Literatura,

Testemunho de um fascista arrependido

Racista, misógino e homofóbico, italiano escreveu romance grandioso sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial

31maio2019 - 22h00 | Edição #23 jun.2019

Se a publicação de determinado livro por uma editora exige coragem, é provável que também exija um cuidado extra. É o caso de A pele, romance do italiano Curzio Malaparte. A Autêntica acertou ao abrir mão do sensacionalismo em prol da sobriedade, mas errou ao renunciar à possibilidade de examinar o conteúdo da narrativa. Muita coisa mudou desde 1949, ano de lançamento original do livro, e 1962, ano da primeira versão em português pela Civilização Brasileira. É incompreensível a ausência de qualquer texto de apoio que apresente ou analise A pele, que pede (no mínimo) a retomada da trajetória de Malaparte, a contextualização de alguns fatos históricos e a avaliação de certas mudanças sociais e políticas transcorridas desde a segunda metade do século passado. Em uma decisão que me parece injustificável, mesmo os textos de orelha omitem dados importantes da biografia do autor. Por que a editora prefere se esquivar da palavra fascismo, quando o melhor seria partir para uma discussão aberta?

A Autêntica disponibilizou os explosivos, mas não ensinou o leitor a manipulá-los. Sobra para os resenhistas, que não têm treinamento no esquadrão antibombas. 

A pele poderia se ajustar à definição atual de autoficção: o pseudônimo Curzio Malaparte serve tanto para o autor quanto para o narrador. Nascido na Toscana em 1898, filho de pai alemão, Kurt Erich Sückert adotou este que é um trocadilho com Napoleão Bonaparte, que significa, em italiano, “a parte boa”. Malaparte — a “parte má”, como passou a assinar a partir de 1925 — foi cineasta, diplomata e jornalista. Embora tenha apoiado Mussolini, manteve uma relação conflituosa com o fascismo. Depois de 1945, aproximou-se dos comunistas. No mesmo período, abandonou o ateísmo em favor do catolicismo.

Reforçando as relações autobiográficas, em A pele há pelo menos duas referências diretas a Kaputt — romance anterior do autor, também sobre a Segunda Guerra. O ponto de partida de A pele é outubro de 1943, quando da libertação de Nápoles pelos soldados norte-americanos. A tensão entre os exércitos é reforçada pela complexidade e ambivalência da situação. Malaparte, o narrador, agora é um oficial de ligação que deve orientar os companheiros italianos a “ir vencer com os Aliados a mesma guerra que tínhamos já perdido com os alemães”. Ele é acolhido como um velho camarada, o que torna a posição assumida ainda mais difícil. Malaparte se sente “ao mesmo tempo oprimido, destruído, fuzilado, invadido, libertado”, e também “covarde e herói, amigo e inimigo, vencido e vencedor”.

O pseudônimo é um trocadilho com Napoleão Bonaparte: Malaparte, a ‘parte má’

A posição junto aos Aliados garante que Malaparte não seja mais um italiano faminto como milhares de outros, mantendo a chamada “peste moral” afastada — A peste era o título original dado por Malaparte, alterado para A pele por causa do romance de Albert Camus. A prostituição toma conta de ruelas e becos. “Os soldados americanos acreditam comprar uma mulher, e compram sua fome”, escreve. A situação dolorosa não impede que o narrador faça uma série de piadas, cujos alvos são sobretudo os estrangeiros. No início, é esse humor deslocado que torna difícil separar o discurso irônico do sério. “Você é o primeiro a sofrer com o que diz”, observa um general norte-americano, que não acredita que Malaparte seja um cínico. O tom fica mais grave à medida que a narrativa avança, e as piadas escasseiam pouco a pouco.

As poucas que persistem continuam a ter os norte-americanos como alvo preferencial. Malaparte zomba, ainda que com afeto, do que vê como um país sem história. É impagável a cena em que o mesmo general entra em Roma e, depois de contemplar as ruínas do Coliseu, grita: “Os nossos bombardeiros trabalharam bem!”.

O Dalí da carnificina

A pele é composto basicamente de episódios soltos, dois ou três inconclusos. Quase todo cenário remete a algum pintor, e as próprias cenas são apresentadas como uma pintura. Mesmo privilegiando as cores, Malaparte não negligencia os sabores, odores, sons e texturas. A despeito das descrições detalhadas, há um quê de roteiro em algumas cenas e diálogos. 

As andanças pela Nápoles ocupada levam Malaparte a refletir e a recordar, como no trecho em que lembra do fiel cachorro que adotou e que morreu de modo trágico. Malaparte vai do realismo mais cru a uma combinação de procedimentos que desdenham ferozmente da verossimilhança. Uma cena que se passa na Ucrânia, por exemplo, é mero produto do estado febril do narrador. O mesmo acontece nas páginas finais, quando há uma… bem, uma convenção de fetos em formol à qual um Mussolini que já habita a eternidade chega capengando. Várias passagens interrogam, digamos, os limites do grotesco, como no almoço em que o general norte-americano serve aos convidados uma menina sereia assada. Ela é peixe ou ser humano? Da bandeja, seus olhos miram uma pintura marinha no teto do palacete napolitano. Para Malaparte, “era aquele o seu mar, era aquela a sua pátria perdida, o país dos seus sonhos, o feliz reino das sereias”. Bom apetite. 

