História,

Meca da macumba

O Rio de Janeiro dos terreiros, rituais e festas de matriz africana é tema de dois novos livros

01nov2019 - 00h30 | Edição #28 nov.2019

O conceito de sankofa é o fio que une O corpo encantado das ruas, de Luiz Antonio Simas, e História dos candomblés do Rio de Janeiro, de José Beniste. Sankofa é o ideograma de um pássaro de pescoço longo olhando para trás e faz parte do sistema de escrita Adrinka, do povo Akan, da África Central. A palavra significa “volte e pegue”, e o conceito é descrito como o movimento de retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro. 

O historiador José Beniste foi iniciado em 1984 como ogã (responsável por funções masculinas no terreiro) pela ialorixá Cantu de Airá Tola, dirigente do Ilê Axé Opó Afonjá, no Rio. Em seu sexto livro, ele conta a história de fundação de mais de trinta terreiros de candomblé e suas casas descendentes no estado. Beniste representa o retorno ao passado. O livro começa voltando à África e remonta a ruptura cívica que acabou com negros sendo exportados como mercadoria em porões de navios. Segue apresentando as estratégias criadas pelos africanos escravizados para viverem sua fé no novo território, o sincretismo talvez sendo a maior delas. Encerra contando a trajetória dos pais e mães de santo que plantaram o axé no Rio. 

Os negros africanos tinham seus próprios cultos de reverência às forças da natureza. Os orixás os acompanhavam nos dois meses de travessia do oceano Atlântico. O Novo Mundo não tolerava seus rituais. Além de implantarem a colônia de exploração, os portugueses importaram o catolicismo. Não era assegurada a liberdade de crença. O sincretismo ganha lugar de destaque na narrativa sobre a vida e sobrevivência dos escravizados em solo colonizado. Foi uma das estratégias adotadas para evitar ainda mais perseguição. Os escravizados fingiam-se de cristãos para garantir enquadramento nas normas colonizadoras. Evitava-se conflito, preservava-se a vida. 

A catequese forçada foi uma tentativa imperialista para expurgar o transe, o grande obstáculo na normatização dos corpos. Uma lei exigia o batismo para tornar cristãos todos os escravizados, que eram levados à igreja e perfilados de acordo com os nomes que receberiam: Joões, Marias, Josés. Tinham que assentir a diversas indagações católicas, sendo a mais difícil “Queres comer o sal de Deus?”, pois comer sal, em sua crença, significava se tornar igual ao europeu. Perdia-se tudo: família, território, identidade.

Mais do que documentar a fundação dos maiores terreiros do estado, o livro eterniza o horror. O escravizado precisou esquecer para sobreviver, e nosso movimento diaspórico é o do resgate. Citada por Beniste, Mãe Beata de Iemanjá, fundadora do Ilê Omiojuarô, em Nova Iguaçu, dizia que “a ancestralidade é uma coisa muito forte”. Foi essa força que nos carregou. A estratégia de sobrevivência dos negros em diáspora é jamais permitir que o horror da escravidão seja esquecido para que nunca seja repetido. 

Memórias presentes

Se Beniste começou o movimento de sankofa, Simas toma as rédeas ao ressignificar o presente. Iniciado como ogã aos dois anos no terreiro de sua avó em Nova Iguaçu, Simas é babalaô do culto de Ifá. Para os macumbeiros, isso basta. Para outros, Simas precisa apresentar o que chama de currículo “vira-lattes” e dizer que é historiador premiado com o Jabuti por Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira), escrito com Nei Lopes.

O título da obra de Simas referencia o livro A alma encantadora das ruas, do cronista João do Rio, publicado em 1908, que retratou as desigualdades e os personagens que compartilhavam as esquinas da capital. O corpo encantado das ruas encanta o corpo que lê. O livro é uma sucessão de memórias presentes que lembram aos leitores que existe vida no caos. Não antes ou depois dele, mas durante. Como dizia o compositor Beto sem Braço, referenciado pelo historiador, “o que espanta miséria é festa”. As sucessões de crônicas sobre a cidade que revoluciona pela alegria nos dão certeza de que a música, o brinde e a roda são a saída desse confinamento eurocêntrico.

