Laut, Liberdade e Autoritarismo,

Uma inimiga do povo

Discurso populista critica o intelectualismo para moldar uma nova instância de produção da verdade

01abr2023 - 03h51 | Edição #68

A importância no debate público de termos como pós-verdade, fake news e desinformação, pouco conhecidos há uma década, faz a historiadora Sophia Rosenfeld pensar que a verdade se tornou um problema de primeira ordem no mundo contemporâneo. Nada é evidente nessa história. Para compreender como a verdade se tornou uma questão inquietante, Rosenfeld volta ao Iluminismo em seu Democracia e verdade: uma breve história.

O argumento do livro é que falamos da verdade como se a sua dissolução pusesse em risco a democracia por causa de uma certa imagem compartilhada daquilo que é o regime democrático. Democracia e verdade mostra como essa relação se plasmou no Iluminismo e tem perdurado até os nossos dias, quando muitos se perguntam como saber o que é verdade.

Rosenfeld está bem equipada para nos ajudar a encontrar respostas às nossas inquietações. Historiadora das ideias, ela escreveu A Revolution in Language: The Problem of Signs in Late Eighteenth-Century France (2001) e Common Sense: A Political History (2014). Publicado nos Estados Unidos em 2018, Democracia e verdade aparece como um ponto de confluência de seus estudos anteriores. Desafios que o mundo atual impõe à compreensão parecem ter suscitado a reunião do que, nos escritos da historiadora, eram análises separadas de duas dimensões constituintes da democracia: o intelectualismo e o populismo. Seu novo livro mostra que, no século 18, democracia e verdade se entrelaçaram de um e outro lado do Atlântico graças a pensadores como Jefferson, Paine, Diderot, Kant e Burke. Suas ideias serão uma espécie de costura da soberania popular com discursos sobre como acessar o real.

O discurso científico, das questões sanitárias às econômicas, é estranho à maioria

Rosenfeld analisa dois desses discursos, ambos ligados à sorte da democracia no mundo contemporâneo. Um é o intelectualismo, o discurso dos especialistas: suas principais instâncias de produção são as universidades, os centros de pesquisa e os meios de comunicação. O outro é o populismo, que apela a um corpo de conhecimentos formados a partir das práticas das “pessoas comuns”. Mais do que se distinguirem em termos de valores, intelectualismo e populismo validam instâncias distintas e, em algum grau, concorrentes de produção da verdade.

Parte da inquietação que o presente suscita está relacionada às disputas envolvendo o lugar dessas instâncias na democracia moderna. O problema é antigo, mas se reconfigura quando ganha força a reclamação iluminista de autoridade para o discurso que se constitui na prática da avaliação pública — isto é, na crítica de crenças e dogmas. Como o intelectual se define pela prática da crítica, e a princípio todos estão aptos a ela, a ampliação dos participantes na política não jogaria necessariamente contra a verdade.

A reclamação de autoridade para o discurso dos intelectuais no regime democrático se torna uma questão política quando a transformação do mundo pelo capitalismo confere autoridade ao conhecimento científico e contribui para sua instalação no aparato estatal. Instaura-se então uma tensão crescente entre democracia e burocracia, que tenderá a ser tanto maior quanto mais centrado no saber científico o mundo se tornar.

Qual versão?

Para abordar essa tensão, Rosenfeld retorna à distinção de Hannah Arendt entre verdade lógica e verdade factual. No pensamento arendtiano, a verdade lógica é imutável e atemporal. A verdade factual, por sua vez, é empírica e histórica. Rosenfeld se ocupa fundamentalmente desse segundo tipo de verdade, que consiste em um consenso tênue, um entendimento mínimo acerca do que pessoas diferentemente situadas percebem como real. À verdade factual Arendt contrapõe tanto o engodo e a mentira quanto a falsidade e a inverdade, e percebe uma fragilidade, que reside no fato de ela ser uma construção social e precária.

A ciência, como a moral, é uma dimensão da vida social, mas o discurso científico, das questões sanitárias às econômicas, é estranho à maioria: enquanto as pessoas constroem suas percepções e entendimentos numa instância de sentidos compartilhados — o senso comum —, os especialistas habitam uma instância de sentidos incomuns, isto é, não compartilhados. Não espanta, portanto, que para leigos as falas públicas dos especialistas soem nonsense, ao passo que especialistas não costumam reconhecer no senso comum uma instância de conhecimento com a qual interagir. Haveria um potencial absolutista na tecnocracia, que não autoriza descartar os especialistas mas justifica estabelecer-lhe limites.

Mas também há riscos no populismo, “uma estrutura narrativa” que apela ao senso comum para autorizar a própria fala e modelá-la como instância de produção de verdade. É uma forma de comunicação que vários políticos usam sem necessariamente corromper a democracia, mas que pode acabar conferindo autoridade absoluta a um discurso que não só vocaliza a crítica ao intelectualismo, mas é anti-intectualista, ou ainda: absolutista.

Levadas ao paroxismo, nenhuma das posturas acima é compatível com a mitologia da verdade na democracia. Uma lição do século 20 é que o espaço entre as duas instâncias tende a ser uma questão política especialmente crítica quando o discurso dos especialistas impacta o cotidiano e soluciona insuficientemente seus problemas. O populismo pode adquirir então um teor conspiratório (contra o establishment ou o “globalismo”) e portar uma promessa de redenção pelo passado.

No século 21, os meios digitais de comunicação e os celulares ampliaram tanto as possibilidades de emprestar plausibilidade à ficção quanto os estímulos para tornar ficção a própria realidade. O problema não são só os incrementados recursos para organizar a mentira, mas também as oportunidades abertas para borrar crescentemente as fronteiras entre ficção e realidade, que a “comunicação equívoca” de Trump e Bolsonaro explora. Como estrutura narrativa, o populismo se define primordialmente por ser uma forma de comunicação.

Democracia e verdade mostra com rigor que o modo como temos imaginado a relação entre verdade e soberania popular supõe uma estrutura narrativa minimalista na qual “a verdade é distinta da falsidade”, “essa diferença importa” e a verdade é construída a partir de perspectivas plurais. O antipluralismo do populismo autoritário é, assim, de ordem epistêmico-moral e se contrapõe à mitologia da verdade associada ao imaginário democrático. “A pós-verdade”, diz Rosenfeld, “é, no fundo, uma luta sobre pessoas como portadoras da autoridade epistêmica e sobre seus diferentes métodos de investigação e verificação numa era intensivamente partidária”.

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Renata Nagamine

É professora da UFBA.

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.