Jornalismo,

Infância sem inocência

Livro de ganhadora do Nobel reúne relatos de pessoas que eram crianças na Segunda Guerra Mundial, na Rússia

29out2018 - 13h54 | Edição #16 out.2018

Como Claude Lanzman, no melhor filme já realizado sobre a Segunda Guerra — Shoah —, também Svetlana Aleksiévitch deixa seus personagens falarem, sem intervir. As últimas testemunhas, publicado originalmente em 2013, assim como seus outros livros, é quase inteiramente uma compilação, esta feita entre 1978 e 2004, de cem depoimentos de sobreviventes que eram crianças à época daquela Guerra, na Rússia. As perguntas não aparecem, o narrador não aparece — a não ser por minúsculos prefácio e tentativa de epílogo. 

Como ou por que deveríamos ouvir a voz de um narrador quando aquilo que os personagens têm a dizer é da ordem do indizível e, portanto, avesso a qualquer descrição, comentário, opinião? O indizível fica mais intangível quando se tenta interpor, para atingi-lo, alguma reflexão sobre sua intangibilidade. Para tentar dizê-lo, apenas as próprias coisas podem aproximar-se, temerosas, do abismo. 

No livro O que os cegos estão sonhando?, transcrevi uma frase ouvida: “Quem não tem tragédia, faz drama”. Penso que ela se aplica aqui como em toda a vivência do trágico. Quem viveu a tragédia não tem o que explicar, e muitas vezes nem quer. O fato é que a tragédia — e toda sua potência para a compaixão e o horror —está simplesmente na sua narração concreta. “Guerra é quando meu pai não está”; “Juntei o cérebro (do irmão) com a mão. É branco, branco”; “Os enforcados estavam tão congelados que, quando o vento os balançava, eles tilintavam”; “De fome, meu irmão comeu um canto do fogão”. O que acrescentar a esses relatos sensoriais e factuais? Como transformá-los em literatura, se essas frases, mesmo sendo reais, já são inteiramente ficcionais?

Quem não viveu a tragédia, nós, que tentamos compreendê-la e que chegamos, por vezes, até a sentir culpa por algo que não vivemos — os sobreviventes da sobrevivência —, a nós resta o drama. Tentamos, para aproximarmo-nos da tragédia, torná-la complexa, intrincada, dramática. Criamos tramas, conspirações, buscas. Mas não. Ela se retrai: “Sou um fato”.

É por essa razão que o trabalho de Svetlana é ousadamente perfeito. A autora se retira de cena e, ao fazê-lo, cumpre sua autoria. Seu apagamento é sua dicção e sua originalidade.

Adultos — entre eles engenheiros, uma tipógrafa, uma professora de lógica, um músico, várias operárias e operários, uma tecelã, um fotógrafo, uma cozinheira, um arquiteto — que na época da Guerra tinham entre quatro e doze anos narram memórias reticentes e fragmentadas, numa Rússia que vai de 1978 a 2004, deixando assim entrever, além do passado, o presente em transformação, passando dos anos de terror até a Perestroika e o hipercapitalismo da atualidade. 

É essencialmente numa Rússia pobre e rural que pessoas comuns rememoram, doloridamente, recordações esparsas, às vezes irrelevantes

Embora essas mudanças políticas não estejam explícitas nas falas dessas “últimas testemunhas”, o leitor as tem em mente e acaba por perfazer cerca de setenta anos da história da antiga União Soviética, com suas dachas, campos e cidades, trens, comidas e costumes.

É essencialmente numa Rússia pobre e rural que pessoas comuns rememoram, doloridamente, recordações esparsas, às vezes aparentemente irrelevantes — “lembro-me de bonecas”, uma maçã trazida por uma avó, árvores destruídas — mas que, justamente por sua desimportância, tocam ainda mais profundamente o leitor. Afinal, o que resta do nada? Numa casa totalmente queimada, sobrou um torrão de sal. Foi a partir dele que se pensou em reconstruir o mundo. Como narrar o que é importante para uma criança de quatro anos, no meio do horror? Os tiros e as bombas pareciam fogos de artifício, fanfarras e festas. A perda de um irmão, o desaparecimento do pai eram entendidos como sumiços mágicos. Um amigo morto ao lado não passava de alguém dormindo. E, ao mesmo tempo, eram as crianças de dez a doze anos que ajudavam os pais e as mães, que fugiam e davam assistência aos irmãos, que carregavam peso, que alertavam a vizinhança. 

Sem mãe

O medo, onipresente, para essas crianças era idêntico ao medo de perder a mãe; tão traumático e ameaçador que, até hoje, esses adultos ainda temem por essa perda, mesmo depois de ela ter se consumado: “Eu já tenho 51 anos, tenho meus filhos. Mesmo assim, quero a mamãe”.

É esse mesmo medo que faz com que Oleg Boldirev, oito anos durante a Guerra e hoje contramestre, se pergunte: “O que é melhor: lembrar ou esquecer? Será melhor ficar calado? Levei muitos anos para esquecer”. 

É diante do medo da lembrança que Svetlana insiste em fazê-los falar, nesse papel duro de algoz do presente e da pesquisa: “Fale!”. E é por causa desse pedido e, principalmente, da forma como ele é feito, que o papel da testemunha, a voz de quem viu e não se perdeu, pode restar para nós. Nós que nos perguntamos também: por que lembrar e por que conhecer o horror, ainda mais vindo de crianças, as mais injustiçadas pelas guerras?

Svetlana responde na página que chamou “Em lugar de prefácio…”, dizendo que, no passado, Dostoiévski se perguntou se “encontraremos absolvição para o mundo (…) se (…) para solidificar essa base, for derramada uma lagrimazinha de uma criança inocente”. “Essa lagrimazinha não legitima nenhum progresso, nenhuma revolução. Nenhuma guerra. Ela sempre pesa mais.” 

Em sua cruzada pacifista, mas também literária, Svetlana Aleksiévitch sabe que, nem na vida nem na literatura, os fins jamais justificam os meios. As testemunhas são as vozes quase extintas dessa sabedoria, também prestes a se extinguir.

Quem escreveu esse texto

Noemi Jaffe

Escritora e crítica literária, é autora de Não está mais aqui quem falou (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.