História,

Caça às sacerdotisas africanas

Estudo sobre a vida das praticantes da religião vodum escancara o racismo religioso da Inquisição em Minas Gerais

19set2023

O livro Sacerdotisas voduns e rainhas do Rosário: mulheres africanas e Inquisição em Minas Gerais (século 18), organizado por Aldair Rodrigues e Moacir Maia, é bem-sucedido ao traçar linhas de inserção de Minas Gerais nos “circuitos mais amplos da diáspora em que a religião vodum desempenhou papel fundamental na vida de africanos e africanas”. Vale-se, para tanto, da publicação e análise crítica de manuscritos sobre a vida e as práticas culturais e religiosas de mulheres africanas perseguidas pelo Tribunal da Inquisição em Minas Gerais durante o século 18.

De um modo geral, a religião vodum é muito conhecida nos dias de hoje por meio das Casas das Minas, Fanti Ashanti e outras de Tambor de Mina, localizadas no Maranhão. De maneira menos agregada, existem casas vodum na Bahia e em Pernambuco e ocorrências pontuais em outros estados brasileiros.

Os autores chamam a atenção para a necessidade de não circunscrever os impactos da violência religiosa inquisitorial apenas a quem foi processado e sentenciado, haja vista que pessoas denunciadas ao Santo Ofício, como as referidas nos documentos que compõem a obra, não foram formalmente processadas ou condenadas, mas sofreram perseguição, foram presas, tiveram seus artefatos sagrados e locais de reunião e culto invadidos e destruídos. Os processos violentos eram capilarizados e complexos, principalmente os que demonizavam as crenças e práticas culturais africanas, configurando arma ideológica da Igreja católica forjada na montagem dos impérios coloniais com base na escravidão.

‘Para o governo, as práticas africanas representavam um risco para o controle social dos escravizados’

As personagens históricas abordadas na obra são oriundas da região vodum da Costa da Mina (golfo do Benin), que englobava várias nações e reinos movimentados pelas guerras internas que influenciavam sobremaneira a dinâmica do tráfico de pessoas naquela região. Rodrigues e Maia corroboram argumentos que desfazem o mito de que os povos de “nação Mina” eram originários das regiões auríferas, onde atualmente se localiza Gana, e eram preferidos por dominarem técnicas de exploração do ouro (povos acãs).

Os autores, beneficiados pela ampliação da base de dados sobre o tráfico transatlântico e por estudos mais profundos da história do continente africano, demonstram que

O discurso sobre a predileção mineira pela origem Mina tinha a ver com a propaganda e a defesa dos interesses dos traficantes da rota Bahia-Costa da Mina, em disputa com a rota Angola-Rio de Janeiro, que se tornava cada vez mais importante no abastecimento da zona do ouro.

Isso explica porque, na primeira metade do século 18, Minas Gerais recebeu uma grande concentração de povos do golfo do Benim praticantes da religião vodum. Estes tecerão relações sociais intrincadas em Mariana e Ouro Preto, por meio de práticas religiosas de matrizes africanas que reuniam libertos e escravizados, além de terem presença ativa em irmandades do Rosário dos Pretos, mantendo participação frequente na organização, direção e manutenção (mesmo depois de mortas, por meio de testamentos) dessas confrarias negras.

Repressão militarizada

O livro também nos mostra o quanto a repressão à religiosidade africana foi militarizada após a destruição do Quilombo de Palmares (1694), tanto pela ampliação da noção de quilombos para reuniões de pequenos agrupamentos de quatro ou cinco negros fugitivos, quanto pela institucionalização do cargo de capitão do mato, um oficial especializado na captura e resgate dos fugitivos. Houve um engajamento explícito dos capitães do mato na repressão à religiosidade negro-africana, protegidos por normativas locais, por meio de ataque aos locais de culto, apreensão de artefatos e apetrechos sagrados e sua destruição por meio do fogo.

Na concepção do governo colonial, as práticas religiosas africanas, para além de desafiar a ortodoxia católica, representavam um risco para o controle social dos escravizados porque propiciavam espaços de autonomia. Neles, podiam falar suas línguas, estreitar laços de solidariedade e, quem sabe, tramar rebeliões, fugas ou ações mais silenciosas que confrontassem a ordem escravista.

Encontramos ainda nos documentos elementos para preencher lacunas sobre as práticas de sociabilidade das pessoas negras escravizadas, posto que muitas delas participavam de cultos africanos periódicos, aos sábados à noite e também durante a semana, sob perseguição dos poderes coloniais, havendo, inclusive, deslocamento de pessoas das regiões vizinhas até a sede dos cultos. Os escravizados eram constantemente presos pelos capitães do mato, que dispersavam os encontros. Cabe perguntar que negociações seriam feitas com os escravizadores brancos para se obter permissão para participar das reuniões. Será que os patrões também se valeriam dos serviços de adivinhação e cura das sacerdotisas africanas?

Merece destaque o Dito 6º de Francisca de Matos, preta forra, no qual ela, na condição de inquirida sobre as práticas religiosas africanas de Josefa de Matos, declara o seguinte:

Sabe pelo ouvir dizer a outras negras que ela [Josefa] andara tirando satisfações aos que lá não queriam ir à sua casa ver o Deus da Costa de Courá, que fazia os milagres, e que algumas foram como foi uma por nome Inácia forra, moradora na chapada dos Tavares; que o Deus que estava na dita casa que os negros e negras adoravam era uma negra e que esta era a que representava a figura do seu Deus e todos ajoelhavam ao pé dela e quem ia adorá-lo levava galinha e outras coisas mais.

