História, Literatura, Quadrinhos,

Cosmonautas involuntários

As aventuras de uma cadela e um chimpanzé pioneiros na exploração do espaço sideral

13nov2018 - 12h04 | Edição #6 out.2017

Radiografias históricas da Guerra Fria costumam esbarrar em imagens plúmbeas de testes atômicos, das corridas armamentista e espacial e dos tensos duelos diplomáticos entre o Kremlin e a Casa Branca. Duas obras lançadas recentemente no Brasil, no entanto, rompem o figurino clássico ao lançarem mão de quadrinhos ou de livro artesanal, e ao abordarem a tragédia de personagens incomuns nas querelas entre superpotências: uma cadela e um chimpanzé.

Em Laika, o quadrinista britânico Nick Abadzis reconstrói, com toques de ficção, a trajetória da cachorra mais famosa da história, primeiro ser vivo a orbitar a Terra, a bordo do satélite soviético Sputnik 2. O escritor brasileiro José Luiz Passos, num livreto com ilustrações de Raquel Barreto, narra, em construção modelada por tons poéticos, a viagem ao espaço de Ham, hominídeo capturado em seu habitat africano, vendido à Força Aérea dos EUA em 1957 e enviado, quatro anos depois, num voo sub-orbital, em teste do Projeto Mercury.

Ham teve melhor sorte do que Laika — sobreviveu à viagem a bordo de uma cápsula da NASA, a altura de quase 260 km, velocidade de mais de 9 mil km/h e pressão quinze vezes maior do que a força da gravidade. Terminou seus dias em um zoológico, em 1983. Laika morreu cerca de cinco horas após o lançamento do satélite, vítima de superaquecimento da cabine. O Kremlin sustentou, até 2002, que a cadela havia recebido eutanásia após alguns dias em órbita, em narrativa arquitetada para tentar aplacar críticas em relação ao sofrimento imposto à cosmonauta involuntária. O desmonte da farsa golpeou mitologias das mais cultivadas na era soviética, a dos cães-heróis, capítulo relevante do enredo montado a partir do programa espacial.

Havia uma espécie de ideologia cósmica na extinta URSS. Em boa parte liderada pelo cientista Serguei Korolióv, figura central na obra de Abadzis, a corrida do Kremlin ao espaço correspondeu a um dos sustentáculos da propaganda oficial sobre “o potencial e as conquistas do proletariado”, e tem como exemplo clássico o filme de ficção científica Lua (1965), do cineasta Pavel Kluchantsve, um ícone da cultura popular soviética que imagina a colonização, a foice e martelo, do solo lunar.

A máquina de propaganda de Moscou explorou à exaustão os caninos sacrificados pela ânsia de promover incursões espaciais. Laika virou até marca de cigarro. Além da tripulante do Sputnik 2, diversos cães sem raça definida, geralmente arrancados das ruas de Moscou, foram usados em experimentos de um projeto responsável por levar o primeiro ser humano a uma viagem orbital, em 1961.

Atribui-se a Iuri Gagárin, cosmonauta pioneiro, a frase: “Serei eu o primeiro homem no espaço, ou o último cão?”. Além da tragédia de Laika, houve o episódio do Korabl-Sputnik 2, em 1960, quando as cadelas Belka e Strelka sobreviveram cerca de 20 horas na órbita da Terra, na companhia de outros animais, como camundongos e ratos. Nikita Khruschev, líder soviético à época, também usou cães em iniciativas diplomáticas. Presenteou John Kennedy com Pushinka, filha da famosa Strelka. Ao chegar aos EUA, o filhote passou por intensa checagem, pois o serviço secreto norte-americano temia que ela carregasse aparelhos de espionagem.

Diplomático com Kennedy, Khruschev era implacável com os cientistas soviéticos, pressionando-os para colher ferramentas úteis à guerra de propaganda. A pressa, certamente, contribuiu para vitimar Laika. Escreveu, em 1998, Oleg Gazenko, seu adestrador: “Quanto mais o tempo passa, mais eu lamento. Não aprendemos tantas coisas com a missão que justificassem a morte da cachorra”. 

Quem escreveu esse texto

Jaime Spitzcovsky

Jornalista, é colunista da Folha de S.Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.