Divulgação Científica, História,

Iluminismo à moda portuguesa

Volume sobre naturalistas mostra que no império colonial luso a ciência jamais esteve desvinculada de uma relação prática com a natureza

12nov2018 - 16h29 | Edição #5 set.2017

Quando o jovem naturalista inglês Charles Darwin chegou ao porto de São Salvador, na Bahia, em 1831, a exploração científica do continente sul-americano não era nenhuma novidade: vinha sendo feita praticamente desde os primeiros tempos do Descobrimento. No século 19, porém, tornara-se um tópico de interesse geral, graças ao geógrafo e explorador Alexander von Humboldt, que em 1814 publicara o Relato histórico da viagem às regiões equinociais do Novo Continente, que se tornara um clássico de um novo gênero literário: a “viagem filosófica”, da qual o próprio Darwin daria testemunho em seus Diários de viagem a bordo do HMS Beagle (1839). Ao que parece, nenhuma obra de vulto como essas chegou a ser produzida em Portugal ou no Brasil.

Houve, é claro, naturalistas brasileiros e portugueses. Se, desde meados do século 18, o estudo da natureza brasileira (e das demais colônias portuguesas) entrara no rol das prioridades da coroa, isso aconteceu com força relativa e atraso considerável em comparação aos holandeses, aos ingleses e, principalmente, aos franceses — que, do século 17 ao início do 19, dominam a cena, no que se refere à reflexão e à prática da história natural como ciência filosófica. Esse predomínio deveu-se principalmente à elevação do Jardin du Roi, por Luís 14, à condição de instituição científica. Com a Revolução Francesa, o Jardim tornou-se Museu Nacional de História Natural, onde trabalharam alguns dos mais renomados cientistas europeus da virada do século, Lamarck e Cuvier entre eles. 

Uma das muitas virtudes deste Os naturalistas do Império é mostrar a posição ambígua da coroa portuguesa quanto à promoção da história natural como ciência. Desde meados do século 18, culminando com a vinda da família real para o Rio de Janeiro em 1808, a administração portuguesa realizou tentativas de criar jardins botânicos em território brasileiro. Calcados no modelo francês, os jardins luso-brasileiros tiveram existência fugaz em Belém do Pará, no Recife e em Vila Rica de Ouro Preto. Quando, por fim, o modelo vingou, no Rio de Janeiro, a instituição que prosperou na capital do império logo se viu imbuída do propósito para o qual fora calculada: o conhecimento da natureza das terras coloniais com vistas à sua exploração mercantil, para benefício da Metrópole. Com a Independência em 1822, o Jardim Botânico tornou-se uma instituição científica brasileira. 

Organizado por um grupo de pesquisadores articulados em torno da Universidade Federal do Paraná, Os naturalistas do Império é um belo volume, que reconstitui essa história fascinante aliando o rigor da pesquisa acadêmica à capacidade de capturar o interesse do leitor. Dividido em capítulos sucintos, que abordam as diversas facetas da história, poderia passar por um coffee table book. Mas que o leitor não se engane: é uma obra de qualidade, destinada a se tornar uma referência para a compreensão dos reveses que o conhecimento científico enfrentou em Portugal e em suas colônias, com destaque para o Brasil (não custa lembrar que a pesquisa que deu origem à obra foi financiada pelo CNPQ e pela Capes, agências de fomento ora sob ataque do mesmo poder público que supostamente teria de prestigiá-las).

A história natural foi assunto de amadores, que reuniam os mais variados objetos, testemunhos das maravilhas e aberrações da natureza

Antes de se tornar uma ciência experimental, a história natural foi assunto de amadores e curiosos com tempo livre, que reuniam, em gabinetes de exibição, os mais variados objetos, testemunhos das maravilhas e aberrações da natureza, oriundos das diversas regiões do planeta. Graças aos trabalhos de botânicos como Lineu, Tournefort e Jussieu, foi promovida, em meados do século 18, à dignidade de um saber sistemático. Pesquisadores de instituições científicas financiadas pelas grandes monarquias europeias, esses homens promoveram a classificação do mundo natural segundo critérios lógicos. Isolando-se uma parte anatômica da planta a partir de sua função fisiológica — o órgão reprodutor, por exemplo —, foi possível agrupar ou separar, a partir de afinidades e diferenças precisas, os seres mais diversos. 

