Literatura japonesa,

Dias de abandono

Quadrinho japonês mostra como crianças de um orfanato buscam escapar de uma realidade difícil em um carro quebrado

01ago2020 - 01h00 | Edição #36 ago.2020

Na crítica e na teoria de quadrinhos, fala-se muito de como o autor pode controlar o ritmo de leitura. Não controlar o olho e o cérebro do leitor, veja bem, pois os leitores leem do jeito que quiserem. Quando se fala em controlar o ritmo, pensa-se no impacto alternado entre cada elemento do quadrinho — cada quadro, cada fala, cada desenho — e na busca de uma reação diferente do leitor a cada percurso ocular.

Isso se faz com fundamentos de linguagem visual, com variação na quantidade de texto de quadro a quadro, com variação do tamanho dos quadros, com contrastes entre grandes panoramas ou pequenas singelezas, com a virada de página. Não há como prever quanto tempo cada olho vai se deter em cada quadro, mas há como deixar uma imagem mais marcada que outras, como fazer esta perdurar mais do que aquela na memória. Tal como um desenho de página inteira após uma página quadriculada é uma mudança de marcha.

É no quadrinho japonês que sempre se encontram exemplos fáceis dessa aplicação de ritmos e impactos. Talvez graças à familiaridade com os ideogramas, a narrativa quadriculada dos japoneses acumulou ferramentas tanto para sugerir velocidade nas histórias de ação quanto para sugerir contemplação nos melodramas. O tempo corre ou se dilata no espaço físico da página a partir de composições, de ângulos e de traços escolhidos com minúcia.

Depois de décadas aperfeiçoando essas ferramentas de narrativa é que se chega a uma obra como Sunny, de Taiyo Matsumoto. E se veem estas ferramentas aplicadas a uma história singela — parcialmente autobiográfica — sobre infância e abandono.

O cenário é o Jardim Escola Hoshinoko, uma espécie de casa de acolhimento onde vivem órfãos e, em sua maioria, crianças cujos pais não podem criá-las — por falta de recursos, por alcoolismo ou sabe-se lá por quê. Cada acolhido ali tem sua história, sua personalidade e sua reação ao desligamento dos pais.

Abandono é um tema mencionado poucas vezes nas histórias, mas paira sobre todas elas

Sunny não é um dos personagens, muito menos um estado de espírito “ensolarado” (se for, é ironia). É um Nissan Sunny 1200 amarelo, estragado e eternamente estacionado no quintal do Jardim Escola. É o carro “onde os adultos não entram” e onde você “segura o volante, fecha os olhos e pensa no lugar que quer ir”. No Sunny, as crianças podem ir para a Lua, podem ser pistoleiras solitárias fugindo da polícia, podem brincar de táxi. Mas a maior fantasia no carro da imaginação é poder voltar para casa e encontrar uma mãe ou um pai.

Fugir do tema

O primeiro volume (de três) tem doze histórias e começa com um clichê: a chegada do novo elemento. O garoto Sei é deixado pelos pais, mas avisa aos novos colegas: “Eu vou sair daqui logo. Vou voltar para casa. A mamãe me disse que vem me buscar antes do verão”. Haruo — o garoto de cabelos brancos precoces que posa de cool com seus óculos escuros — lhe avisa: “Se liga, ô mané. Para de sonhar. Não vai voltar. Você foi abandonado.”

Abandono é um tema mencionado poucas vezes nas histórias, mas paira sobre todas elas. Está nas atitudes das crianças, numa mancha de xixi no lençol pendurado no varal, no garoto que anda com uma lata de creme Nivea. Está no ritmo que a história toma, com uma quadriculação atabalhoada e ângulos que dificultam entender o que se passa. A maioria dos diálogos aponta para todos os lados, menos para o tema. Toda vez que as crianças brincam entre si, ou cantam, ou falam de nulidades com outros adultos, é como se quisessem encobrir a saudade que cada uma tem dos pais e de casa. Quando se toca no tema do abandono, acontece uma irrupção, uma explosão. Como Haruo chorando e de nariz escorrendo, berrando que quer voltar a morar com a mãe — a que usa creme Nivea.
 
Ritmo próprio

O naturalismo de Matsumoto é ferrenho. Não há recordatório algum para indicar local, época ou passagem de tempo. A partir de algumas notas de rodapé da edição nacional, supõe-se que estamos em uma cidade japonesa nos anos 1970. Quando Haruo se arrepende da birra com a mãe, ele canta a música-tema da série Super-Robot Mach Baron (1974-75):
“Sonho para que deixe de ser uma máquina de combate”.

Em entrevista ao Japan Times, o autor (nascido em 1967) disse que os personagens são “70% baseados na realidade” e que pediu permissão dos pais para contar a história, pois tinha medo de ofendê-los. Matsumoto deixa no ar mais detalhes sobre sua infância.

O naturalismo se estende aos próprios personagens, que, fora irrupções, ficam em contemplações carregadas de sentido. Inclusive os pais. Não sabemos por que a mãe de Haruo não o cria em casa, mas, logo após deixá-lo no trem — que vai levá-lo de volta ao Jardim Escola —, ela ganha uma página só para si. São quatro quadros: ela em silhueta, parada na estação; soltando uma baforada de ar gelado; olhando para baixo; e, enfim, indo embora da estação.

Em 2016, Sunny venceu o Shogakukan, prestigiado prêmio de mangá no Japão. Também concorreu por prêmios no Festival d’Angoulême (duas vezes) e pelo Harvey. É considerada a obra mais acessível de Matsumoto, que se destacou com trabalhos de ação — como Ping Pong e Tekkon Kinkreet (Devir) — e outros mais lisérgicos, como Blue Spring e GoGo Monster (sem tradução para o português).

Mesmo sendo a obra mais acessível, há que se embarcar no ritmo que Matsumoto dá a ela. É como se os cortes de cenas, a escolha de planos, os diálogos e toda a composição da obra quisessem fugir do assunto, tentassem ir para outro mundo que não o real, no qual você é uma criança abandonada em um orfanato. É como entrar naquele carro velho e ir para qualquer lugar que não seja onde se está.

Este texto foi realizado com o apoio da Japan House São Paulo

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Érico Assis

Tradutor e jornalista. É autor de Balões de Pensamento (ed. Balão Editorial).

Matéria publicada na edição impressa #36 ago.2020 em maio de 2020.