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Ainda vivemos em um mundo hobbesiano?

Professor de Cambridge reelabora criticamente a história do pensamento político a partir do autor do 'Leviatã'

18jan2024 - 15h13 • 20mar2024 - 17h47 | Edição #78

Se quisermos contar a história do pensamento político moderno, de onde deveremos partir? De Maquiavel e da abordagem realista da política? Das teorias do contrato social e da noção de indivíduo? Das revoluções do final do século 18 e das ideias de democracia, Constituição, Estado de Direito, direitos humanos?

David Runciman, professor de política na Universidade de Cambridge, não tem dúvida: essa história deve partir da ideia moderna de Estado, tal como formulada por Thomas Hobbes em meados do século 17. Ela serve de fio condutor para a história narrada em Confrontando o Leviatã: uma história do pensamento político moderno. O livro é derivado do podcast de sucesso History of Ideas, gravado em 2020, no contexto de lockdown decretado por causa da pandemia de Covid-19 — situação que leva o autor a refletir sobre os poderes imensos que continuamos a transferir ao Estado em nome de nossa segurança, em pleno século 21.


Em Confrontando o Leviatã, David Runciman dialoga com críticos do Estado moderno e argumenta que sua duplicidade ainda é importante para enfrentar os desafios contemporâneos

Runciman parte de Hobbes para introduzir outros doze pensadores políticos do final do século 18 ao final do século 20. A lista mescla autores do cânone tradicional da teoria política a pensadores que fogem do padrão branco, europeu e masculino que o hegemonizou por muito tempo. Também combina teóricos de direita, de esquerda e de centro; e perpassa temas que vão do feminismo ao Romantismo, da descolonização ao mercado. A escrita envolvente de Runciman consegue introduzir os autores a quem ainda não os conhece e suscitar reflexões novas a quem já tem familiaridade com eles.

Embora cada capítulo possa ser lido isoladamente como uma introdução ao autor em questão, é a narrativa do livro como um todo que interessa mais. Hobbes é considerado o fundador da política moderna por ter superado o modelo pré-moderno do “ou/ou” — “seu rei ou meu parlamento, seu papa ou minha Igreja” — pela figura unificadora e impessoal do Estado, que Runciman caracteriza pela ideia de duplicidade: a mesma autoridade que garante que possamos viver em paz pode nos ameaçar.

Essa ideia de Hobbes teria aberto o caminho para o liberalismo de Benjamin Constant, centrado na liberdade individual e na ideia de que é preciso exercer controle sobre o Estado para evitar suas arbitrariedades. E a representação política, central para a ideia hobbesiana, teria permitido a emergência da democracia moderna naquilo que ela tem de diferente da antiga.

Críticos contundentes

A partir de Marx e Engels, Runciman começa a explorar a história de um século e meio de críticas contundentes ao Estado moderno. Para os autores do Manifesto do Partido Comunista, sua duplicidade seria uma mentira e não passaria de um instrumento de coerção da classe dominante. Gandhi destaca seu caráter mecânico e artificial. Em Friedrich Hayek, aparece a ideia de que o Estado distorce o conhecimento imparcial que só o mercado pode fornecer. Hannah Arendt acusa Hobbes de ter reduzido a ação à fabricação, limitando o intercâmbio criativo entre os homens. Frantz Fanon acredita, como Marx e Engels, que o Estado moderno é pura coerção, mas apenas a experiência dos colonizados, não a dos trabalhadores europeus, permitiria enxergar essa verdade. Catharine MacKinnon sustenta que, ao se apresentar como detentor do monopólio da violência legítima e tolerar a praticada contra as mulheres no espaço privado, o Estado legitima essa violência.

Runciman dialoga criticamente com esses críticos do Estado moderno, argumentando que sua duplicidade ainda é importante para enfrentar os desafios contemporâneos. Contra Marx e Engels, defende que é o melhor instrumento que temos para lidar com as crises do capitalismo. Aos hayekianos, afirma que o planejamento estatal é necessário para enfrentar a mudança climática, pois o ceticismo do próprio Hayek não permitiria assegurar que o mercado encontrará uma solução. Em resposta a Arendt, sustenta que o Estado não ficará ao lado das máquinas e é o único instrumento dos humanos para controlar a inteligência artificial.

No capítulo final, o autor critica a tese de Francis Fukuyama sobre o “fim da história”, estendendo a crítica à versão mais recente dessa tese por Yuval Noah Harari, que teme que a inteligência artificial coloque um fim à história como mediação humana. Runciman rejeita a ideia por acreditar que ainda vivemos num mundo hobbesiano, em que essa mediação é feita por Estados que tomam decisões por nós. O confinamento na pandemia é usado como demonstração desse poder de vida e de morte.

Runciman parte de Hobbes para introduzir doze pensadores políticos do século 18 ao 20

Uma ponderação sobre o raciocínio de Runciman pode ser feita a partir do contraste entre a experiência da pandemia vivida por ele, no Reino Unido, e a vivida no Brasil. Aqui não tivemos um Estado que, por meio de seu poder reconhecido por todos, obrigou os cidadãos a ficar em casa para se proteger. O presidente da República se comportou como o líder de uma das facções em que se divide a sociedade brasileira contemporânea. Era como se o cidadão não tivesse uma autoridade impessoal que impusesse uma lei para todos. Se pertencesse à facção X, a instrução era seguir a vida normal e não tomar a vacina. Se fizesse parte da Y, devia praticar o confinamento e se vacinar. A impressão era de que havíamos voltado ao mundo pré-moderno do “ou/ou”: ou minha facção ou a sua.

A questão é que o mundo moderno não é apenas hobbesiano. Runciman está correto ao afirmar que o Estado moderno abriu caminho para o liberalismo, que por sua vez abriu caminho para a democracia tal como a conhecemos. Mas o liberalismo passa também por uma inversão da lógica hobbesiana. 

Para Hobbes, é a criação do Estado que faz nascer a sociedade por um ato voluntário. O liberalismo do fim do século 18 se caracteriza, pelo contrário, pela descoberta de uma sociedade que tem consistência própria. Ao longo dos séculos 19 e 20, percebeu-se que as divisões internas à sociedade são um princípio de coesão social, e a democracia passou a ser compreendida como a expressão política dessas divisões.

Nesse mundo, nem sempre o Estado aparece como o representante reconhecido por todos para tomar decisões. Às vezes, é a divisão da sociedade que rouba a cena do Leviatã.

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Felipe Freller

Cientista político, é autor de O que herdamos de 1789? (Alameda, 2022).

Matéria publicada na edição impressa #78 em dezembro de 2023.