História,

Som da pesada

Historiador recupera documentos sobre a perseguição de agentes da ditadura aos bailes soul no Rio de Janeiro dos anos 70

27jul2022 - 12h30 | Edição #60

Em 2004, quando eu fazia uma pesquisa no arquivo da TV Cultura para o documentário que sairia nos extras do DVD 1.000 trutas, 1.000 tretas (2006), dos Racionais mc’s, assistindo a algumas matérias da década de 70, vi repórteres questionando frequentadores dos bailes black de São Paulo sobre o que os motivava a comparecer aos encontros regados a soul music. Suponho que esperavam respostas politizadas sobre o racismo e o preconceito; afinal, a dúvida dos jornalistas era uma certeza para os órgãos de repressão da ditadura militar. 

A ideia da importação do movimento Black Power estadunidense e a formação de uma organização brasileira aos moldes dos Panteras Negras estavam entre as preocupações do governo. No entanto, o que os jornalistas ouviam nos bailes eram depoimentos sobre a felicidade de estar entre amigos curtindo um som “da pesada” após uma semana de trabalho duro. 

Esses fatos que ajudaram a moldar parte das periferias do país estão registrados no livro Dançando na mira da ditadura, do historiador Lucas Pedretti. A obra coloca em destaque a questão racial brasileira e os bailes soul, que formaram um movimento social e cultural importante no Rio de Janeiro, onde militares espionaram organizadores e DJs de festas black. 

Numa época em que o regime militar imprimia o mito da democracia racial, o questionamento à comemoração do Dia da Abolição ganhava força com o surgimento do Movimento Negro Unificado e, na quadra das escolas de samba, “o som estava diferente”. A música soul e seus adeptos recebiam críticas tanto de artistas do samba quanto dos ativistas da esquerda. Se o gênero era tratado com desconfiança por uma parcela dos artistas e militantes, para o governo a ideia do Poder Negro significava uma ameaça ao país. 

Para o Dops, os ‘blacks’ tinham a cor de sua pele e seu modo de diversão como ingredientes subversivos

O Centro de Informações do Exército identificou Tony Tornado, que venceu o Festival Internacional da Canção de 1970 com a canção “br-3”, como um cantor negro que representava a possibilidade da importação do Black Power norte-americano, “corroborando” com uma “infame calúnia”: a da existência de uma “suposta discriminação racial no Brasil”.

O livro de Pedretti mostra que os bailes não eram espaços estritamente políticos, mas locais de possíveis socializações e tomadas de consciência racial. Esses encontros representavam confrontação, autoafirmação e inconformismo por meio da imagem positiva que a música soul trazia em relação a um grupo social discriminado. 

As complexas conexões entre política, lazer e cultura e a histórica tentativa de controle sobre os corpos negros são tratadas pelo autor com base em documentos que mostram a paranoia anticomunista que perseguia organizadores e frequentadores dos bailes que, muitas vezes, estavam na mira não por uma resistência explícita ao regime militar, mas pelo fato de existir e criar estratégias de sobrevivência nas bordas da cidade. 

Para os militares, as festas soul faziam parte da formação de uma ideia repetida até hoje: num país onde há harmonia racial, afirmar a existência do racismo é jogar negros contra brancos. O “racismo negro” no Brasil, assunto principal nos documentos analisados pelo historiador, justificava o monitorameno dos bailes.

Relatório feito pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em 1975, após diligência feita por seus agentes ao baile “Fusão Black da Guanabara e do Rio de Janeiro”, organizado pelas equipes Black Power e Soul Grand Prix, alerta que “ao som da moderna música americana, os bailarinos gritavam os nomes de vultos negros famosos” como Martin Luther King e Jimi Hendrix. De acordo com o documento, a festa reuniu “6 mil pessoas de cor” que usavam roupas excêntricas, consumiam maconha e faziam “guerra fria” com os brancos que frequentavam o evento.

Movimento Black Rio 

Em 1976, a vigilância dos militares aumentou após a publicação da reportagem “O orgulho (importado) de ser negro no Brasil”, de Lena Frias, no Jornal do Brasil, que deu ao fenômeno o nome de Movimento Black Rio. Outras reportagens sobre os bailes foram publicadas em diversos veículos. A repercussão fez a Agência do Rio de Janeiro do Serviço Nacional de Informações (SNI) afirmar que o Movimento Black Rio tinha fins políticos. Dom Filó, DJ e líder da Soul Grand Prix, chegou a ser sequestrado e interrogado pelos agentes da repressão.

Para os agentes do Dops, os “blacks, como ficaram conhecidos os jovens frequentadores de bailes soul, tinham a cor de sua pele e seu modo de diversão como ingredientes subversivos. Em Dançando na mira da ditadura, essa perseguição sai do esquecimento, cria possibilidades para outros debates e faz conexões com os nossos dias.

Quem escreveu esse texto

Jair Cortecertu

É DJ e profissional da área de comunicação.

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.