O samba garantiu a sobrevivência do povo preto, que ainda leva essa jovem República nas costas

Simas lembra que o samba só foi inventado porque existia a roda. Antes do batuque, já tinha gente em círculo olhando no olho. O xirê é a roda em que os filhos de santo dançam para os orixás e gira sempre no sentido anti-horário, no simbolismo de voltar no tempo, resgatar o passado e reverenciar a ancestralidade. Fiquemos mais em roda, olhando nos olhos, e menos em fileiras. Quem sabe nossa roda de hoje seja o começo da gestação de algo que revolucionará o país. O samba revolucionou o Brasil na medida em que foi um dos pilares que garantiram a sobrevivência do povo preto, que ainda leva essa jovem República nas costas.  

Os dois livros se completam pois traçam a linha do tempo entre como chegamos aqui e como reinventamos a vida. A historiografia densa embasa as crônicas que dão leveza a uma narrativa pesada que resgata tantas dores ancestrais. Beniste apresenta as estratégias, e Simas vem para nos contar que deu certo. O povo preto sobreviveu e é nas ruas que risca o chão, demarca seu espaço e ousa sambar com a felicidade.

Simas prova como a fé sincrética descrita por Beniste se enraizou no Brasil. No Rio, São Jorge é Ogum e, em seu dia, católicos fervorosos dividem a igreja com umbandistas. Vestir branco na virada do ano é herança da umbanda. Somos um país de judaico-cristãos-macumbeiros sincréticos. Até quem não é, é e nem sabe. Crescida em núcleo familiar materno com apenas três membros consanguíneos — eu, minha mãe e minha avó — e incontáveis amigos-irmãos, abraço a noção de família do povo zulu corroborada por Simas. No idioma ngúni, falado no sul da África, não há palavra para o parentesco sanguíneo. “Ubudlelane” define as relações de parentesco e significa “os que comem juntos”. 

Herança

No Rio se criam laços de amor no entorno de uma mesa farta, ao redor de uma roda de samba, vibrando pelo mesmo time no bar. Vivemos o que herdamos dos terreiros. Toda festa de macumba tem a música dos atabaques, os filhos de santo dançando em roda, a comida servida depois de cantar para os orixás. A cidade dos meus sonhos tem cheiro de arruda e gosto de camarão seco, caruru e xinxim de galinha. 

Simas define a capital como uma cidade que sacraliza o profano e profana o sagrado. O Rio de Janeiro dos dois escritores é a Meca sudestina da macumba. Os terreiros são descritos por Beniste, as festas populares e os rituais com origem nas religiões de matriz africana são explicados por Simas. Beniste relembra que durante a Colônia, na Glória, bairro da Zona Sul, eram feitas homenagens a Iemanjá, e os presentes para Oxum eram entregues no rio Trapicheiro, na Tijuca. 

O Brasil é um país negro. Não somente por sua população ser composta na maioria de pretos e pardos, mas porque estamos mergulhados na herança africana. O povo banto nos deixou dezenas de palavras na língua portuguesa. Beniste listou algumas que explicam o porquê de a festa brasileira ser negra: samba, pinga, gingar, fuzuê. O corpo que dança é banto. 

Terminar o movimento de sankofa construindo o futuro é responsabilidade de todos. Beniste é branco, filho de libaneses. Simas, igualmente branco, é bisneto de italiano. Os dois foram escolhidos como herdeiros do axé das sociedades matriarcais da África Subsaariana e usam sua visibilidade para firmar o ponto em um país historicamente intolerante. O racismo religioso é a obsessão de parte da população que insiste na catequese e na evangelização. O racismo e a intolerância religiosa são chagas criadas pelos brancos. Por isso, é dever de seus descendentes combater incansavelmente esses preconceitos que nos custam vidas negras. 

O Brasil mata um jovem negro a cada 23 minutos. Essa parte sombria que precisa ser escancarada é consequência das políticas equivocadas dos colonizadores e de seus descendentes. Vivemos a ressaca da Abolição e de um projeto de Estado que relega às margens da sociedade a maioria da população. Simas costuma dizer que o Brasil precisa dar errado. Para os colonizadores, deu certo. É urgente que degringole de uma vez por todas. 

O obstáculo final que impede o sucesso desse plano somos nós. Os inimigos do fim que se recusam a aceitar que este país deu certo. Enquanto soar um atabaque, os copos baterem em brinde e a roda girar no sentido anti-horário, eles terão que aceitar que
este país também nos pertence.

Quem escreveu esse texto

Isabela Reis

É jornalista.

Matéria publicada na edição impressa #28 nov.2019 em outubro de 2019.