A infinita complexidade da natureza passou a ser compreendida no quadro de relações constantes, o maravilhoso deu lugar a um entendimento racional, os gabinetes privados transformaram-se em academias e museus públicos. O naturalista confundiu-se com o filósofo, e a tribo filosófica, de David Hume a Immanuel Kant, adotou a história natural como uma fonte permanente de questionamento acerca dos problemas mais sérios — a existência de Deus entre eles. Foram os primeiros passos rumo à constituição, no século 19, de uma ciência dos seres vivos amparada em uma
história da natureza. 

Vasto mundo

Desde as primeiras páginas do livro fica claro que a constituição dessa ciência esteve vinculada à expansão colonial das grandes potências europeias. A exploração mercantil dos recursos naturais teve também um papel determinante para que os estudiosos europeus adquirissem, ainda que lentamente, uma visão menos “paroquial” da natureza. A leitura de um clássico como As épocas da natureza, de Buffon (Georges-Louis Leclerc), publicado em 1778, tende a produzir em nós um efeito inadvertidamente cômico: tudo se passa como se a essência do mundo natural pudesse ser desvendada pela inspeção do interior da França ou das praias da Inglaterra. Já Darwin, na Origem das espécies (1859), adverte repetidas vezes que não se conhecerá quase nada da história da natureza enquanto não forem devidamente estudadas outras regiões do mundo, bem mais vastas do que a pequena Europa. E lamenta que, com exceção da América do Norte, esse conhecimento ainda não tenha sido produzido (nos Estados Unidos, a história natural fora promovida pelo suíço Louis Agassiz, discípulo de Cuvier).

A história natural é uma fonte de questionamento acerca dos problemas mais sérios — a existência de Deus entre eles

A observação de Darwin dá uma ideia de quão insuficiente foi o engajamento do império português com a história natural. Mas seria um erro pensar que essa reticência não teria produzido alguns resultados proveitosos. Em diferentes oportunidades, o leitor de Os naturalistas do Império se dá conta de que o estudo da natureza ao modo lusitano nunca foi desvinculado de um engajamento prático com o meio. 

Da ocupação de logradouros à edificação de vilarejos e cidades, da exploração da terra à mineração, das práticas de manufatura à arte culinária, desenvolveu-se nas colônias um rico repertório de técnicas de relação com o meio natural, que mostram, da parte do colonizador convertido à terra, uma compreensão profícua do meio a ser explorado e dominado. Em alguma medida, o desinteresse de Portugal (e, posteriormente, do Brasil) pela história natural como ciência teve sempre como contraparte (embora não como compensação) uma sabedoria prática que se traduziu, principalmente, na desenvoltura com que os colonizadores foram aos poucos adentrando e reconfigurando um território que, administrativamente, permaneceu marítimo. 

O autêntico conhecimento da natureza se dá a partir do homem e deve ter como fim último os seus interesses

Há muito a lamentar na maneira como a ciência foi tratada em nosso território desde o período colonial. Mas não deixa de ser irônico notar que, com nosso pragmatismo luso-brasileiro, tenhamos feito jus, por vias tortas, à exigência de Bacon, que os enciclopedistas ecoarão no Século das Luzes: o autêntico conhecimento da natureza se dá a partir do homem e deve ter como fim último os seus interesses. A adoção irrefletida desse adágio pode explicar, ao menos em parte, os percalços que a história natural teve de enfrentar em uma terra que poderia parecer tão propícia ao seu desenvolvimento como ciência. Os naturalistas do Império lança luz sobre esse tema, que, para sorte nossa, vem sendo estudado com cada vez mais afinco pelos historiadores brasileiros. 

Quem escreveu esse texto

Pedro Paulo Pimenta

É autor de A trama da natureza: organismo e finalidade na época da Ilustração (Editora Unesp).

Matéria publicada na edição impressa #5 set.2017 em junho de 2018.