História,

Axé contra o desencanto

Nei Lopes investiga as reverberações do sistema oracular Ifá consequentes dos fluxos e refluxos entre África, Brasil e Cuba

01mar2020 - 01h00 | Edição #31 mar.2020

O sociólogo francês Roger Bastide costumava fazer uma importante distinção entre as religiões de origem africana nas Américas. Para ele, as “religiões em conserva” eram as que, mesmo intensamente vividas pelos seus adeptos, imobilizavam-se ao não admitir nenhum tipo de mudança. O imobilismo poderia levá-las à extinção. Em contraposição, Bastide fala de “religiões vivas”, aquelas que passam por processos de transformação diante de novas realidades, influenciam e são influenciadas por conjunturas determinadas, transformam-se, lidam com a tradição de forma dinâmica e assim permanecem vivas e vividas pelos seus adeptos. É disso — de um saber vivo, dinâmico, adaptável, sofisticado, tradicional e contemporâneo — que Nei Lopes trata em Ifá Lucumí.

Em uma definição básica, Ifá é um oráculo do povo iorubá — grupo étnico-linguístico da África Ocidental, com presença significativa na Nigéria e no Benin — ligado a Orunmilá, o orixá do destino. Um mergulho mais profundo mostra que seu sistema oracular contém um impressionante conjunto de saberes e experiências que percorrem a história, a mitologia, a filosofia, a medicina, a cosmogonia, a matemática etc. Tais saberes se expressam em milhares de relatos originados pelos odus e formam um corpo assentado de conhecimentos.

Um odu é uma espécie de signo que rege o nascimento de cada pessoa e é revelado pelo oráculo. A tradição iorubá aponta dezesseis signos principais, cujas combinações perfazem 256 odus. Cada odu é composto de uma infinidade de poemas, relatando a história da criação e o papel que os orixás e outras espiritualidades exerceram nessa história primordial. O conjunto dos odus forma, então, o corpus canônico sobre o qual a tradição é constantemente lembrada e preservada.

Destino possível

Nos odus estão os caminhos e as possibilidades que cada um carregará para o resto da vida. Nesse sentido, odu é o destino possível. Nele se explicitam o que deve ser evitado, o que pode colocar em risco a existência, as comidas que fazem bem, as que fazem mal, as aptidões profissionais, a relação com os ancestrais, as folhas que curam, as folhas que matam e os ebós — procedimentos rituais — que salvam.

Ifá Lucumí busca fundamentalmente dar conta de toda essa multiplicidade e de entender como o Ifá africano chegou às Américas, no contexto do sistema escravista, e de que maneiras aqui se redefiniu. Mais particularmente, investiga a tradição lucumí, vertente cubana que se expandiu notavelmente no Brasil nos últimos trinta anos. Foi através de Cuba que o oráculo manejado por babalaôs, sacerdotes que em certo momento foram considerados extintos por aqui, retornou com força ao ambiente religioso afro-brasileiro, em uma relação muitas vezes tensa com os chamados candomblés tradicionais.

Com a preocupação de não revelar segredos iniciáticos, Nei Lopes acaba fazendo uma compilação da impressionante quantidade de saberes contidos em Ifá. Ditados, parábolas, poemas e resumos dos odus se agrupam para fazer de seu livro, por isso tudo, uma obra de referência incontornável e pioneira em tentar investigar as repercussões que os fluxos e refluxos entre África, Brasil e Cuba engendram nas práticas espirituais na diáspora.

Um dos méritos incontestáveis do trabalho é o de que, ao falar de Ifá nas Américas, Nei Lopes apresenta uma leitura muito sofisticada do fenômeno do sincretismo. Em vez de encará-lo de forma mecânica, o autor procura entender como a assimilação de novas divindades e a aproximação com santos do cristianismo e com as espiritualidades dos povos originais das Américas operam no sentido da acumulação de força vital — aquilo que Ifá designa como o axé que deve ser praticado. Cabe esclarecer que por prática do axé podemos entender aquela que elabora um modo de relacionamento com o real fundamentado na crença em uma energia vital — que reside em cada um, na coletividade, em objetos consagrados, alimentos, elementos da natureza, procedimentos rituais, na sacralização dos corpos pela dança, no diálogo dos corpos com o ritmo etc. — que deve ser constantemente potencializada, ofertada, restituída, trocada e transformada para que não se disperse.

Ifá Lucumí, que desde já passo a chamar de livro-legado, é fundamentalmente isso: um impressionante (pela quantidade de informações apresentadas) e bem-sucedido empreendimento de Nei Lopes — um intelectual de axé — contra a dispersão, a mortandade e o desencanto.

Quem escreveu esse texto

Luiz Antonio Simas

Historiador, escreveu Almanaque brasilidades (Bazar do Tempo).
 

Matéria publicada na edição impressa #31 mar.2020 em fevereiro de 2020.