Há uma cena curiosa que ajuda a explicar o funcionamento da imaginação de Malaparte. Durante outro almoço, desta vez ao ar livre, chega a notícia de que um dos soldados responsáveis pela comida acaba de ter a mão decepada por uma mina. Malaparte, que naquele momento é instado pelos companheiros a responder quanto há de invenção nos seus livros anteriores, finge que a mão do soldado caiu na caçarola do cozido, indo parar no próprio prato. Ele inventa que a comeu, juntando ossos de carneiro para parecer falanges. Muitos acreditam.

Mais do que a maneira como o autor manipula o que vê e ouve, o que poderia ser discutido em textos de apoio é a razão pela qual, em virtude de algumas transformações fundamentais, certas passagens são tão indigestas para o leitor contemporâneo quanto as que levaram à censura do livro na década de 1950 (A pele integrou o índex dos livros proibidos pela Congregação do Santo Ofício). Na Nápoles ocupada, por exemplo, soldados norte-americanos negros eram vistos como mercadoria, graças à possibilidade de extorqui-los para obter comida e outros bens. “Não havia família napolitana, por mais pobre, que não possuísse o seu escravo negro.” 

Os homossexuais do sexo masculino, a quem Malaparte chama de “invertidos”, são tema de vários episódios — um deles descrevendo um ritual bizarro que acaba com um soldado norte-americano chutando rapazes que enxerga como depravados e efeminados. “Nos jovens, a corrupção dos costumes é tanto um fato moral quanto fisiológico, e extrapola facilmente em anormalidade. O seu aspecto mais frequente é a homossexualidade”, diz o narrador. Mais do que uma consequência, a homossexualidade era “um anúncio, uma premissa da guerra”. Há “a internacional dos invertidos”, a “pederastia marxista”, mais ou menos como se a homossexualidade “fosse uma indispensável iniciação às ideias comunistas”. E não para por aí. Logo surge a misoginia. Os homossexuais têm “a crueldade da mulher”, além de “um quê de patético, de sentimental, um quê de doce e de falso que a mulher introduz furtivamente na natureza humana”. 

É como se Malaparte tornasse a preceder Camus em alguns meses, mas em O homem revoltado — os dândis, que aqui predavam jovens proletários famintos, são citados várias vezes. Da geração de Malaparte, “forte, corajosa, viril, de homens formados na guerra, na luta civil”, nasceu, portanto, “uma geração assim corrompida”. Não há valores a ostentar e sustentar. 

Isso não impede que Malaparte seja, na confusão da guerra, contraditório. Em dado momento, ele se sente obrigado a distrair, com piadas e histórias, um jovem moribundo da dor que sente. “Caso se tratasse de bancar o palhaço para salvar a pátria, a humanidade, a liberdade, eu teria recusado.” Mas era o caso “de não fazer sofrer um homem”, e portanto ele aceita. 

De forma ora irônica, ora séria, Malaparte enxerga um único valor pelo qual os homens estão dispostos a lutar: a pele. Antes os homens eram “capazes de todas as grandezas e de todas as infâmias para salvar a alma. Não a própria alma somente, mas também a dos outros. Hoje se sofre e se faz sofrer, se mata e se morre […] não mais para salvar a própria alma, mas para salvar a própria pele”. É o mesmo espírito que leva o autor a ver na guerra uma guerra contra Cristo. “É a civilização moderna, esta civilização sem Deus, que obriga os homens a dar uma tal importância à própria pele. […] De seguro, de tangível, de inegável, não há senão a pele.” No final, diz que “nossa verdadeira pátria é a nossa pele”. É a “pátria de todos os povos, de todos os homens”. 

Também por isso Nápoles é um cenário tão adequado ao livro. “Não é uma cidade: é um mundo. O mundo antigo, pré-cristão, deixado intacto na superfície do mundo moderno.” Na esteira desse mundo pré-cristão, a natureza surge em A pele como entidade acima de tudo maligna. Para Malaparte, “aquela natureza não é cristã”, como “aquela paisagem não é a face de Cristo, mas a imagem de um mundo sem Deus, onde os homens são deixados apenas a sofrer sem esperança”. É durante a erupção do Vesúvio de 1944, em plena Semana Santa — na qual “a plebe” enxerga uma punição divina —, que os soldados norte-americanos e europeus são finalmente igualados, alterando o equilíbrio entre vencedores e vencidos. Estavam todos “em poder da fúria cega da natureza”. 

Negros são mercadorias, homossexuais são ‘invertidos’. Mas o que fica é o esforço em encontrar o que há de humano em meio a tanto sofrimento

É, finalmente, dentro da própria pele que os homens se igualam. Depois de quatro anos, Malaparte não aguenta mais ver pessoas sendo mortas. “Para entender em que abismo de desespero possa cair um homem, carece entender o que significa odiar os cadáveres.” Os mortos são os estrangeiros, “os verdadeiros estrangeiros na pátria comum de todos os homens vivos”.

“Não me envergonho do fato de ser um homem do meu tempo”, escreve Malaparte. É uma boa explicação para o que nos causa desconforto em A pele: o romance, mesmo transcendendo a própria época, como todos os bons livros, foi escrito por um homem de seu tempo. Daí o estranhamento com a recusa da editora em tentar construir uma ponte para que os leitores possam transitar com mais liberdade entre aquele mundo e o nosso. O que fica, acima de tudo, é o sofrimento visível de Malaparte: a perplexidade, o esforço para encontrar e reter o que há de humano, bom e mau, numa época tão extrema. A grandiosidade do testemunho que legou é inquestionável.  

Quem escreveu esse texto

Camila von Holdefer

Crítica literária, é colaboradora do IMS e da Folha de S.Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #23 jun.2019 em maio de 2019.