História,

O rei está morto

Historiador reconstitui o reconhecimento oficial da morte de dom Sebastião e as origens dos boatos e imposturas em torno do corpo mutilado do monarca

27out2023

Há alguns anos surgiu numa rede social um convite para um evento chamado “retorno de dom Sebastião” com dia e hora marcados. A brincadeira, embora tenha despertado o riso das milhares de pessoas que aceitaram o convite, continha uma curiosa ironia: se por um lado todos entendiam ser algo totalmente inverossímil, já que mais de 440 anos se passaram desde a morte do rei de Portugal, ao mesmo tempo identificaram um sentido de escatologia na previsão, pois os que aderiram certamente sabiam que a volta do “Encoberto” representa o fim de um tempo, o início de uma nova era e a abertura de outra dimensão. E a piada, afinal, tinha um fundo de verdade diante da catástrofe climática global.

O livro de André Belo, Morte e ficção do rei dom Sebastião, lançado em Portugal em 2021, e que agora recebe uma edição brasileira, apresenta aos leitores uma nova e interessante abordagem sobre o sebastianismo, a crença no desaparecimento e retorno de dom Sebastião, surgida em Portugal e seus domínios, após o rei ter sido derrotado à frente do exército cristão nas areias do Marrocos no início de agosto de 1578. No estudo, o historiador aproxima dois elementos que foram tratados, até agora, separadamente pela historiografia que se dedicou ao tema. A morte, a identificação do corpo do rei e os traslados dos restos mortais — atualmente depositados na capela do mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa — estão colocados em diálogo com os episódios dos falsos dom Sebastião surgidos depois da incorporação de Portugal à coroa espanhola, cujo monarca se tornou o herdeiro por direito do reino luso a partir de 1580.

Desde as estruturas de poder político mais antigas, o corpo vivo do governante, fosse ele rei por herança, conquista ou eleição, recebeu atributos de transcendência, dada sua excepcionalidade em relação aos súditos e dominados. Em diversas tradições, essa distinção chegou a ganhar atributos de sacralidade, de modo a aproximar o governante ao poder da divindade que o instituiu. Além da sacralidade de alguns, a matriz jurídica romana dos reinos da Europa medieval fez do corpo dos monarcas uma representação encarnada do próprio reino, a ponto de se considerar que os escolhidos não tinham um, mas dois corpos, o político e o humano.

Apesar dessas tradições terem se consolidado durante a baixa Idade Média (entre os séculos 11 e 15), nos lugares de onde emergem a maioria dos Estados modernos, em Portugal isso não acontece, a despeito de algumas iniciativas. Foi o que se passou, por exemplo, com as tentativas frustradas de santificação de dom Afonso Henriques, primeiro rei do país.

Na poesia de cordel e em manifestações orais, o rei virou ícone de salvação e esperança

A morte de um rei jovem e imbuído de um esforço de cruzada contra os muçulmanos no Marrocos, contudo, traz a questão que sempre paira sobre aqueles que se dedicam a entender o fenômeno: teria o sebastianismo elementos de sacralidade régia? As expectativas longevas do retorno de dom Sebastião podem ser entendidas como uma crença cujo sujeito da devoção se torna o rei?

O trabalho de André Belo vem elucidar a importância que teve, nas semanas posteriores à batalha, o processo de reconhecimento do corpo do monarca, sua preservação e sepultamento em Ceuta, para ser mais tarde trasladado a Lisboa, num momento em que Felipe 2º de Espanha precisava provar a todos sua legitimidade e a impossibilidade de uma sobrevivência anônima do jovem rei. Mas um corpo mutilado, reconhecido por alguns de seus companheiros no combate, não seria suficiente, pois os recursos de identificação à época eram extremamente subjetivos. Dessa condição emergem a sombra da dúvida e a esperança do retorno.

Impostores

Contrárias à materialidade do corpo identificado, cartas, crônicas e notícias de todo tipo circularam pelo reino, por escrito e de boca a boca, relatando a presença de dom Sebastião em diferentes lugares, num processo crescente de negação e resistência à confirmação do monarca espanhol como rei de Portugal. Essa crença poderia ser ainda uma espécie de transferência coletiva do sofrimento que cada família tinha por cada homem mantido refém no campo de batalha, cujos resgates levariam até décadas para serem concluídos.

Seguidos e apoiados por grupos de todas as categorias da sociedade, do mais simples camponês ao nobre mais erudito, os chamados “falsos dom Sebastião” foram tratados como impostores e oportunistas pelo reino, condenados e executados por se aproveitarem do desaparecimento do rei para levarem alguma vantagem diante de pessoas crédulas e desesperadas. Como explicar, no entanto, o aparecimento de um Marco Tullio Catizone, o “falso dom Sebastião de Veneza”, cuja existência foi defendida e comprovada por clérigos e nobres?

André Belo se dedica também a esse caso emblemático daqueles tempos em que reis se arriscavam em batalhas em terrenos pouco conhecidos e homens comuns ousavam se passar por reis mortos — que muita gente acreditava estarem vivos em algum lugar até poderem voltar para salvar seu povo do sofrimento prolongado. Parece um roteiro de filme ou série. No caso do “falso de Veneza”, contudo, não há nada que aponte para um final feliz. Todos os envolvidos na conspiração foram condenados ou exilados, os que viveram para contar essa história deixaram relatos cheios de expectativa da volta do rei legítimo.

Elementos do sebastianismo tiveram longa duração também fora de Portugal, provavelmente revividos durante a transferência da Coroa para a colônia no início do século 19. Disseminada pelo sertão, a crença emergiu em manifestações de resistência ao final da monarquia, como nos relatos da guerra de Canudos. Na poesia de cordel e em manifestações orais, dom Sebastião virou ícone de salvação e esperança. Em contrapartida, no Portugal de Salazar, a figura do rei representou o espírito nacionalista, sempre chamado a retornar e levantar suas armas contra os inimigos do regime. Depois da volta da democracia no 25 de abril de 1974, o cadáver bem enterrado vai aos poucos ganhando novos significados e nos faz refletir hoje sobre a circulação de informações e, sobretudo, sobre as formas de apropriação do passado pelo presente.

Nota do editor
A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, que publica a revista dos livros.

Quem escreveu esse texto

Ana Paula Megiani

É historiadora, pesquisadora e professora do Departamento de História da FFLCH-USP.