte. Um livro para sonharmos um mundo menos cruel, mais livre e belo. Para de noite contarmos outras histórias do Brasil. E se o livro ficar na mesa de centro da sala, que as visitas, depois de o folhearem, levantem do sofá com o punho cerrado, como fizeram João Cândido e seus companheiros: “Viva a liberdade e abaixo a chibata!”.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Silvana Jeha

É autora de História da tatuagem no Brasil, publicado pela Veneta.

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.