História, Politica,

A sinuosa vida de um menestrel da política

Biografia conta a trajetória de Teotônio Vilela, que começou a carreira na UDN e migrou para a esquerda

09nov2018

Político e honesto são dois vocábulos que hoje não costumam andar de mãos dadas. Mas, há algumas décadas, não causariam estranheza aos leitores. E assim, juntinhos, eles aparecem na capa do livro Senhor República: a vida aventurosa de Teotônio Vilela, um político honesto, de Carlos Marchi.

E também era assim, duas palavras juntas, que imaginávamos por ingenuidade ou idealismo quando marchamos nas ruas, campos, construções no início dos anos 80, pedindo abertura democrática, Congresso livre, nova Constituição e eleições diretas. Tivemos as grandes concentrações pedindo Diretas-Já, em 1983 e 84, mas acabamos conseguindo eleições indiretas e um civil na Presidência.

Nosso muito especial e tropical Muro de Berlim, com militares do outro lado, se mostraria mais espesso e visguento. E demoraria a tombar. Ainda teríamos uma travessia longa para a construção da República que almejávamos e ainda perseguimos, no seu sentido mais literal, de eleger homens que cuidem da coisa pública acima de seus interesses privados.

Teotônio Vilela era um daqueles que batiam forte e tentavam transpor a muralha da ditadura. Foi seu perfil chapliniano de chapéu-coco e bengala, efeitos de um tratamento agressivo contra o câncer, que o cartunista Henfil escolheu para lançar o brado de Diretas-Já, que se alastraria pelo país, mobilizaria artistas e o quase centenário advogado Sobral Pinto, aplaudidíssimo na última concentração no Rio, quando pronunciou com voz trêmula a primeira frase da Constituição: “O poder emana do povo e em seu nome será exercido”. 

O Senhor República não chegaria a presenciar a retirada do último general-presidente, João Figueiredo, pela porta dos fundos do Planalto nem a eleição indireta que levou a chapa Tancredo-Sarney para o primeiro mandato civil depois de 20 anos de regime militar. Tampouco o terrível drama da doença de Tancredo, que o matou antes da posse, deixando o poder para seu vice e ex-aliado do governo militar, José Sarney.

No enterro do ex-senador em Maceió, em novembro de 1983, compareceram todos os nomes que dominariam a cena política da Nova República. Em primeiro plano, em foto reproduzida no livro, estão Ulysses Guimarães, que proclamaria a Constituição de 1988, Franco Montoro, que governava o Estado mais rico do país, Fernando Henrique Cardoso, que viria a comandar o país, e o senador Humberto Lucena, que presidiria o Congresso. Logo atrás, o jovem Carlos Marchi, que cobria os acontecimentos em Brasília e agora descreve a sinuosa trajetória desse improvável oposicionista, desde suas origens de boiadeiro nas curvas do rio São Francisco até os palanques das diretas. Fora da foto estavam Lula, Tancredo e Miguel Arraes, completando o quadro dos que liderariam a construção da nascente democracia.

Com o então líder metalúrgico e criador do PT nasceria uma amizade daquelas que surgem nos momentos mais tensos da história: greve nas fábricas de automóveis, soldados e blindados ocupando ruas de São Bernardo, a população refugiada na igreja, Lula preso no Dops. Uma fagulha desandaria em pancadaria e sangue.

O velho senador tomou a frente das negociações, atravessou a praça que separava os militares dos civis e foi negociar com o coronel que comandava 14 mil soldados. Segundo o então senador Fernando Henrique Cardoso, “Teotônio parecia um cisne deslizando na água”. “Era um homem de grande coragem física e pessoal, que arriscava além dos limites do ponderável”, contou o ex-presidente em depoimento ao autor. Sem titubear, pediu ao coronel para retirar suas tropas e deixar a multidão passar, porque senão seriam ele, o senador, e o coronel os primeiros a morrer. O coronel pediu para a tropa se afastar e a manifestação popular de 1º de maio de 1980 aconteceu sem incidentes.

O fim da greve em São Bernardo do Campo, que se arrastava há um mês, exigiria de Teotônio outros contorcionismos não muito usuais para um senador: escondeu-se no banco de trás de um carro do Dops, do então diretor Romeu Tuma, para se encontrar secretamente com Lula na cadeia e obter dele um bilhete que autorizasse que ele, um usineiro de Alagoas, negociasse em nome dos trabalhadores. Lula acreditou em Teotônio, e a greve terminaria sem grandes conquistas após 41 dias, mas com a liberação dos líderes metalúrgicos.

A trajetória que levou o usineiro alagoano, que começou na política na direita, aderindo primeiro à UDN e depois à Arena, até o grupo mais à esquerda do MDB, tem um curioso ingrediente feminino. Desde jovem Teotônio era chegado à boêmia em Alagoas, amigo de notórios beberrões, fumante inveterado, sem prejuízo de seus negócios, de um casamento sólido e da atenção aos sete filhos.

Mas na campanha pela Anistia política, em 1979, Teotônio então com 62 anos, conheceu uma morena cearense 25 anos mais nova, que militava num dos movimentos de esquerda: Maria Luiza Fontenele, que viria a ser a primeira prefeita do PT numa capital brasileira, Fortaleza, em 1986. Essa proximidade e os desmandos cada vez mais desastrados dos governos militares levaram progressivamente Teotônio a assumir posições mais à esquerda depois que migrou para o MDB, assustando até os mais moderados Ulysses e Tancredo.

Seu caminho político sinuoso sempre confundiu os que preferem ver a realidade em preto e branco. Mas sua coragem, nos últimos anos de vida, recebeu o afeto e a admiração de um enorme número de brasileiros que também se dedicavam a remover suas pedrinhas da barreira militar que se interpunha à democracia.

O cartunista Henfil, outro que sabia que não lhe restava muito tempo de vida por ter recebido transfusão de sangue com o vírus HIV, mas se batia com imensa energia contra o regime, virou praticamente membro da família Vilela. Os músicos Milton Nascimento e Fernando Brant compuseram para ele Menestrel das Alagoas, que recebeu interpretação emocionada de Fafá de Belém, presença constante na luta pelas Diretas-Já.

Marchi conta, com o entusiasmo de um fã de Teotônio, seus passos e cavalgadas desde os anos de juventude em que laçava bois no São Francisco até os tempos de transição no Senado, quando muda os recados sutis à ditadura, nos tempos de Arena, para o combate aberto ao regime, quando passa para a oposição. Um livro que dá saudade a quem viveu aqueles tempos e homenageia um político que merece um lugar entre os personagens que contribuíram para o fim do mandonismo militar no Brasil.

Quem escreveu esse texto

Ricardo Lessa

Jornalista, é autor de Amazônia: as raízes da destruição (Atual/Saraiva).