O Deus dessas mulheres e homens africanos era visto como uma deusa na percepção descolonizada dessa testemunha e das participantes do culto.

Outro exemplo interessante da perseguição às pessoas negras que exerciam algum tipo de poder, que, por suposto, transgredia as normas da ordem escravista, é o de Rosa da Silva, uma preta da Costa da Mina acusada de matar, por envenenamento, o homem branco que havia prometido se casar com ela. Teria praticado a vingança para impedi-lo de casar-se com outra sujeita. Ora, envenenamento é o ato de inocular veneno em um corpo via alimentos, bebidas, pelo ar, pela pele ou pelo sangue da vítima, não é feitiço, mas qualquer coisa era justificativa para perseguir quem ameaçasse a ordem vigente.

Relações de gênero

A atividade comercial das pretas Minas no mercado ambulante de alimentos como fator de facilitação da compra, em prestações, de suas alforrias, é mencionada de maneira tímida, como algo possível de ser remontado às tradições comerciais de suas regiões de origem. Por outro lado, uma compreensão alargada da força da ancestralidade negra, uma memória coletiva do que fomos e de como sobrevivemos, potencializaria uma afirmação mais contundente acerca dessa articulação de temporalidades.

No livro, atingiu-se parcialmente o intento de buscar compreender dimensões da vida das mulheres africanas nos deslocamentos promovidos pelo tráfico atlântico, no interior do próprio sistema escravista e nas hierarquias relacionadas ao pertencimento racial, para além de estereótipos vinculados ao cativeiro. Nesse convite às leitoras e aos leitores a pensarem as relações de gênero, faltou extrapolar as construções mais superficiais de feminino e masculino negros e brancos naquela sociedade setecentista e dar passos maiores para decodificar a funcionalidade desses mundos para homens e mulheres.

Faltou extrapolar no livro as construções mais superficiais de feminino e masculino negros e brancos

Por exemplo, entre os artefatos comuns ao arsenal religioso das mulheres africanas perseguidas eram citados raízes, folhas, ervas, “trapos imundos” que os envolviam e “carne que parecia mirrada” ou “carne seca”. Quando inquiridas, todas as acusadas se referiram à tal “carne seca” como umbigos. Quem é que perde o umbigo? Bebês recém-nascidos. Quem tem acesso a esse material orgânico que ligava a criança à placenta? Primeiro as parteiras, depois as mães. Ora, uma leitura de gênero acurada sobre a história das mulheres e seu domínio dos saberes sobre os corpos nos permitiria fazer inferências acerca das possibilidades de que essas sacerdotisas também exercessem o ofício de parteiras e considerar, adicionalmente, que diversas delas possivelmente foram perseguidas pela Inquisição na Europa e nas Américas.

Outra possibilidade pode estar ligada a tradições vivas nas classes populares de guardar os umbigos dos recém-nascidos que poderão ser entregues a eles quando crescidos, em rituais cerimoniais de passagem. Podem também ser enterrados em lugares determinados e em momentos certos da vida. Não seria uma especulação vã pensar que as mães que pariram sob as mãos daquelas mulheres poderiam deixar os umbigos dos filhos aos cuidados daquelas feiticeiras poderosas por motivos específicos. Essa seria uma leitura de gênero mais sofisticada.

Os artefatos, na verdade, mereceriam uma leitura mais atenta, assim como uma reflexão apurada sobre os seus significados — como a incrível presença de panelas no conjunto de apetrechos sagrados das sacerdotisas.

Uma observação mais detida da liturgia e da materialidade das Irmandades do Rosário também nos ajudaria a entender melhor o possível grande número de sacerdotisas da Costa da Mina escravizadas no Brasil e o jogo de corpo dessas mulheres para driblar a perseguição inquisitorial e continuar cultuando suas divindades africanas sob o manto católico das Irmandades. Veja-se, por exemplo, o cajado (em formato de bastão, de cobra, ornados por pedrarias e búzios, elementos da religião vodum descritos nos documentos do livro) portados pelas autoridades negras que lideram as manifestações públicas do Rosário, o cortejo que segue pelas ruas, onde se saúda a divindade zeladora dos caminhos, presente nas religiões de matrizes africanas. Uma leve e breve alusão aos aspectos de magia, segredo e mistério da ação dessas sacerdotisas, que se tornaram Rainhas e/ou componentes das mesas diretoras das Irmandades do Rosário em Minas Gerais, seria suficiente para não iniciados debruçados sobre o tema.

Por fim, o testamento de Inácia Pereira de Assunção, rainha e juíza do Rosário (1757), é peça riquíssima oferecida por Rodrigues e Maia, tanto para a análise da ciência histórica quanto para a fabulação crítica.

Outro destaque desse trabalho é a forma corajosa como os autores se filiam à afirmação do racismo religioso como obliterador de capítulos importantes da história negra na diáspora africana. Quando muito, historiadores têm falado vagamente sobre o tema da “intolerância religiosa”. Rodrigues e Maia nomeiam a coisa com todas as letras: trata-se de uma expressão religiosa do racismo, responsável pela perseguição, morte da subjetividade e extermínio físico de inúmeras pessoas negras por professarem religiões de matrizes africanas. 

Quem escreveu esse texto

Cidinha da Silva

Escritora e editora na Kuanza Produções, é autora de A menina linda e outras crônicas (Oficina Raquel).